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Entre os geraiseiros, povos que habitam ou exercem atividades nos gerais, que é um tipo de cerrado semelhante ao descrito por Guimarães Rosa em “Grandes Sertões Veredas”, existem dois mitos interessantes associados ao pé de Sabiú, planta frondosa pertencente à família leguminosa e muito comum nos gerais.

O primeiro diz que se alguma pessoa, por descuido, passar por debaixo de um pé de Sabiú fica totalmente desorientada, perde a noção das coisas, perde a consciência e fica vagando sem rumo e sem direção.

Entre as inúmeras histórias, contam que certa vez um vaqueiro experiente saiu à procura de uma rês desgarrada e, sem se dar conta, passou por debaixo de um pé de Sabiú, logo perdeu a noção dos seus objetivos e por dois dias seguidos vagou sem rumo até chegar a um rancho de um antigo amigo e conhecido.

Só que ao chegar ao local não reconheceu as pessoas que ali moravam, seus amigos de longa data. Os moradores do rancho, experientes, logo perceberam o que havia acontecido. Tomaram então o vaqueiro e fizeram-no deitar de bruços por cerca de trinta minutos.

Durante esse tempo dizem que o vaqueiro teve um sono profundo e quando acordou estava curado, recuperou a consciência, reconheceu e ouviu os amigos e, após se alimentar, seguiu seu rumo determinado.

O segundo mito reza que pequenas personagens do mato em forma de gente, talvez duendes, todas as sextas-feiras à noite se reúnem em baixo de um pé de Sabiú para festejarem alguma alegria e felicidades.

Conta-se ainda que no povoado de Riacho D’Água existia um pobre corcunda que era muito maltratado e recebia várias zombarias da gente daquele povoado. Um dia, cansado de tanta humilhação e sem perspectiva, resolveu fugir e andou sem ermo pelos gerais; quando o cansaço bateu, descansou debaixo da sombra de um Sabiú, pois debaixo desta árvore o terreno é sempre limpo.

E ali garrou no sono, escanchado numa forquilha da árvore.

Era sexta-feira. À noite chegaram várias criaturinhas que, brincando-de-roda, começaram a cantarolar uma música cuja letra repetia o refrão:

 

Segunda,

Terça,

Quarta,

Quinta,

Sexta.

 

O corcunda, animado com a música, pediu aos duendes para participar da brincadeira, sempre repetindo o refrão:

 

Segunda,

Terça,

Quarta,

Quinta,

Sexta.

 

E assim teve na vida um raro momento de alegria e felicidade. Diz o mito que, quando a festa terminou, as criaturinhas indagaram ao corcunda por que ele estava ali naquele momento. O corcunda então pôs-se a contar a sua história. As pequenas criaturas, que tinham poderes mágicos, retiraram a corcunda do indivíduo e a dependuraram num galho de Sabiú, deram a ele roupas novas, muito dinheiro e lhe disseram que poderia voltar para o povoado de Riacho D’Água, que sua vida iria mudar.

O ex-corcunda caminhou então de volta e após alguns dias chegou ao povoado. Logo na entrada encontrou uma pessoa que o reconheceu. E, assustado, lhe perguntou o que havia acontecido. Este narrou detalhadamente. A pessoa, na ganância do dinheiro e do poder, saiu correndo procurando o local e, quando o encontrou, subiu num dos galhos da árvore e esperou a noite de sexta-feira chegar. Quando esta chega, eis que para sua surpresa apareceram as criaturas que o ex-corcunda descreveu.

Estas então começaram a entoar sua cantiga, dançando em roda, sempre repetindo o refrão:

 

Segunda,

Terça,

Quarta,

Quinta,

Sexta.

 

Num belo momento, quando a dança já estava bem animada, ao repetirem o refrão – Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta – as criaturas ouvem um som vindo do alto dizendo: Sábado e Domingo também. Atônitos, olham para cima da árvore e avistam a pessoa que modificara o refrão da música.

Indignados, fazem com que este desça da árvore, retiram do galho a corcunda que lá ficara e num ato de indignação e magia as criaturinhas implantam esta nas costas do forasteiro e o expulsam do local.

Moral da história: a tradição quando respeitada traz a felicidade, quando não respeitada gera a ganância.

ANOTE AÍ:

Altair Sales Barbosa –  Arqueólogo. Excertos do livro “O Piar da Juriti Pepena – Narrativa Ecológica da Ocupação Humana no Cerrado”.  Sales, Altair [et al]. Editora PUC-Goiás, 2014.

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