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Mulheres do Lar

Nos despedimos ao final da noite e fui para casa. Cheguei, tomei um banho, deitei e dormi um sono profundo, nada de sonhos, simplesmente o descanso que precisava depois de muito tempo…

Por Giselle Mathias

No dia seguinte, levantei-me cedo, levei meus filhos à escola e voltei para casa. Só tinha pacientes na parte da tarde, o que deixara minha manhã livre. Adoro quando isso acontece, são meus momentos de um café quente preparado com carinho e dedicação pela Empregada Doméstica – irei aqui abreviar sua profissão e chamá-la de ED.

Até o momento falei das minhas amigas, mulheres que têm uma formação superior e, possuem uma situação financeira confortável, pertencem a uma classe social abastada, e as dificuldades da vida não estão ligadas às questões financeiras. Agora falarei sobre a mulher que exerce todo o cuidado da minha casa, e que sem ela seria difícil eu me dedicar à minha carreira profissional.

ED trabalha comigo há mais de 12 anos e entrou em minha vida quando meus filhos ainda eram pequenos e eu estava casada. Passou ao meu lado o fim do meu casamento, e me ajudou na retomada da minha carreira. É uma mulher que todos os dias luta para sobreviver, mas apesar de todas as dificuldades impostas, ela ainda consegue ver uma leveza na vida e sorrir, o que muitas vezes eu me neguei a enxergar.

Aprendo todos os dias com ela; sua sabedoria, compreensão e solidariedade me cativam. Desenvolvemos uma relação que não sei como nomear, porque apesar de formalmente ser uma relação de trabalho, com todas as suas características, inclusive a perversidade da tal hierarquia e subordinação, temos uma com a outra muita cumplicidade. Nos enxergamos como mulheres, dividimos experiências, e observamos como temos mais questões em comum do que imaginávamos.

Assim como eu, ela é uma mulher só; trabalha para seu sustento e dos filhos, mas diferentemente de mim tem muita dificuldade para receber a pensão devida pelo pai dos seus filhos e, mesmo tendo feito tudo conforme manda o figurino, não recebe o que é devido a eles. O pai dos meninos está desempregado, e não tem como pagar a pensão, mas faz os seus bicos e recebe algo. Porém o dinheiro que ele ganha gasta com seus próprios prazeres, por que apesar das dores que a vida lhe apresenta, busca algum alento, o que normalmente acontece na mesa de um bar com seus amigos.

Ela, como todas as mulheres com filhos, prioriza o que é importante para eles, se sacrifica e abre mão de si para dar o mínimo as crianças. Vive com todas as responsabilidades nas costas, não espera nada do homem que a fecundou, sua realidade impôs que assumisse tudo e nada exigisse, repete o que aconteceu com sua mãe e sua avó; cria sozinha seus filhos.

A força que ela tem sempre me inspirou, nunca consegui me imaginar passando pelas situações e preocupações diárias dela. Deixa a filha mais velha em casa cuidando do mais novo, sempre observados pela vizinha; pega dois ônibus diariamente para chegar a minha casa, quase sempre vem em pé – me disse que já perdeu as contas de quantas vezes os homens aproveitam a lotação da condução para pegar em seu sexo. E mesmo reagindo com veemência contra o abuso, eles a olham como se ela devesse agradecer pela agressividade do gesto, e ignoram a sua dor por ter sido violada e a ira pela desconsideração da sua individualidade, respeito e humanidade.

Um dia ela me contou que fora estuprada aos 08 anos de idade, e como ela sua filha também. Fiquei horrorizada, perguntei se o homem havia sido preso e condenado. Ela me disse que havia sido punido, fora assassinado porque tinha feito o mesmo com a filha de um traficante da região. A lei do homem, do mais forte é o que vale onde mora, não há o Estado, nem proteção, muito menos oportunidades, não fosse a solidariedade que um tem com o outro, a cumplicidade entre vizinhos e o cuidado que as mulheres tem entre si e para com as crianças, ela não saberia o que fazer, pois seus filhos estariam nas ruas e sujeitos a toda sorte de violência, enquanto trabalha para dar-lhes comida e um teto para protegê-los.

Sempre me pergunto como ED consegue ainda ver alegria e ter esperança na vida, mas sua potência e gana de viver me faz pensar sobre os privilégios que temos, e como para mantê-los, a sociedade em que vivo, resolveu renomear privilégio burguês por meritocracia vazia, e assim vamos nos enganando e mantendo os padrões herdados da escravidão.

ED sempre foi a mulher do lar, ela manteve minha casa organizada para que eu me dedicasse aos meus filhos, algo que ela não podia fazer, pois tem que trabalhar. Depois passou a cuidar dos meus filhos no período em que não estavam na escola, para que eu retomasse minha carreira. Na minha separação segurou minhas mãos e consolou meu choro, pelas dificuldades das negociações para a resolução do divórcio.

Apesar dela ser mais nova do que eu, cuida de mim como uma irmã mais velha, onde desenvolvemos uma cumplicidade e amizade, o carinho entre nós é imenso; dividimos nossas histórias e percebo cada vez mais que temos mais em comum do que imaginávamos. 

Ela estudou até o ensino médio; no começo do último ano conheceu o pai de seus filhos e, em dois meses engravidou da primeira filha; conseguiu com a ajuda da mãe terminar o ano letivo e concluir essa etapa, mas a tão almejada faculdade de enfermagem ficou no sonho. Agora tinha uma filha e um marido para cuidar.

A história de ED é permeada por toda as agruras impostas pelo sistema. Não teve oportunidades na vida; o que conquistou foi com um custo elevadíssimo de sacrifício. Ela não nasceu em uma família abastada que lhe proporcionou todas as benesses de poder viver em plenitude sua infância – não teve pais que puderam pagar sua escola particular, não teve a disponibilidade de tempo para se dedicar e estudar para o vestibular e, assim, cursar o tão almejado curso de enfermagem.

 

Sua vida é a da maioria das mulheres e homens pelo mundo, nasceram para servir, lhes negam o direito de existir, a oportunidade de exercerem suas potências e humanidades, são invisíveis na sociedade. São resumidos ao mais básico da sobrevivência humana.

 

ED é uma mulher inteligentíssima, sagaz e com uma compreensão da vida e do outro que vi poucas vezes em minha vida. Nos momentos mais difíceis que passei nos últimos anos, ela segurou minhas mãos, esteve ao meu lado, deixou seus filhos com a irmã para não me deixar só, quando não conseguia sequer me levantar da cama, por uma depressão que me assombrava.

 

Ela se casou e separou, a história comum de muitas mulheres – mas o pai não a ajuda – quando muito compra um botijão de gás, uma carne ou algo que amenize sua luta, porém nunca pode contar com nada, é sempre uma surpresa quando ele comparece com alguma ajuda. Sim! Uma ajuda, porque a obrigação e responsabilidade dos homens em relação aos filhos sempre é negada.

 

Nós duas sempre conversamos; muitos de meus amigos não compreendem a relação que temos e, entendo toda a sua complexidade, enxergo os privilégios que tive e tenho para ser quem sou e, tudo que lhe fora negado para que esteja na posição que está. Compreendo a minha impotência em alterar a realidade que ela vive e a reprodução da sua história em sua filha mais velha, mas isso não diminui a dor, o sofrimento e a revolta que sinto por vivermos em uma sociedade com tamanha desigualdade, que define o destino e as oportunidades do humano a partir do nascimento.

 

Eu e ED passamos a manhã conversando quando estou com meus horários livres, falamos sobre nossos filhos, as dificuldades da vida, nosso passado e o que esperamos do futuro. No entanto, nosso assunto preferido são os relacionamentos. Como psicanalista, as relações e os comportamentos humanos me interessam, e as histórias que ela conta são ótimas. Sempre achei que talvez houvesse diferença nas relações amorosas, em como as mulheres se veem, no compromisso dos homens com seus filhos e até mesmo quanto a fidelidade.   

 

Me enganei!

 

Os padrões são os mesmos. Ela me conta sobre os homens que entram na sua vida e, logo querem namorar – quanto a isso acho que são diferentes da maioria dos que eu conheço – se enfiam em sua casa e acham que são seu dono, que ela está lá para servi-los. Além de trabalhar a semana toda em minha casa, cuidando de todos os afazeres do lar, só tem o final de semana para cuidar do seu e tentar relaxar um pouco juntando os vizinhos e tomando uma boa cerveja.

 

Ela me diz estar cansada dos homens que conhece, não quer mais abrir mão do seu sossego e arrumar mais um “filho” para cuidar, mas reconhece que ter um homem dá a ela e as amigas uma certa segurança, porque assim sente-se mais respeitada, pode sair sem ser assediada por outros ou mal falada pelas mulheres, por estar só.

 

Contou-me que teve um relacionamento de aproximadamente um ano e meio com um professor da escola do seu filho mais novo, um homem que se apresentava diferente e tinha uma boa situação financeira. Achou que sua vida iria melhorar, o tal príncipe encantado havia aparecido.

 

Ele se apresentou com todos os seus encantos e principalmente oferecendo uma segurança que ela tanto desejava, nos primeiros dois meses a encontrava com frequência, aparecia em sua casa aos domingos e ajudava seu filho com os deveres da escola. Ela estava encantada e apesar de no começo não gostar muito dele, se deixara conquistar por aquele homem, que se dedicava a ela e ajudava.

 

No entanto, quando ele percebera sua vitória e que aquele território tornara seu, jogou-lhe a bomba: Ele era casado!

 

Fiquei indignada e, perguntei-lhe sobre sua reação. Contou-me que no início sofreu muito, mas decidiu ficar na relação, já estava encarcerada emocionalmente e a ajuda financeira que lhe dava não poderia ser dispensada naquele momento, estava completamente fragilizada.

 

Não sei o que senti quando ela me contou o que vivera, mas lembro do quanto fiquei enojada com aquela situação, como ela fora enredada em uma dependência afetiva e financeira para que estivesse ali a disposição daquele macho.

 

Ela sorriu para mim e disse: Isso é a realidade!

 

Percebi que não era só a dela e, nem se restringia a sua classe social e mesmo as mulheres que possuem independência financeira estão sujeitas a essas clausuras dos padrões culturais impostos. Não estamos mais presas a dependência do sustento e sobrevivência, mas estamos algemadas ao status que será proporcionado, ao bairro e ao tamanho da casa, a suposta inteligência e intelectualidade do homem e, por termos sido escolhidas por um varão com tantas posses ou mais do que possuímos. 

 

Ainda nos sujeitamos, mesmo sem perceber, nos preocupamos como seremos vistas, com o que dirão se nos virem com alguém que não esteja no patamar estipulado socialmente, castramos nossos desejos para manter a pose no meio em que circulamos, nos anulamos e nos calamos para que as aparências sejam mantidas e a família perfeita seja invejada.

 

Mas ED me ensina e mostra como somos iguais, como somos presas fáceis de ideários impostos, os quais sequer podemos questionar, porque ao serem questionados nos tornamos as loucas, as difíceis, incompreensivas, intoleráveis. Mulheres a serem destruídas.  

 

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