Por Lúcia Resende

A arte transcende o tempo. A música, quando arte, permanece, às vezes mais, às vezes menos presente, mas sempre viva. É o caso de “Apesar de Você”, de Chico Buarque de Holanda, que ressurge com força e impacto inusitados e vem sendo cantada como uma espécie de hino de resistência neste momento de ameaça à democracia brasileira.

Por trás de uma canção, existe sempre uma história. Wagner Homem se ocupou de registrar a história de muitas das canções deste que é um dos maiores músicos do país. No livro CHICO BUARQUE – Histórias de Canções (São Paulo: Leya, 2009), Wagner nos conta como surgiu Apesar de Você:

“Durante 1969, período em que Chico esteve na Itália, continuaram as cassações; Caetano Veloso e Gilberto Gil, após a prisão, exilaram-se em Londres; em abril, a ditadura aposentou compulsoriamente Vinicius de Moraes; as denúncias de tortura a presos políticos provocaram até um pronunciamento do papa Paulo VI; a repressão às manifestações conduziu ao recrudescimento das ações armadas; em agosto, o presidente Costa e Silva foi vitimado por uma isquemia cerebral, e uma junta militar assumiu o poder, impedindo posse do vice, Pedro Aleixo; em setembro, o Congresso, reaberto, elegeu o general Emílio Garrastazu Médici, o terceiro presidente do regime militar.

E, para completar, o Ato Institucional n. 14, de 5-9-1969, estabeleceu a pena de morte, ‘em nome da garantia da ordem e da tranqüilidade da comunidade brasileira’.

Mesmo assim, Chico estava decidido a voltar. Vinicius aconselhou que o fizesse ‘com barulho’. E assim foi feito. Em 20 de março de 1970, Chico, Marieta e Silvia chegaram ao aeroporto do Galeão, sendo recebidos por amigos, fãs, a Torcida Jovem Flu, bandinha e tudo o mais, mostrado pela tevê. E o ‘barulho’ continuaria com o lançamento do disco, um programa na TV Globo e show na boate Sucata.

Logo percebeu que para ele e milhões de brasileiros as coisas não haviam melhorado. Gravadoras e produtores de espetáculos eram obrigados a submeter previamente as letras de músicas à censura. As redações dos jornais passaram a conviver com a presença de censores. Vivia-se o ufanismo que antecedeu a conquista do tricampeonato de futebol, no México, em 1970. Rádios executavam à exaustão ‘Pra frente Brasil’, de Miguel Gustavo, e ‘Eu te amo meu Brasil’, da dupla Dom e Ravel. Carros exibiam adesivos como ‘Brasil! Ame-o ou deixe-o’ ou até o ameaçador ‘Brasil! Ame-o ou morra’.

A resposta de Chico ao que viu e não gostou foi a canção ‘Apesar de Você’, que ele considera uma de suas músicas realmente de protesto.”

A canção passou pelo crivo dos censores como uma canção de amor. Lançado e distribuído o disco, logo caiu na boca do povo, que entendeu o protesto contra o ditador Médici, responsável pelo período mais repressivo do regime militar. Ao perceber o ‘equívoco’, a música foi proibida (1971), só sendo liberada em 1978. Mas era tarde, o povo cantava, e cantava muito, mesmo sob açoite.

Ouça: https://www.youtube.com/watch?v=nT1rxzFL0dE

Chico apesar de voce 1964-dictature-bresilienne.ehess.fr

Foto: dictature-bresilienne.ehess.fr.png

APESAR DE VOCÊ: NESSA O CENSOR COMEU BOLA

Relato semelhante encontra-se registrado no Centro de Memoria Sindical – CMS (memoriasindical.com.br):

A letra do poeta parece ser uma referência a um namoro desfeito. Mas nessa o censor comeu bola. A mulher autoritária da música é na verdade a ditadura militar. Compacto simples gravado em 1970, no auge do regime.

Em fevereiro de 1971, o jornalista Sebastião Nery, do Tribuna da Imprensa, publicou uma nota em sua coluna dizendo que seu filho e os colegas dele cantavam “Apesar de Você” como se estivessem cantando o Hino Nacional. Como resultado, Nery foi chamado para depor na polícia. Semanas depois, a execução pública da canção foi vetada pelo governo, que finalmente compreendeu sua mensagem.

Os oficiais do regime invadiram a sede da Philips e destruíram as cópias restantes do disco. O censor que aprovou a canção também foi punido. Os oficiais do governo, no entanto, não destruíram a matriz, o que possibilitou a reedição da versão original da gravação. Num interrogatório, Buarque foi indagado sobre quem era o “você” da letra da canção. “É uma mulher muito mandona, muito autoritária”, teria respondido o cantor.

A censura de “Apesar de Você” teve um impacto negativo no relacionamento entre Chico e os censores, que duraria até o final da ditadura. Chico seria implacavelmente marcado pelos censores, sofrendo suas letras as mais absurdas rejeições.

Devido à censura, a canção só seria incluída num álbum do cantor em 1978.(Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/ )

Ocupa Minc

Foto: Bruno Bou/Facebook/Reprodução

Em 2016, Chico volta a cantar seu hino de resistência. Em 2016, o Brasil segue, com Chico, cantando:

APESAR DE VOCÊ

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
Lá lá lá lá laiá

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