Mulher para casar 2

As histórias são muitas e confesso que ao final são todas tão repetitivas que para mim tornaram-se até entediantes; acho que muitas mulheres estão cansadas; dizem que algumas optam por se relacionarem com outras em razão do quão o comportamento masculino está exaustivo, outras preferem comprar ou adotar animais de estimação e muitas decidem ficar a sós porque não aguentam mais se depararem com as mesmas falas, atitudes, cantadas e ilusões vendidas…

Por Giselle Mathias

Confesso que ainda sou esperançosa, pois conheço um que quebrou esse padrão tão previsível e cansativo; tudo bem que nas minhas andanças ele é único; um advogado, interessante, divertido, sexy e solteiro que diferente de todos possui uma relação de reciprocidade e honestidade comigo. Nos conhecemos há quase três anos. No começo me encantei com ele, desejei a relação oficial, e ao percebermos que havia um descompasso em nossos desejos, resolvemos conversar sobre o que esperávamos um do outro: uma conversa franca, honesta, onde tanto eu quanto ele expusemos nossas expectativas, sem máscaras, sem subterfúgios e sem enganos. Após esse diálogo decidimos que o ideal era mantermos a boa amizade que se iniciava com a possibilidade de curtirmos um ao outro sempre que assim desejássemos, de comum acordo e com uma disponibilidade mútua.

Muitos vão dizer que também são assim, mas contarei aqui a diferença dele, o porquê temos algo verdadeiro, real e tranquilo; nós estamos disponíveis um para o outro, temos a liberdade de dizer o que queremos e quando, sem que ele me veja como seu território, ou que eu esteja “correndo” atrás; a procura não é só dele, não é só no momento dele, mas há reciprocidade e troca entre nós. Valorizamos o tempo um do outro e quando nos ajustamos, os encontros acontecem sempre regados de muito desejo. Há respeito e entrega, não definimos o que temos, com certeza não é um namoro, nem uma amizade com benefícios, mas dois humanos que sentem prazer na companhia um do outro, sem que haja cobranças de nenhum dos dois, sem que estejamos gerando qualquer tipo de ilusão entre nós, há lealdade e verdade entre mim e ele, a liberdade de nos expormos e compreendermos um ao outro, o que nos proporciona uma cumplicidade. Não é o tal relacionamento “leve” proposto pela maioria dos homens, aquele em que a mulher precisa se calar diante do que não a satisfaz para não perder o “cara”, em que fica disponível esperando o momento de talvez ser a escolhida, em que ele disponha de um tempo em sua vida tão “atribulada” por causa “do trabalho”, “dos filhos”, “da cerveja com os amigos”, “do jogo de futebol”, “do passeio com o cão”, “do sono perdido”, etc.

Não digo aqui que não desejo em algum momento ter um relacionamento com alguém, algo mais próximo e estável, mas percebo em mim que desejo o verdadeiro, honesto, sem as imposições do que é o papel da mulher, ou a crença de que sou um território conquistado e por isso devo ser dominada e aprisionada, aguardando na extensa fila de “prioridades” o momento de ser agraciada com a presença do masculino.

Vou contar um episódio só para ilustrar, que muitas de nós com certeza já devem ter passado por algo similar. Imaginem a situação: Aquele rolinho, o carinha que de vez em quando encontramos e toda vez rola um clima e acontecem uns beijinhos. Pois é! Certa vez em um desses encontros, depois de muita conversa, um jogando charme para o outro, decidimos sair do barzinho em que estávamos e fomos para um lugar em que pudéssemos estar mais à vontade e deixar acontecer o que há muito ficava só no desejo. Poderia ter sido o dia, mas qual não foi minha surpresa quando do nada ele olha para mim e diz: “Você estava nua hoje, e não era para mim.”

Ops! 

Me assustei! Brochei! Como assim eu estava nua? E desde quando me visto para alguém a não ser para mim mesma? O que eu tenho a ver com o olhar ou o desejo do outro? 

Não pude conter minha indignação, agradeci o encontro, pelos beijos e carícias que tinham acontecido até a frase reveladora do padrão de macho egóico e me despedi. Dias depois comentado a história com minha amiga Pedagoga, pelo telefone, disse que fiquei sem acreditar na ousadia dele em pensar e verbalizar a ideia de que eu era seu território e, nesse caso, uma casa de veraneio, aquela que você só vai nas férias, a qual fica fechada o resto do ano. Definitivamente, percebi o quanto ele está inserido em padrões egocêntricos do macho troféu, aquele em que é o conquistador, dominador, em que apenas o seu tempo é valorado e o outro deve estar disponível e ajustado sempre que ele desejar.

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Rimos muito da situação, mas seu comentário me surpreendeu, não pelo teor em si, mas como ela não percebera a reprodução do comportamento aprisionador em sua fala. Ela me disse: “Coitado! Deu azar. Não percebeu com quem estava se metendo. A revoltada em pessoa. Você é muito intolerante com os pobres homens.”

Não posso dizer que fiquei feliz com o que ela havia dito, mas a compreendo, tem seus anseios e crenças; acredita na sua existência a partir do outro, se angustia com o não estar em um relacionamento, se vê como preterida e descartada quando não tem um “namorado”, sente-se excluída porque é uma mulher separada (abro aqui um parênteses – reconheço que não é uma mera sensação criada por ela, mas sabemos que as mulheres que se separam são afastadas dos encontros com outros casais, parece que viram presa para o masculino e ameaça para o feminino). 

A história da Pedagoga é velha conhecida das mulheres que ainda correm maratonas, a repetição do relacionamento “leve”, aquele “sem cobranças”, considerando que essa premissa só é válida para eles. 

O moço que ela conheceu e já saía há um tempo e mantinha um relacionamento “leve” – aquele que não sai do lugar, fica no eterno princípio, naquele iniciozinho, que deixa o outro na disponibilidade e na espera de ouvir a palavra “mágica”, a qual raramente é dita – disse a ela que estava incomodado com suas atitudes: não lavava a louça quando ia à sua casa, que se comportava como uma visita, ainda usava roupas inadequadas quando saia com suas amigas, que deveria se preservar mais e não sair tanto, pois segundo ele estavam comentando que os homens a estavam observando muito, ficara sabendo através de um amigo que ela recebera um bilhetinho na noite anterior no barzinho que frequentavam.

Nesse momento ela acreditou que a situação iria mudar, ele demonstrara ciúmes e talvez o relacionamento engatasse; respirou fundo, tomou coragem para sair do modelo padrão de disponibilidade de bibelô da estante – aquela que não fala nada, que está sempre tudo bem, que deixa o masculino emocionalmente tranquilo – e decidiu questioná-lo; fez o que a maioria das amigas dela condenaram, porque segunda elas, perdeu o “cara” quando o “pressionou”: 

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O que nós temos? É algo mais do que apenas encontros? Perguntou a Pedagoga.

Ele lhe respondeu: “Não me cobre nada! Quero um relacionamento “leve” e nesse momento eu tenho “relacionamentos”, saio com outras mulheres e não quero nada sério. Você está me constrangendo e sendo chata com essa cobrança” – a típica inversão do macho, da qual hoje acredito estar curada. A resposta dele não me surpreendeu, mas ela ficou atônita, não entendeu nada. Quando falou comigo perguntou minha opinião; brinquei que eu não era a melhor amiga para lhe dizer algo, mas se queria me ouvir, falaria o que achava. Após sua autorização, lhe disse: “Nada de novo no reino dos machos. Ele se vê como conquistador de territórios, o grande troféu, aquele a quem todos os súditos lhe devem reverências, tributos e satisfação e não podem em hipótese alguma questioná-lo, desafiá-lo, ameaçá-lo em sua virilidade e muito menos desnudá-lo”.

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