NO INÍCIO era uma folha em branco, um espaço alvo prestes a transbordar. Por quais lados movimentaria meu cortejo gramático, com que botas pisaria neste deserto para não perder meu contingente com ferrões ocultos de aranhas, víboras e escorpiões?

Sem ter mapa, sem ter sequer estrelas a nos guiar, avançamos sem retroceder rumo a qualquer paragem, sem carregar nossas íris com premeditadas paisagens e até mesmo sem a esperança de encontrar algum oásis. Talvez em fuga, talvez em busca, acaso somos levados em caravana?

Se assim o for, constato que fomos feitos reféns de um cerco anterior à nossa partida. Ainda assim, de onde viemos, nós que não temos pátria, nós que somos mudos quando o assunto é lar?

Lançados neste nada prenhe, sabemos contudo a fonte de nossos tormentos: ecos noturnos lembram-nos constantemente de que há uma canção a ser parida, um hino quiçá, uma cantilena desvairada com que remendar nossos arquipélagos viventes…

Ouve-se um lamento, não, um grito, sim, um lobo uiva próximo aos nossos mais que exaltados sentidos. Fugiríamos dele não fosse o espanto um deleite para essa oca trajetória.

Agora que estamos a cavalo, ou melhor, sentados languidamente sobre o dorso de cem camelos, apontamos com os dedos tortos um quê de estrela a despontar na escuridão. Seria Vênus que se antecipa à Lua? Ou seria um negro ciclope a nos espreitar desde o infinito?

De qualquer forma, para lá nos movemos, sim, uma primeira noção de sentido se esboça confusamente em nossos órgãos. Agora, não somos tantos em debandada, sumiram nossos algozes, e uma viola de aço estala um primeiro acorde na amplidão: sol.

Eis que uma fonte se ergue do meio de nosso encanto, não balbuciamos ou vomitamos versos em línguas mortas… são sete cavalos galopando ao sol… Com um misto de euforia e terna complacência, admitimos em nossa rota o espectral soluço dos pássaros que, em breve, transportarão a Aurora ao cume de nosso pálido semblante.

Ainda mortos, contudo, esprememos entre os dentes a carne insossa deste misterioso deserto e, delirando, assistimos com estupefação ao desabrochar telúrico de uma flor impossível. Ó, poema ao revés, consentiríamos no absurdo de espichar nossos troncos vazados sobre este ilusório colchão?

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Guilherme Cobelo

Historiador, Músico.

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