Motiba, a deusa, e as lágrimas azuis   

Diante da beleza dos Azuis
Da água do rio,
E dos azuis do céu,
O paradoxo.
Ora, a menor bacia d’água que há
Projeta a imensidão do alto
E a existência do mar,
Temos certo.

Uma deusa discreta,
Conta a lenda,
Foi aprisionada por seu amado
Nas rochas de Pangeia.
Era o ciumes de uma perfeição desafiada.

Seu nome era Motiba.
A sua beleza tal,
[ fazia reluzir
A morte terna de quem se fizesse admirar.
Não era possível conter-se.
Ainda assim seu esposo não suportava ver
[ tantos a humilhá-lo àquela devoção.
Era um deleite ao prazer platônico.
O êxtase sensacional.
A nirvana do simples olhar.
Sem toque, sem se embebecer,
[ a embriaguez delirante.
Jogava-se por entre montanhas
[ todo homem
[ pensando agora poder voar.

Insuportável disputa,
Eis que seu preferido a esconde singela
[ dentre as pedras que emergem
Na Aurora de um canto sublime qualquer.

Mobiba
Jamais se faria sua parte gente,
Novamente.
Tornada em prantos e aflição,
Dor e solidão,
A deusa
Fez brotar por entre as rochas,
Num fundo invisível,
A mais bela nascente de águas límpidas.
Eram suas lágrimas a escorrer
Do centro da montanha.
Não havendo assanha,
Fizera Motiba novamente
[ o deleite do homem,
Mas fizera o seu próprio.
Eis que a graça das lágrimas azuis,
Ao sentir-se pele e corpo,
O mergulho estonteante
Faz carícia na face da deusa no cárcere.
Cativa,
A diva a se libertar,
Escorrendo sorrisos
Ao encontro do mar.

Na alegria das crianças a brincar
[ de buscar no fundo as pedrinhas claras;
No êxtase da ninfa que sente
[ suas entranhas a vibrar
No beber dos pássaros após o cantar,
No prazer dos enamorados
[ se entregando no ato
De apaixonar-se.

Era assim a forma que
Motiba,
A deusa
Se faria projetar vida;
Encontrar-se-ia em nova realeza.
Na pureza daquele chorar;
Na transparência de seu sabor
[ quase vegano;
No toque delicado de suas águas,
A simplicidade e a singeleza
[ que justifica o nascer humano.

A deusa da verdade,
Na verdade,
É transcendência.

E de suas tímidas águas
Transparentes,
O espelho a presentear de luz
O mar,
O céu
E o homem a amar…

            … Novamente!

ANOTE AÍ:

Marconi Moura de Lima Burum é professor e escritor. Formado em Letras pela UnB, pós-graduado em Direito Público pela Faculdade Damásio de Jesus, foi também Secretário de Educação em Cidade Ocidental (Entorno de Brasília).

Este Poema é uma homenagem ao menor rio do Brasil, o Rio Azuis, localizado em Aurora, Tocantins, a 491 km de Brasília-DF.

Agenda 21 no Rio Azuis: Mural desenhado pelo artista Francisco Montenegro

Todas as fotos utilizadas na ilustração desta matéria são de Filipi Andrade Rio Azuis

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