Voando com o Povo Japó … – Parte I

Por: Jairo Lima

Meu ‘zap zap’ quase travou o celular devido às muitas mensagens não visualizadas, mas que, graças à tecnologia, eu tinha ideia do que eram: felicitações de ano novo; pedidos de conversas via telefone ou zap para acertar alguns detalhes de projetos; ‘cutucadas’ para saber como estou; correntes de matérias sobre a FUNAI; pedidos de entrevistas; papos informais, etc. O Facebook me mandou mensagem no email, talvez achando que eu ‘atravessei a ponte’, pois, assim como o zap, não estava acessando-o.

Como faço em todos os anos isolei-me em meu exílio social voluntário, dessa vez, como menos motivos para o retorno social. Cansado, talvez, de saco cheio, com certeza.

Na tranquilidade prazerosa do convívio familiar muitos pensamentos passeiam pela mente, enquanto minguados planos e planejamentos tentam abrir uma pequena abertura em minhas conjecturas existenciais e profissionais. Me pego em lembranças queridas de viagens etéreas com o ‘cipó’ (ayahuasca) e com a vivência recente que tive junto ao ‘povo Japó’ o querido povo Ashaninka… revivo a interessante viagem realizada há menos de um mês atrás:

O pequeno avião sacolejou um pouco, mas, graças a Deus chegamos em segurança na pequena e estranha cidade de Mal. Thaumaturgo, numa tarde abafada, mas nublada. Me acompanhando seguia um pequeno grupo, composto de pessoas interessantes e com objetivos diversos que, a priori, deveria participar, assim como eu, de uma audiência a Terra Indígena Kampa do Amônia, localizada há cerca de quatro horas de distância deste município.

Não demoramos na cidade, e, devidamente acomodados em três barcos, um deles capitaneado pelo amigo Benki Piyanko, singramos o ‘Atlântico Juruá’ até entrarmos num de seus afluentes, o caudaloso e sinuoso rio Amônia.

Fazia doze anos que eu não navegava nesse rio, e em minha mente a frase ‘Dylan e seus dilemas’, extraída de uma canção dos Engenheiros do Hawaii, ecoava em minha mente a cada curva de barranco que vencíamos.  Algum tempo depois surrupiei a frase, mudando-a para que tivesse mais coerência para o que eu estava sentindo: ‘Jairo e seus dilemas…’. – E assim, admirando o lindo céu de fim de tarde, me fui deixando absorver pela viagem.

Foto: Jairo Lima

Digo a você, caro leitor, que não há nada mais ‘zen’ que perder-se em pensamentos e sensações quando se está viajando de barco nesses rios, com a natureza ao redor e com o som intermitente e cadenciado do motor de popa. Em meu caso, a cada quilômetro de rio, seja descendo, seja subindo, em que me distancio do ‘mundo’ que vivo e trabalho sinto como se estivesse entrando em um novo estado de consciência, mais íntimo e introspectivo, como se, a cada metro vencido, eu olhasse para trás e visse cenas de mim mesmo e de meu cotidiano sendo filtradas e, em alguns casos, limpas ou descartadas… não sei se me entendem, certamente que não, mas, não saberia explicar melhor essa sensação.

Com o vento úmido em meu rosto olhei pro céu e sua beleza azulada, resultado da sobreposição de luzes da tarde com as nuvens encantaram-me de pronto, trazendo-me uma sensação de paz e felicidade tão raras neste ano que se finda.

Na aldeia Apiwtxa, lar do povo Ashaninka, eu e parte do grupo, entre estes um ‘novo velho amigo’, Naiber Pontes, nos instalamos numa das casas (construída de acordo com a arquitetura tradicional desse povo) que nos foi oferecida pelo prof. Wewyto, amigo desde meu início nessas andanças indigenistas que resolvi trilhar há muitos anos atrás.

A atividade ‘oficial’ que me levou àquela terra indígena foi vencida sem maiores dificuldades, exceto, logicamente, a necessidade de se utilizar de tradutores para nos fazer entender nas reuniões realizadas com a comunidade, uma vez que, em sua maioria, não são falantes da língua portuguesa.

‘Jairo e seus dilemas…’ – A frase ecoava em minha mente, enquanto me embalava na rede, trocando uma ideias com o amigo Naiber, enquanto aguardávamos a chegada da hora de irmos ‘beber cipó’, ou seja, comungarmos do Kamarãpy (Ayahuasca) junto com  Benki, Wewyto, Moisés e demais ‘parentes’ Ashaninka. Ritual este combinado enquanto passeávamos pela comunidade e apreciávamos uns goles de piarentsy (caiçuma).

Lá pelas vinte horas ví silhuetas ensombradas por luzes de lanternas que, trilhando um caminho próximo entre as árvores, dirigiam-se diligentemente em direção ao negrume da floresta mais adiante: “Bora Jairo! Tamo indo, vem logo!’ – A voz potente e firme do Benki ecoou na mata próxima chamando-me para o ritual.

Munido de minha lanterna e na companhia do Naiber nos dirigimos, sem saber ao certo o local, mas, tendo como orientação o distante som de vozes. Enfim, chegamos a um lindo terreiro, rodeado por tradicionais bancos usados por este povo e por algumas casas. Era o terreiro da casa do Moisés, nosso cicerone para a ‘viagem’ que nos aguardava logo mais. Sentamos junto ao Benki e na penumbra sob um céu sem lua, mas apinhado de estrelas, vi outras tantas figuras sentadas, todas devidamente instaladas nos bancos e sussurrando palavras que eu não compreendia.

Logo, uma dupla se aproximou: uma com uma lanterna e outra segurando um pequeno frasco e um copo. Este última figura era o Moisés que nos serviu um copo cheio da bebida encantada e, ao término de servir a todos na roda, se dirigindo a nós falou: “Hoje vamos beber nosso Kamarãpy e vamos cantar para vocês. Sejam bem vindos e cantem com a gente…” – sua figura foi se distanciando nas sobras…

Seguiu-se uma longa concentração, cerca de quarenta minutos, onde os sons da floresta e outros ocasionados pela preparação dos nossos anfitriões preenchiam o ambiente. Eu, já em estado ‘dimensional’ sentia-me diluir na floresta embalado pelos grilos e pelo pio das aves noturnas que, estranhamente, pareciam conversar comigo: ‘Esses grilos devem ser conhecidos do Domingos…” – Pensei, lembrando da pesquisa do querido amigo, sobre a interação entre os animais da floresta e as canções ritualísticas executadas pelos índios quando bebem ayahuasca.

 

 

Foto: Jairo Lima

O tempo passou… passou… e parou. De repente uma voz preencheu o ambiente, cantando uma linda canção que, mesmo sem compreender totalmente a língua Ashaninka, pude entender seu sentido. Logo outras também começaram a se manifestar, dentro do costume ritualístico dos Ashaninka de cantarem ao mesmo tempo as manifestações que a força do cipó e de Pawa (Deus) trazem para contemplação de todos.

Voei junto com estas canções e me entreguei totalmente nos sentires que me estavam reservados nesta noite, contemplando, por vezes o céu noturno onde o brilho das estrelas mostravam-se com um brilho anormalmente intenso, ao menos em minha percepção.

Vibrações positivas, sentimentos, percepções intuições… tudo isso se apresentava em minha ‘viagem’, enquanto percebia, logo ao meu lado, Benki e Naiber em conferências sussurradas, certamente sobre mistérios e debates profundos, já que, com certeza, não era sou eu que estava ‘alto’ no momento.

Passado algum tempo fui dialogar com o Benki, trocando percepções sobre situações que eu vinha passando e percebendo ao longo deste ano de 2018 e que me incomodaram bastante. A proximidade de duas décadas de amizade me animaram a lhe confidenciar as situações e, não para minha surpresa, pois já o conheço bastante, ouvi: ‘Há! Isso é fácil de resolver, simples! Senta aqui na minha frente’. Obedecendo, entreguei-me à sua reza, cheia de essências perfumadas que vez ou outra derramava sobre mim, e dentro de minha blusa.

Não sei precisar que essências eram essas, mas não importava, pois, o intuito das mesmas era o que buscava e não o entendimento sobre estas. Terminada essa ‘passagem’ retornei ao meu lugar no banco e, mais uma vez, entreguei-me ao embalo das cantorias e as sensações do Kamarãpy, olhando para o céu vez ou outra para certificar-me que ele ainda estava acima de mim, pois,  por vezes, de olhos fechados, sentia que voava acima do firmamento.

E assim passamos a noite… até que, como tudo no universo material e encantado, nossa viagem chegou ao fim, com o Moisés anunciando que estava indo deitar, mas que nos sentíssemos à vontade para ficarmos em seu terreiro o tempo que quiséssemos. Fiquei fumando meu cachimbo e olhando o céu, enquanto Benki e Naiber, animados pela força do Kamarãpy, ainda conversaram por muito tempo após o ritual.

Raiou o dia e, logo após o repasto da manhã, iniciamos nossa viagem de retorno para a cidade de Thaumaturgo, para uma pernoite na casa do Benki… mas isso ‘outra história’ que trarei em breve…

Retomo o momento ‘presente’ enquanto ouço o chamado alegre para o almoço… atendo diligentemente, antes, olhando as notícias da semana e um pouco das mensagens do zap e as postagens no Facebook e descubro que, com raras exceções,  ainda não estava preparado para esse contato social… fazer o que, né?
Foto: A Gazeta do Acre

ANOTE AÍ!

Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, na região do Juruá, Acre.

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Foto de Capa: Ricardo Stuckert

 

 

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