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A Pesquisadora

Enquanto conversávamos, a Advogada disse que talvez o melhor fosse nos relacionarmos com amigos. Afinal, já os conhecemos e as máscaras, e ilusões vendidas para despertar o interesse um do outro não existem mais…

Por Giselle Mathias

A Pesquisadora começa a rir, e nos revela em sua história que nem sempre é assim, e não sabe se vale a pena correr o risco de perder um amigo por uma relação amorosa.

Compreendo a Pesquisadora! Como ela mesma diz as relações não tem regras, mas acredito que alguns comportamentos padrões, femininos e masculinos, são quase que unânimes, e por isso burros (como dizia Nelson Rodrigues “Toda a unanimidade é burra”). Refletir sobre como me comporto, quais os meus padrões e como eles me afetam tem sido um exercício interessante, pelo menos fazem com que eu me afaste de situações encarceradoras.

Preciso dizer, antes que o argumento clichê chegue, não odeio os homens e, também, não os vejo como inimigos, mas acho necessário que reflitam sobre como veem e tratam as mulheres, sejam as que passam ou as que permanecem. 

Sobre isso falarei depois. Quando contar a minha história!

E a Pesquisadora começa a contar a sua. Depois de um longo casamento, sem filhos, e a separação amigável, ela reencontra um amigo da adolescência, estudaram juntos no ensino médio, e agora estavam os dois separados.

Eles sempre foram muito amigos, e ao se reencontrarem parecia que nunca tinham se afastado, conversavam longamente, se divertiam muito e se tonaram, novamente, confidentes um do outro.

Ela o via como um grande amigo, quase um irmão, nunca o vira com interesse, nem mesmo após o reencontro. Conversavam sobre tudo, aconselhavam um ao outro sobre os dissabores que se apresentavam, em muitos momentos riam e se divertiam como se a adolescência tivesse voltado, e isso era prazeroso, uma relação verdadeira sem intenções e vista por ela como recíproca.

Aparentemente, ele também a considerava como amiga, mas com a convivência, a Pesquisadora começou a observar uma mudança de comportamento, e a amizade parecia se alterar. A intimidade dos dois se tornara profunda, ele a procurava todos os dias, dizia o quanto seria bom se olhassem um para o outro de maneira diversa, o quanto era especial, e o desejo que desenvolvia em estarem juntos, mas como eram amigos nada poderia acontecer. No entanto, ela começara a acreditar na possibilidade de se envolverem, de serem mais que amigos.

Aqui, talvez vocês pensem que esse sentimento, simplesmente, partiu única e exclusivamente dela, um afeto desenvolvido a partir de sua própria expectativa, que estaria fantasiando, pois como dizem por aí “mulheres sempre querem relacionamentos”.

Acontece que não é bem assim, não no caso da Pesquisadora. Ela é muito divertida, e a vida é leve, com uma visão muito otimista do futuro, e o presente vivido com intensidade e confiança.

Não vejo todos os seres humanos como iguais, mas alguns comportamentos são bem similares, e por isso não é tão difícil avaliarmos o que aconteceu no caso da Pesquisadora.

Vamos ao caso!

O Amigo passara por uma situação muito difícil com sua separação, ele tem dois filhos, e sofria muito com o distanciamento, porque a ex-mulher decidira voltar para sua terra natal, onde seria mais tranquilo, pois teria o apoio de seus familiares e um bom emprego, em uma cidade com o custo de vida mais acessível à sua renda.

A dor da saudade dos filhos, o fim do casamento, o fragilizaram, precisava de uma companhia, de alguém que o compreendesse, um ombro amigo, atenção e consolo. A Pesquisadora foi essa pessoa, que lhe dera o que necessitava, muitas conversas, encontros diários, e uma rotina que requeria dela toda a disponibilidade exigida pelo Amigo. Estava, aparentemente, totalmente desnudo diante dela, parecia não haver mentiras, tentativas de manipulação ou da conquista do território feminino, pois tudo sempre era dito como se fosse apenas uma admiração.

Mas como eu disse aquela relação de amizade foi se alterando!

A frequência dos encontros agradava a Pesquisadora, a cumplicidade deles e franqueza naquela relação lhe proporcionava alegria, era o irmão que não tivera, era filha única, e apoiá-lo era algo que lhe preenchia, seu ser feminino fora construído para servir, cuidar e consolar.

Eles saiam muito, e ela não se importava com as paqueras dele, até o incentivava a encontrar alguém e superar o fim do casamento que lhe fazia sofrer, entendia que eram parceiros e por essa característica desejava a sua reconstrução, o preenchimento daquele vazio que tanto lhe angustiava.

Porém, em uma noite o Amigo começou a lhe dizer o quanto a admirava, estava feliz em estar ao lado dela, se sentia à vontade e compreendido. Ela lhe disse que enxergava o mesmo, se sentia muito bem com aquela relação de amizade e cumplicidade que tinham. Mas, de repente ele lhe abraça e rouba um beijo de seus lábios.

Assustada, o afastou com a mão, e disse que não entendeu aquele gesto, pois eram amigos, eram como irmãos, não havia sentido se olharem de outra forma. Brincando, falou que seria quase um incesto tentarem uma relação amorosa.

No entanto, o Amigo disse que a desejava, e sua fala não aparentava mais ser uma brincadeira, falou que sempre a olhara, desde que a conhecera na adolescência. Naquele momento a Pesquisadora deu vazão ao sentimento que estava escondido e recolhido dentro de si, o desejo de encontrar um companheiro, e passou a acreditar que poderia ser o Amigo, que desenvolveriam uma boa relação, já que o conhecia bem, possuíam muita sintonia e cumplicidade. Eles eram amigos e partilhavam a vida, poderia ser algo que lhe trouxesse o que sempre buscara.

Mas fomos surpreendidas com a fala da Advogada. Nesse instante, ela interrompeu a Pesquisadora e sentenciou:

Querida! O que ele fez pode ser considerado assédio, você não consentiu com o beijo, e, ainda, se aproveitou da sua amizade e confiança!

Nos assustamos, nunca havia pensado assim, apesar de jamais me envolver com amigos. Já passei por inúmeros galanteios e tentativas de conquistas. Pensando sobre o que a Advogada disse, me parece que somos ensinadas a tolerar e até acreditar que esses gestos são demonstrações de afeto, que o fato de não consentirmos é tolerável, e, assim, nos tornamos mais vulneráveis à violência daqueles que são construídos nos moldes culturais do machismo.  

Após o choque da sentença, a Pesquisadora continuou com sua história, e nos disse que após alguns dias do beijo roubado, surgiu para ela a crença na possibilidade da entrega de seu corpo e alma ao Amigo. Mas veio o afastamento, as conversas se reduziram às redes sociais, a tela do celular passara a ser o contato; não havia encontros. Porém, apesar desse afastamento, sempre justificado pela falta de tempo, ela sentiu-se cada vez mais envolvida.

Aquele beijo, as falas e demonstração de um carinho aparentavam um querer, e quando ocorreu o encontro, depois de várias semanas, ele chega como se nada tivesse acontecido, a trata como a velha amiga, e fala sobre as mulheres com as quais estivera no tempo em que não a encontrara, joga sobre ela as frustrações e as dores das saudades dos filhos e dos desentendimentos com a ex-esposa.

Ela escuta atentamente, e acredita ter entendido errado aquele beijo, que havia criado para si uma ilusão, talvez estivesse carente e sua ânsia por uma relação a tivesse levado a se apaixonar pelo Amigo. Afinal, o que dizem por aí, é que as mulheres são carentes e estão desesperadas por um relacionamento, lutam entre si em busca do “troféu”, frases feitas, construções culturais impostas, e mesmo que a realidade se mostre diferente, ainda a reproduzem sem perceber, e a decepção aparece mais rápido do que se imagina, o vazio se instala, porque o troféu, esse, não passa de uma pequena caneca de latão, que utiliza as ilusões da instrumentalidade humana para sentir-se apenas, em um átimo de segundo, o Divino que jamais será, pois é apenas um homem.

Naquele encontro ela decidira esquecê-lo, entendeu que apenas se iludira, mas ele começara a tratá-la como se fosse sua propriedade, o território conquistado, não podia mais dizer a ele sobre os homens que lhe interessavam, ou sobre os que retornaram do passado para novos encontros. As atitudes dele não revelavam o seu real interesse, ela não conseguia desvelá-lo; até os amigos em comum diziam que ele demonstrava desejo, pareciam até um casal.

Sim! Pareciam um casal.

Aqueles que já não se beijam, não andam de mãos dadas, mas estão sempre juntos, provocando um ao outro através de brincadeiras que são na verdade uma clara tentativa de diminuir e humilhar para dominar, mostrar-se em uma falsa superioridade, e fazer todos crerem que aquele território já estava dominando, e ninguém mais poderia se aproximar.

Claro, que para ele manter seu status de troféu não bastava apenas iludir os juízes varões, precisava fazê-la acreditar na possibilidade de um possível relacionamento. Era necessário continuar construindo a ideia que despertara nela quando lhe beijara, não poderia deixar aquele território abandonado, mesmo que ele não tivesse o interesse de permanecer e construir lá sua morada.

Ele se regozijava com o afeto da Pesquisadora, porque lhe preenchia o vazio, inflava o próprio ego, e o fazia crer que era a própria estatua de Davi, ou um troféu tão almejado.

Ela não percebera que havia sido encarcerada, o afeto que tinha pelo amigo se misturava com a ilusão de uma paixão, não sabia mais como se sentia ao lado dele, mas vira que só recebia migalhas, e agora não era de um homem qualquer, para o qual ela já estava preparada para recusar, mas do amigo, que se aproveitara da relação sem armaduras para aprisiona-la na ilusão de uma reciprocidade inexistente, pois seu objetivo sempre foi a conquista da terra, mais uma para exibir aos seus pares da masculinidade.   

A Pesquisadora demorou para perceber o que lhe acontecera, a ilusão de uma relação que jamais existiu. Tinha sido vista e desconsiderada enquanto humana, o Amigo não respeitara o afeto e não tivera consideração pela amizade, olhara para ela como mais uma propriedade, como mais uma terra a ser conquistada, não a via como igual, não teve reciprocidade no que ela primeiro lhe proporcionara, fraternal a irmandade.

Ela não teve o relacionamento amoroso e descobriu que nem mesmo teve a amizade que tanto valorizava. Fez a tentativa de reconstruir os laços de amizade, mas apenas obteve o silêncio, esse que eles gostam de tratar como resposta, mas na verdade é a opressão, é a possibilidade de manter à disponibilidade, acreditando sempre no padrão da compreensão de Eva, em que voltam a se aproximar com a mesma naturalidade do passado, como se as dores causadas nunca tivessem existido, e as desculpas jamais precisam ser ditas.

Hoje se tornaram apenas conhecidos, ele se recusou a dialogar, disse que tudo era uma grande bobagem, que ela superasse; a silenciou. Desconsiderou o afeto, a tratou como se servisse apenas para atendê-lo, pois o que lhe interessava era dar prazer ao seu ego, suprir suas necessidades e vazios emocionais.

Percebi em sua fala a mágoa, a decepção e dor pela perda, nada sobrara daquela relação. 

Os padrões em que somos moldados estava totalmente presente na situação que a Pesquisadora vivera, e não posso dizer se ela observa ou observou como se envolveu nessas teias, a partir do que conhece como comportamento esperado, e, constantemente reproduzido por homens e mulheres.

Acredito que não questionamos como estamos instrumentalizando o outro para suprirmos as carências produzidas por um sistema tão competitivo. Nossos vazios não se reduzem a ausência de um companheiro ou companheira, e a necessidade humana não pode ser preenchida pelo consumo, pelo acúmulo, nem por bens materiais.

Quando olhamos para o outro como um mero objeto, a ser utilizado para atender ou preencher momentaneamente um vazio, quando estamos a todo momento tentando, através de máscaras, nos mostrarmos como perfeitos, apenas reproduzimos um modelo ideal imposto, não o que somos verdadeiramente, e as angústias do vazio vão se instalando dentro de nós. Sabemos que ao tratar o humano como descartável, também, seremos vistos e tratados como descartáveis, pois são essas as relações superficiais, rarefeitas e com aspecto de voyerismo que estão sendo produzidas e induzidas insistentemente pelo outro. 

Talvez por causa do medo do sofrimento, por sermos considerados descartáveis, para o trabalho, para as amizades, amores e até para as famílias, o estar só, assumir a solidão e aceitar o discurso que os likes e os emojis são suficientes para aplacar o vazio de nós mesmos seja a única alternativa que nos resta. 

Mas quero acreditar na possibilidade da reflexão, de não sucumbirmos a escravidão que nos é imposta por meio de um sistema cultural violento, que nos formata e define como devemos nos vestir, o tamanho de nossos lábios, a cor dos cabelos, o formato do corpo, a como nos comportar, desejar e amar aquilo que é vendido como padrão de um falso sucesso. Porque apesar de cumprir todos os padrões impostos, a nossa unicidade e individualidade gritam, e o vazio para tentar ser algo que não somos, se instala, e a dor e angústia passam a dominar nosso ser; mesmo que não consigamos entender.

A Pesquisadora superou a dor e a decepção, hoje se reconstrói, nos diz que a amizade, nossos encontros, a compreensão e solidariedade que temos umas com as outras, faz com que ela tenha fé e esperança na vida. Acredita no humano, e quando encontra pessoas que possuem a mesma fé que ela, se conforta. A verdade, o diálogo, a reciprocidade e cumplicidade que temos nos preenche e nos alimenta na alma.

Nessa noite, a do encontro de amigas, estávamos alegres, sentíamos a felicidade de estarmos juntas, do olhar nos olhos, de ouvir uma à outra, de concordar e discordar, regozijávamos e compartilhávamos nossas experiências, os afetos e a vida. 

E a Nutricionista nos trouxe algo a mais para pensarmos, e revermos como nos tratamos, falou sobre a tal “rivalidade” feminina. Atitude insidiosa que reforça o machismo e nos afasta de nós mesmas.


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