Dona Ivone Lara, uma joia rara da cultura brasileira

“Ivone lara ra ra ra ra ra / Pérola rara no compor e no cantar / Senhora da canção doce instrumento / Pastora da emoção, do sentimento”, diz a letra da música composta por Ney Lopes, Senhora da Canção, uma das mais belas homenagens a esta sambista que faleceu nesta segunda-feira (17), aos 97 anos completados três dias antes. O corpo de Dona Ivove Lara será velado na quadra da sua escola do coração, Império Serrano.

Por Dayane Santos/Do Portal Vermelho

“Dona Ivone Lara, patrimônio do Império, da Portela e da cultura brasileira”, definiu o presidente da Portela, Luis Carlos Magalhães, por meio de nota.

Considerada um dos maiores nomes da música popular brasileira, Dona Ivone Lara deixa um imenso e rico patrimônio cultural. “Incomparável, formidável, inesquecível… Que vida! Como pode ter sido tão formidável, tão incomparável, tão única? Nunca surgirá alguém como ela. Aquela presença… além de ser uma mulher tão bonita e luminosa”, acrescentou o portelense.

A também compositora e sambista Leci Brandão, deputada estadual pelo PCdoB, também expressou pesar pelas redes sociais. “Madrugada triste, meu coração está apertado… Nossa amiga e mestre, Dona Ivone Lara nos deixou. Já sinto saudades, descanse em paz rainha! Dona Ivone Lara uma joia rara que, com certeza, está no céu”, afirmou.

Guilherme Arantes disse que a artista era um exemplo. “Uma brasileira de tanto valor, um ser humano privilegiado na beleza de suas criações, sua trajetória de dignidade, sua figura impecável como Ser Humano”, declarou ele em sua página no Facebook. “Isso é que é ser chique. Viva Dona Ivone Lara!”, completou.

Para a atriz Zezé Mota, não basta chamá-la apenas de Ivone Lara. “O respeito e a admiração que impôs a MPB o transformaram em Dona Ivone Lara”, frisou. “Nenhuma outra mulher teve tantas vozes cantando suas músicas ou gravadas como ela. Mulher forte e guerreira”, destacou a atriz que fizeram um filme juntas, chamado “A força de Xango”.

Marisa Monte contou que entrevistou Dona Ivone em 2005, quando produzia o disco “Universo Ao Meu Redor”. “Ela contou sua história e cantou vários sambas pra mim, entre eles, a valsa inédita “Pétalas Esquecidas”, de 1945, que está no álbum. Ela havia composto junto com sua parceira Teresa Batista, também enfermeira, no plantão do hospital psiquiátrico onde trabalhou até se aposentar com a doutora Nise da Silveira”, relatou Marisa Monte.

E completa: “Dona Ivone era uma feminista nata, sempre à frente do seu tempo, foi pioneira como mulher entre os sambistas e abriu espaço para tantas outras compositoras. Nossa querida Dona Ivone, a dama do samba, segue seu caminho brilhante e agora está iluminando o céu. Obrigada, Dona Ivone!”.

De fato, Dona Ivone teve uma trajetória extraordinária e incomparável, difícil resumir, mas muito fácil demonstrar a sua importância para a cultura brasileira.

Nascida em família de amantes da música popular, Ivone Lara enfrentou o preconceito por ser mulher, negra e sambista e foi a primeira mulher a compor um samba-enredo e se firmou como um símbolo vivo da resistência e um patrimônio da cultura popular.

No samba Minha Verdade”, do disco Samba Minha Verdade, Samba Minha Raiz (1974), composto por ela com um de seus principais parceiros, Délcio Carvalho, ela diz:

“Eu tenho a minha verdade
Fruto de tanta maldade que já conheci
Me deixa caminhar a minha vida
Livremente
O que desejo é pouco
Pois não duro eternamente
Nada poderá me afastar do que eu sou
Amor, é o meu ambiente
Nada poderá me afastar do que eu sou
Me deixa, por favor
Do bom samba sou escravo
Seu fascínio me apertou
Traçou-me este destino
Meu sonho menino se concretizou
Deixe-me agora sonhar
E seguir sem pensar numa desilusão
Que o amor simplesmente
Se faça presente no meu coração”
Sem dúvida, Dona Ivone Lara era movida por sentimentos de amor. Suas letras de melodias primorosas era um dom que alimentava desde criança. Aos 12 anos, ganhou um pássaro “Tiê-sangue”. O nome do pássaro e a expressão “Oialá-oxa”, herdada da avó moçambicana, serviram de inspiração para o primeiro samba de partido-alto “Tiê, Tiê”.
Tiê , tiê , olha lá….Oxá

Tiê , tiê , olha lá….Oxá

Passarinho estimado
Que me deu inspiração
Dos meus tempos de criança
Guardei na lembrança esta recordação

(Refrão)

Representava pra mim
Carinho, amor e paixão
Mas o ingrato do tiê
Desprezou meu coração

(Refrão)

A estrela no céu corre
Eu também quero correr
A estrela atrás da lua
E eu atrás do meu tiê

(Refrão)

Bem que vovó me dizia, criança
Olha lá toma cuidado
Oxá, esse seu passarinho
Está mal acostumado

Dona Ivone conta que quando desde pequena os compositores que frequentavam a sua casa pediam para as crianças fazer coro e, assim, ajudavam a relembrar o samba que cantaram já que não tinham gravadores ou outro meio possível. Dessa maneira, se envolviam diretamente e naturalmente no samba.
Orfã de pai e mãe, Ivone Lara foi estudar no internato do Colégio Orsina da Fonseca, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde permaneceu até os 16 anos. Seu dom pela música chamou a atenção das professoras Lucília Villa-Lobos, esposa do maestro Villa-Lobos e Zaíra Oliveira, primeira esposa de Donga, que a indicaram para o Orfeão dos Apinacás, da Rádio Tupi, cujo regente era Heitor Villa-Lobos.

Saindo da escola, foi morar na casa de seu tio Dionísio Bento da Silva, que tocava violão de sete cordas e fazia parte de grupo de chorões que reunia Pixinguinha e Donga. Foi com o tio Bento que ela aprendeu a tocar cavaquinho.

Nesse ambiente de contato intenso com cantores, compositores, batuqueiros, jongueiros da comunidade carioca, Ivone Lara foi lapidando o seu dom, apesar do preconceito aos sambas compostos por uma mulher.

Apesar do envolvimento da família com a música, uma mulher num ambiente tão masculino não era visto com bom olhos. O tio tratou logo de tentar afastá-la daquele ambiente de malandros e bambas e conseguiu um emprego numa fábrica. Dedicada, se inscreveu para concorrer a uma bolsa de um curso na Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Passou entre as dez primeiras colocadas, o que lhe garantia uma ajuda de custo mensal.

Depois de seis anos trabalhando como enfermeira, ingressou no curso e se formou como assistente social, sendo uma das primeiras assistentes sociais do país, ofício que exerceu durante toda a sua vida em paralelo com a música. Especializou-se em Terapia Ocupacional, dedicando-se a trabalhos em hospitais psiquiátricos, tendo trabalhado no Serviço Nacional de Doenças Mentais, com a doutora Nise da Silveira.

Mas o samba era a sua vida. Em 1945, Dona Ivone mudou-se para Madureira e começou a frequentar a Escola de Samba Prazer da Serrinha, mesma época em que começou a compor sambas para esta escola, mas as composições eram mostrados aos outros pelo primo Fuleiro, como se fossem dele, pois um samba feito por uma mulher não tinha aceitação.

Casada com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente da Escola de Samba Prazer da Serrinha, sua proximidade com o mundo dos compositores só aumentou. Sambista como Aniceto, Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira, grande compositores de sambas-enredos, eram amigos próximos e mais tarde se tornaram passeiros. Em 1947, um samba de sua autoria, “Nasci para sofrer”, foi escolhido pela escola.

Em 1965, as letras e melodias de Dona Ivone venceram o preconceito e ela foi convidada pela escola Império Serrano a integrar a ala de compositores. Era a única mulher entre 400 homens. Já aposentada, Dona Ivone passa a se dedicar integralmente à música, passando a ser sua ocupação principal.

Suas composições foram ganhando o reconhecimento até que em 1970, ela gravou o seu primeiro disco: Sambão 70, produzido por Sargenteli e Adelson Alves.

Em 1978, gravou o disco “Samba, Minha Verdade, Samba Minha Raiz”. O encarte do disco descrevia a artista: “Dona de casa, mãe de dois filhos, enfermeira e assistente social há 37 anos. Somente agora, aposentada, é que Dona Ivone pôde começar sua carreira artística, coisa que já fazia domesticamente, e no Império Serrano desde os 12 anos de idade”.]

Cantores como Maria Bethânia, Elba Ramalho, Criolo, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Adriana Calcanhoto e Zélia Duncan fizeram versões de suas canções.

“Que Deus te abençoe, Dona Ivone Lara. Seu cantar será eterno na nossa memória, seu jeito de “alguém da gente” também ficará conosco para sempre. Salve a Rainha do Samba”, resumiu a cantora Alcione.

ANOTE AÍ:

http://www.vermelho.org.br/noticia/310113-1

 

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