Irmãs de Alma

Desde criança sempre ouvi dizer que mulheres são rivais; que a amizade entre nós não é possível; sempre existirão as tretas, mas eu conheço uma mulher incrível…

Por Giselle Mathias

Nos tornamos amigas quando meu casamento estava no fim; naquela fase em que ainda tentamos salvar algo, seja pelo costume, pelo medo do novo, pela aparência social, cobrança da família e a nossa própria, em tentar ser a mulher e esposa perfeita, mesmo que saibamos a impossibilidade de sermos humanos perfeitos.

Imaginem que eu apesar de formada, com duas pós-graduações, vivia para os meus filhos e marido; o foco da minha vida era meu núcleo familiar, todo o resto era supérfluo: minha carreira, desejos, o meu existir, pois como mãe e esposa os interesses da minha família eram prioridade. 

No entanto, nunca foi suficiente, sempre faltava algo, eu era sempre a atrapalhada, quase sempre errada, e as decisões nunca eram partilhadas, mas eram únicas e exclusivas ao masculino, porque a desigualdade era o que imperava na relação. 

Claro! Meu marido nunca viu isso, não havia o diálogo, mas apenas conversas superficiais sobre os filhos, a dinâmica da casa, as empregadas, e a tentativa de desempenhar o papel de esposa perfeita, o qual nunca era atingido.

Mas ainda não chegou a hora de contar essa parte da minha história, vamos deixar mais para a frente.

A Nutricionista é uma mulher negra, magnífica. Me mostrou a leveza da vida, a fortaleza da mulher e a verdadeira amizade, baseada na lealdade, cumplicidade, apoio e compreensão. Minha amiga derrubou vários paradigmas culturais do padrão feminino, ela não faz só o discurso, mas também age com solidariedade, amizade, carinho, compreensão, e a verdade é a essência dessa relação fraternal. Não há julgamentos, apenas a aceitação do que somos.

Ela é uma mulher livre e independente, sabe se colocar nos espaços, desenvolve as relações sem olhar em espelhos, vê o humano e considera o que cada ser lhe apresenta, pondera sempre sobre a construção individual de cada um, mostra e escancara os padrões e com muita habilidade, carinho e serenidade. os mostra para a reflexão e mesmo que haja a discordância. compreende e aceita o momento, a visão e como o outro deseja se ver e se mostrar ao mundo.

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Nos trouxe situações em que nós mulheres, sem perceber, reproduzimos a lógica do “troféu” masculino, competindo e nos afastando umas das outras, aceitando a famosa construção da “rivalidade feminina”; a nossa valoração a partir do olhar do macho, que no final das contas é o lugar em que nos colocamos, mesmo sem a intenção de ocupá-lo.

As histórias são muitas, porque a tal rivalidade é até incentivada culturalmente. A Nutricionista diz que as novelas, os filmes, vendem esse comportamento como natural e nós, simplesmente vamos reproduzindo, sem falar que essa forma de agir também nos deixa no lugar da disponibilidade.

Ela conta que, saindo com amigas, sempre se sente completa, mas já passara por situações que a deixaram desconfortável, ao ver duas amigas se desentendendo por causa de um “cara”, o qual, nenhuma das duas estava envolvida. Percebeu que o tal “cara” se sentia o próprio troféu, era visível em seu rosto e atitudes o quanto se deleitava com duas mulheres o disputando e se colocando a disposição para sua escolha.

Eram quatro amigas sentadas em uma mesa de bar, conversando e se divertindo, quando chega o Rapaz e cumprimenta a Amiga 1. Após o cumprimento o Rapaz se afasta e vai se sentar em outra mesa com amigos. A Amiga 3 pergunta sobre ele, havia o achado interessante. Todas comentaram que ele tinha um belo sorriso, e a Amiga 1 diz que que havia tido um lance com ele, mas nada avançara, tornaram-se colegas.

Minha amiga Nutricionista perguntou se havia sentimento dela por aquele Rapaz, e ela disse que não, nem mesmo quando ficaram juntos, havia sido apenas um caso, eles perceberam que não tinham sintonia, e não queriam estabelecer uma relação mais próxima, tinham sido honestos um com o outro.

Com um sorriso no rosto a Amiga 3 aproveita, e pergunta se haveria algum problema se ela tentasse uma aproximação com o Rapaz, porque percebera os olhares furtivos que ele lhe lançava da mesa enquanto bebia cerveja com amigos. A Amiga 1 responde que não havia nenhum problema, e com muitos risos, começaram a falar sobre o desempenho do tal Rapaz.

Depois da liberação, a troca de olhares entre a Amiga 3 e o Rapaz se intensificaram. A Nutricionista disse que até aquele momento tudo transcorria bem, e como ela enxergava a vida e a amizade com lealdade, franqueza e cumplicidade, pois era o que se apresentava naquele momento. Ela se surpreendera com a Amiga 1 quando o Rapaz após se despedir dos amigos, decidira perguntar se poderia sentar à mesa, o que lhe foi consentido. Mas quando puxou a cadeira para se sentar ao lado da mulher com quem trocava olhares, a reação da Amiga 1 deixou a Nutricionista assustada.

O Rapaz senta-se ao lado da Amiga 3 e a paquera que antes estava distante, apenas na troca de olhares, se aprofunda com a troca de sorrisos e uma conversa animada. Era visível que os dois estavam interessados um no outro, todo o gestual era como uma dança de acasalamento, com leves toques, olhares e pequenas inclinações do corpo em direção ao objeto desejado. A atenção, essa, só era compartilhada entre eles, parecia que não havia mais ninguém naquela mesa.

A Nutricionista contou que aparentemente estava tudo bem, mas a Amiga 1 começou a se comportar de uma forma que ela nunca tinha visto. Olhava para o Rapaz e a Amiga 3 com incomodo, não conseguia desviar seus olhos e os observava em cada toque, cada palavra, em cada sorriso. Não disfarçava o quanto aquela situação a deixara desconfortável.

Incomodada com a reação da Amiga 1, ela a chama para ir ao banheiro – tática conhecida das mulheres quando desejam comentar sobre algo, seja para falar do carinha da mesa ao lado, seja para comentar sobre os figurinos dos frequentadores do bar, ou só para fazer aquela que é a função do banheiro. Nesse caso, a Nutricionista queria saber o que incomodava a Amiga, pois todo o brilho do seu sorriso havia desaparecido de seu rosto, e não prestava mais atenção na conversa, nem mesmo nas ótimas piadas da Amiga 2.

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A Amiga 1 disse que não havia nada de errado, era apenas impressão, tudo estava tranquilo. Ela insistiu e perguntou se a situação com o Rapaz era o motivo da sua súbita mudança de humor, mas ela negou e que repetiu que não havia nada de errado. As duas voltaram à mesa, e o que antes era apenas o incomodo, expressado pela face, tornou-se verbal. Ela começou a ser agressiva com a Amiga 3, depreciava tudo que ela falava, constrangia-a contando histórias de outros carinhas que ela teria se envolvido, insinuando que ela era a tal da “mulher fácil”.

Infelizmente aquela situação não me espantara, o padrão machista também é reproduzido por nós, lembrei de situações na adolescência e do quanto foi difícil para mim ouvir de outras mulheres que eu não deveria me separar, pois na minha idade ficaria só, nenhum homem me olharia ou teria desejo por mim. Não esqueço como me senti, era como se eu não tivesse nenhum valor, a sensação de invisibilidade se aprofundou, porque eu seria a “mulher largada”, sem um homem que mostrasse a sociedade que eu era “boa”.

Talvez pensem o quanto é absurdo o que falo, que já não é mais assim, as mulheres hoje são independentes, e nada disso faz sentido. No entanto, como disse, há padrões tão arraigados, que sequer percebemos que o praticamos, já estão tão introjetados que é difícil modificá-los, precisam vir ao consciente para serem alterados.

Confesso a vocês que tive a sorte em minha vida de ter conhecido a minha Irmã de Alma, essa mulher que mostrou o valor da minha humanidade, o meu direito de existir e me trouxe a consciência os padrões do machismo, que me colocavam vulnerável a sentimentos e dores que me paralisavam, impediam minha independência, me tornavam prisioneira de padrões abusivos, me colocavam a disposição do desejo do outro e na submissão da minha existência a alguém que sequer me enxergava.

Ela continuou o relato sobre aquela situação que revelara todo o padrão insidioso de uma rivalidade que nos é introjetada desde que nos entendemos como mulheres. A Amiga 1 colocara aquele homem, o Rapaz, no lugar do troféu, iniciara, com seu comportamento de depreciar a Amiga 3, uma disputa; desejava mostrar que era “a melhor”, a merecedora do prêmio fálico que se apresentava na mesa. O fim da noite foi constrangedor com a Amiga 3 levantando-se da mesa, dizendo a “rival” o quanto desagradável e que não serviria de trampolim para ela se enaltecer, jamais entraria naquela disputa infantil. Despediu-se de todos e foi embora.

O Rapaz, esse não ficou constrangido, estufou o peito e agiu como um pavão, levantou-se imponente e foi beber sua cerveja no balcão, encontrou outra mulher, onde, após a situação que lhe levantara o ego e a confiança, iniciara mais uma partida do jogo da paquera e talvez conquistar um território e, depois do seu desejo atendido, virar para o lado e descansar como se fosse o guerreiro vitorioso.

As amigas ficaram estremecidas, mas após uma boa conversa entre si, e, a Amiga 1 ter percebido que reproduzira um padrão o qual abomina, se desculpou, e não perderiam a amizade uma da outra por causa de um macho trivial.

A Socióloga, após a narrativa pela Nutricionista, disse que passou por uma situação horrível por causa de uma fofoca inventada, e agora percebeu que tudo aconteceu em razão de uma disputa insana, a qual é enfrentada para atender aos padrões estabelecidos por uma sociedade sexista em que mulheres são valoradas a partir do olhar masculino.

Nos entreolhamos e resolvemos pedir a conta, o dia seguinte era de labuta. Nesse momento o silêncio se instalou, ficamos pensativas e a Nutricionista sorrindo disse que contaria mais uma história antes de encerrarmos aquela noite.

A Nutricionista nos disse que assim como a Socióloga enfrentou uma situação horrível de fofoca, em que seu nome fora envolvido, porque uma Mulher interessada em um homem acreditando que ela seria sua “rival” tentou destruir sua imagem, com objetivo de conquistar aquele que ela valorava como troféu.

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Com certeza ela não conhecia a Nutricionista, jamais ela entraria em competição ou qualquer disputa pela atenção, desejo ou amor de um homem. Como já disse ela vê o humano, só se relaciona com reciprocidade, onde os desejos e sentimentos são compartilhados. Assim, como a Advogada não acredita em conquistas, o humano para ela não é território.

Entende as relações que ela vive, age com muita transparência, verdade e sinceridade, não permite ser colocada em nenhuma situação em que se sinta desconfortável, na disponibilidade, ou ser desconsiderada nas suas vontades e desejos. Acredita que qualquer relação precisa ser confortável para ambos, que não cause sofrimentos; por isso só permanece naquelas em que a igualdade e respeito estão presentes.

Não imaginem que ela é uma pessoa impositiva, inflexível ou irredutível, ao contrário é compreensiva e sabe ceder, mas também quer ser compreendida e acredita que o outro também saiba ceder. Se tentam impor-lhe a submissão ou que trate suas ambições como secundárias e desimportantes, rompe, com delicadeza e carinho, mas deixa claro que há espaço para o crescimento e cooperação de ambos, e se não enxergam isso, não a compreendem. Então, segue adiante.

Ela nos contou que se envolvera com um Homem interessante, mas não conseguiram levar o relacionamento amoroso por muito tempo, ficaram amigos. Ele percebera a natureza dela, sua independência e humanidade, reconheceu seus machismos e não queria fazê-la sofrer. Sabia que ela não o acompanharia, não renunciaria a sua carreira e família para, simplesmente, seguir o estilo de vida dele. 

Sempre que a encontrava dizia o quanto gostava dela, com a considerava um paradigma e, sentia sua falta, mas respeitava sua decisão. Ele sempre tentava convencê-la, não perdera totalmente o padrão masculino da conquista, porém a sinceridade e leveza como o tratava, faziam com que ele, simplesmente, continuasse a admirá-la e acima de tudo respeitá-la.

Um dia encontraram-se em uma festa, todos se divertiam, eles conversavam e uma Mulher se aproximou dos dois, o cumprimentou e, se apresentou a Nutricionista. Nada de estranho naquela situação, foi o que ela pensou naquele momento. 

A Mulher era conhecida de um grande amigo dela e permaneceu junto ao grupo em que estava na tal festa. A noite transcorreu bem, com tranquilidade e muita alegria. Quando esse grupo de amigos se encontravam faziam, literalmente, a festa, dançavam, riam, aproveitavam ao máximo esses momentos e se sentiam como pássaros livres em revoada.

Após alguns dias da festa, a Nutricionista encontrou com o Homem quando fora almoçar próximo ao seu consultório. Como sempre ele se aproximara com muito carinho, mas lhe disse que tinha ido aquele restaurante, porque sabia que iria encontrá-la e, precisava muito conversar com ela e alertá-la sobre uma situação constrangedora que envolvia o seu nome.

Assustada com a fala dele, pediu que não fizesse rodeios, era para contar tudo sem reservas, pois a verdade é o que a guia. Ele assentiu com a cabeça e disse que jamais esconderia qualquer coisa, ainda mais algo que sabia ter sido inventado e, que se tratava de uma mentira.

Iniciou a história contando o quanto se sentia constrangido, mas precisava lhe dizer sobre o que a Mulher da festa, sua conhecida, havia feito. 

Ele a tinha conhecido em um bar, aproximadamente, há um mês e lá conversaram e trocaram telefone quando se despediram. Começaram a trocar mensagens, mas ele não havia se interessado em encontrá-la novamente, disse que não pretendia mais sair com ela, porque percebera que não tinham muitas coisas em comum.

Mas, como todo o homem, evitou dizer a Mulher que não queria se relacionar, achava que com o tempo ela perceberia e não o procuraria; iria diluir o contato, como costumam dizer. Ela insistiu no contato, acreditava que poderia conquistá-lo, apesar de terem apenas conversas superficiais, se colocava totalmente na disponibilidade, tentava seduzi-lo com inúmeras fotos sensuais, mas as tentativas de encontros eram frustradas.

No entanto, como ele se sentia o troféu, não dizia a ela que estava sendo inconveniente. Até que o telefone tocou. Era a Mulher dizendo que tinha tomado a liberdade de ligar porque havia ouvido da Nutricionista que ele era um canalha, para que ela se afastasse dele, ou iria sofrer muito. 

Ele estarrecido disse que não entendia o que ela estava falando, que isso não era verdade, mas ela insistiu. A Mulher contou que após ter encontrado com a Nutricionista e o amigo em comum e, como percebera também o carinho e afeição que o Homem tinha por ela, decidira lhe falar como a Nutricionista falava mal dele.

Na hora ele entendeu! A Mulher havia percebido a conexão deles e tentava, através da intriga, afastá-lo da Nutricionista, aquela que considerava como rival, como a adversária que o impedia de ficar com ela.

Estarrecida com a história, a Nutricionista só disse.

– É mentira! Nunca encontrei com a Mulher.

Ele sabia!

Contou a história para que ela ficasse alerta, percebeu o que havia acontecido e o erro que cometera em não ter sido sincero com a Mulher e, dito que não tinha interesse em estar com ela, não deveria ter permitido que aquela situação se prolongasse tanto. Agora entendia o que a Nutricionista lhe falava sobre os padrões e o quanto eles nos aprisionam e causam estragos e dores a homens e mulheres.

Mais uma vez lhe disse o quanto tem carinho por ela e como ela realmente representa ser um paradigma de ser humano.  

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