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A Romaria do Muquém –

Por Bruno Santiago, no Portal Cerratense

http://www.cerratense.com.br/manifestacaomuquem.html

O desenvolvimento deste trabalho visa enfocar as origens e particularidades da antiga romaria do Muquém, tradicional devoção à Nossa Senhora da Abadia. Realizada na primeira quinzena do mês de Agosto, cujo ponto alto dá-se sempre no dia 15 desse mês. Desde finais do século XVIII que registra-se a ocorrência dessa manifestação, próximo ao município de Niquelândia, Goiás, Estado do qual a referida Santa é a Padroeira. A romaria do Muquém constitui importante fenômeno cultural e religioso para milhares de devotos, não apenas em Goiás, mas no noroeste mineiro, o oeste da Bahia e no atual Estado do Tocantins.

Este estudo tem por objetivo remontar três dimensões que histórica e antropologicamente configuram a manifestação religiosa: a) suas origens no outrora território português do Novo Mundo, o Brasil Português, que herdou parte das tradições sacras do reino e as adaptou à sua realidade; b) como se desenvolveu em solo goiano até ser consagrada Padroeira do Estado, estendendo seu culto devocional à grande região do Brasil Central, fazendo convergir para aquelas remotas serras milhares de pessoas, distintas e anônimas; e por último, C) apresentar uma análise sobre o atual panorama da romaria do Muquém calcada na perspectiva histórica, um pouco dos tipos humanos que dão vida e mantem em atividade essa ancestral herança do mundo lusitano, pertencente a todo povo brasileiro como seu patrimônio coletivo.

Sem anseios em tratar literariamente a romaria, ou investiga-la com o rigor científico, porque distanciaria dos objetivos e alcance deste trabalho, procuraremos enquadrá-la num estudo historiográfico regional. Mesmo porque as obras em literatura sobre Nossa Senhora da Abadia do Muquém são poucas, as produções historiográficas idem, e as dissertações ou teses de igual medida. Malgrado a interessante figuração que a festa apresenta, sua historicidade ancorada na ancestralidade que remonta séculos, sua idiossincrasia em desenvolver-se nestas paragens e manter-se viva por tanto tempo, são categorias que a faria objeto para muitas ciências. No entanto parece que as academias ainda não descobriram o fenômeno ora apresentado, e estas breves linhas tentarão preencher alguns vazios, nos limites não científicos. A historiografia regional não pode prescindir da metodologia científica para investigação e análise, mas pode se dar ao luxo de colocar para o público impressões e considerações trazidas in loco. O trabalho historiográfico regional é assim prenhe do olhar empírico sobre os sujeitos e o processo, trabalha com o modo experimental verificado onde se manifesta seu objeto, é parte dele.

Para tanto discorreremos aquelas três dimensões citadas acima da seguinte maneira:

1º – Ao verificar as origens da festa do Muquém no território português da América, é preciso esclarecer como a Santa, desde antiquíssimas eras, emanava fé e amor devocional na sociedade medieval portuguesa(01) ; destacaremos como as relações senhoriais na sociedade feudal do reino erguiam suas manifestações e celebrações no intuito de selar os vínculos entre as diversas camadas da população: servos-camponeses, vassalos, senhores, eclesiásticos, clero e nobreza. A proveniência da referida Santa, Nossa Senhora da Abadia, no reino de Portugal e o apoio real à sua devoção nos territórios adstritos à Coroa e às demais Casas nobiliárquicas(02). A diferença entre as duas grandes práticas religiosas do final da Idade Média, entre o período gótico e a Renascença, em que uma visava a vida contemplativa espiritual e a outra a busca        incessante pelo paraíso através de uma vida material de dedicação e provas. E também destacaremos como o culto a determinadas bandeiras religiosas traduzia esta dedicação e evidenciava a mentalidade do homem medieval em alcançar as graças num paraíso além Terra. Mas o importante a salientar é a funcionalidade dessas manifestações no reino português para a estrutura política de poder exercida duplamente pela monarquia e pelas castas senhoriais, que a tinham como a argamassa ideal para a condução social e política do país (Faoro,p. 12). Sua transmutação para os territórios portugueses do ultramar a partir do século XVI, viria a reforçar essa estrutura de poder criada a tempos e mantida durante todo o Antigo Regime, adquirindo no entanto, contornos muito próprios em cada paragem do vasto Império lusitano(03). Isto foi o que se sucedeu no Brasil Português e o que pretendemos demonstrar nestas linhas com o referido cuidado mencionado anteriormente de não precipitar-se em rigorismos acadêmicos.

2º A chegada das culturas devocionais cristãs ao Brasil Português encontrou solo fértil em Goiás, assim como em toda grande área central do território português na América. Por ser Goiás alvo de intensa migração na segunda metade do século XVIII, com este movimento populacional aportaram também as práticas religiosas, culturais, sociais e o trato relacional entre indivíduos. As peregrinações no Brasil Português e particularmente na capitania de Goiás, carregaram o traço da religiosidade tardo-medieval do reino ibérico, em que a graça para uma vida material próspera seria alcançada pela demonstração vívida; assim, a religiosidade portuguesa desenvolveu-se afortunadamente nesta isolada região, distante não apenas da saudosa terra metropolitana, mas do calor dos centros coloniais mais antigos, onde os festejos, as celebrações e as notícias aportavam frequentemente. É importante notar ainda que em Goiás as festas e celebrações da liturgia católica eram as únicas mostras de convívio humano e amálgama social existentes na capitania nos idos dos séculos XVIII e grande parte do XIX. A romaria de Nossa Senhora da Abadia viria a fortalecer esse vínculo humano e social, contando para tanto com o apoio oficial, primeiro do reino – do Governo Geral e Vice-reinado – e depois do próprio governo provincial goiano. A diocese de Vila Boa também envida esforços no sentido de manter a romaria e divulga-la dentro de seus limites pastorais. Procuraremos demonstrar que a peregrinação à Vila de São José do Tocantins, onde se localiza a capela mariana de Muquém, funcionava como dínamo econômico e social, por pelo menos o tempo em que duravam as festividades.

3º Dentro da perspectiva histórica que já esboçamos mais atrás a romaria do Muquém é um desbravamento de civilização e construção humana nas distantes paragens do sertão goiano. Verdade que promoveu a assimilação forçada, senão a obliteração da antecedente cultura indígena dos goya-avácanoeiro; mas por outro lado, lançou base para a continuidade das povoações auríferas reduzidas à quase nada quando veio a dêbacle do precioso metal. A romaria atraiu gente para o sertão goiano, foi mais um foco para o povoamento das terras setentrionais de Goiás, e abriu por entre as serranias e matas fechadas os caminhos do sul para o norte. Era uma referência na passagem para os vales dos rios Tocantins e Paranã, por onde o gado e as mercadorias necessariamente trilhavam, e os tropeiros podiam contar com a paragem segura à sombra da igreja dedicada à Senhora da Abadia. É neste sentido que apresentar uma perspectiva histórica para o presente, é também indicar como a obra se manteve viva e porque, num passado não tão distante. E para tanto os tipos humanos que obraram a peregrinação e a tornam presente nos dias atuais é seguramente parte de nossa abordagem. Tipos variados, sertanejos, urbanos, viajantes, simplórios e abastados, mas que no presente tempo convergem em massa na primeira semana de agosto, e fazem do dia 15 desse mês, a revivescência de um fenômeno antiquíssimo, herdado do longínquo velho mundo.

Foto: Correio de Uberlândia

As peregrinações medievais portuguesas como ancestralidade das romarias no Brasil

Pode-se reconhecer que as grandes peregrinações no ocidente europeu tem início na alvorada do milênio (ano 1000) quando surgem importantes centros espirituais que custodiavam sagradas relíquias cristãs. É neste período de transição entre a decadência dos impérios carolíngio e germânico (otoniano) e ascensão das estruturas feudo-vassálicas, que esses centros irão adquirir reverência e notoriedade, sob o domínio de senhores-guerreiros ou estados clericais. Na Península Ibérica particularmente, é de importância capital o santuário do apóstolo Jacob (o Santiago universalmente conhecido) que segundo a tradição era irmão consanguíneo de Jesus e cognominado nas antigas escrituras como “a coluna do cristianismo”.(04)

A rota jacobéia(05) como ficou conhecida a série de caminhos que irradiavam de toda a Europa latina e chegavam até a cidade na Galícia, tornou-se célebre e aglutinou grandes somas de riqueza, via doações, aos senhores do norte peninsular e também aos monarcas de Leão e Castela. Também os portugueses que recentemente ergueram seu Estado sob a Coroa borgonhesa de D. Afonso Henriques, (1170) passaram a singrar o caminho do apóstolo rumo à Galícia, sendo tradicionalíssima a chamada rota portuguesa. Pode-se considerar que a pioneira experiência oferecida pela peregrinação a Santiago de Compostela, ativa já no século XI, constituiu um modelo para as futuras peregrinações, muitas delas auspiciadas por senhores, ou mesmo pelos monarcas da época. Era de fato uma empresa da fé, no sentido de que amealhava pessoas, trocas, movimentava algum comércio ao longo do caminho e na própria localidade onde se encontrava o santuário. À medida que tomava corpo no correr do século seguinte (XII) sofreu as taxações que impunham o fisco de passagem por entre os estados feudais, caminhos onde passavam as caravanas – de peregrinos e de comerciantes, ou de ambos, pois na maioria das vezes era um só comboio.

Dentre alguns caminhos que foram surgindo na Península Ibérica nesse contexto devocional explícito, afora o de Santiago de Compostela, nota-se o que conduzia à abadia cisterciense de Alcobaça. A Ordem de Císter fundada no século XII por São Bernardo de Clairvoux, ou de Claraval, guardava todas as máximas do ideário espiritual do momento. A austeridade individual, as provações terrenas para se chegar à vida eterna, o sofrimento, a contemplação como veículo ao Senhor, e o encerramento clerical nos mosteiros com a total dedicação ao trabalho para o auto-sustento. Esta ordem conheceu grande sucesso em Portugal, sendo agraciada diretamente com as benesses reais, como foi o caso da grande Abadia de Nossa Senhora em Alcobaça. Esta, fundada em 1175 pelo mesmo D. Afonso Henriques, edificador do reino, obteve importante centralidade na elaboração intelectual e jurídica por todo o período medieval português, sobretudo durante as duas primeiras dinastias, a de Borgonha e a de Aviz, que a sucede em 1385. Alcobaça inicialmente subordinada à sua Casa Matriz de Claraval, na Borgonha francesa, adquire factual independência no século seguinte (XIII) estando ligada aos domínios da Coroa. E é por ela, pela realeza reinante, e pelos senhores das nobres linhagens que o notável trabalho jurídico, político e espiritual da Abadia será dirigido, espécie de centro do saber a serviço do reino.

Mas por outro lado, a dimensão da Abadia mariana de Alcobaça extrapola seus préstimos à política real; é sobretudo, uma casa espiritual que para lá acorrem milhares de devotos de todas as camadas sociais, em busca daquilo mais precioso para o homem medieval: a salvação. Contudo antes de nos determos nesse ponto específico, em que a Abadia de Alcobaça representava para a mentalidade portuguesa, voltemos ao contexto histórico das mentalidades medievais na transição cronológica para o primeiro milênio. Nos informa Saraiva(1988) que parte considerável das sociedades cristãs da Europa Ocidental atiraram-se freneticamente em busca das Santas Relíquias do Senhor, espalhadas pelo continente, cada qual com um valor que se hierarquizava, e se creia milagrosas. A este conjunto de busca incessante que marcou toda uma época na história do cristianismo, se denomina Demanda pelo Santo Graal. A ansiedade pelo Messias não se contentava com simples espera, era preciso encontrá-lo, mesmo que em partes, ou em partes por Ele tocadas; assim

“…O traço dominante desta obra (a demanda) era o messianismo. Galaaz, o novo Cristo, é o Messias que virá revelar as maravilhas do Santo Graal, até agora escondidas. Dir-se-ia que é portador de uma nova revelação. Ora, precisamente uma nova revelação será prometida em fins do século XII – já avançado o milênio. Seguir-se-ia ela à do Novo Testamento, como este se seguiu ao Antigo e como a Lei de Cristo sucedeu à lei de Moisés. Está para vir a época do Espírito Santo, a época definitiva do Evangelho Eterno, em que se rasgará por fim o véu carnal e mundano que ainda encobre a verdade. A Igreja de Cristo será então substituída por outra Igreja mais perfeita e os sacramentos, serão revelados na sua verdade espiritual…” (06)

As peregrinações à Abadia de Alcobaça inscrevem-se nessa tradição registrada desde o século XI, e que tomou fôlego graças ao amparo institucional da época, ao beneplácito da Coroa e à aristocracia senhorial. É constatado também que a matéria da Demanda pelo Graal, relacionada acima, promoveu esse espírito viandante devocional, e que em Portugal, a espera pelo retorno do Senhor motivou a expectativa messianista, sobretudo na Alta Idade Média. As peregrinações como traço distintivo da política real, deve ser sublinhado, ainda se levarmos em consideração o contexto de guerras e instabilidade vivida pelo reino. É a fase da Reconquista das terras meridionais aos mouros, e o sucessor de D. Afonso I, seu filho, D. Sancho assume esta lide. Em seus primeiros anos de reinado investe contra as posições árabes ao sul do rio Tejo, conquistando a fortaleza de Palmela, Silves no litoral sul e Alvor, chegando mesmo ao Algarve. Novo revés e as forças mouras retomam essas praças fortes por volta de 1190, para posteriormente cedê-las definitivamente ao reino português em 1249 sob D. Afonso III. Neste contexto, a Abadia ergue-se como sentinela em dois flancos: pela avançada presença cristã em zonas fronteiriças ao mundo muçulmano, e pelo povoamento que promove nas terras reconquistadas. O quadro é apresentado assim por Néri Souza em interessante pesquisa sobre a peregrina Vida de Santo Amaro,

“…A forte ligação que existiu ao longo da Reconquista portuguesa entre a retomada de territórios, a peregrinação e a fixação de casas religiosas, marca a geografia da legenda de Santo Amaro. Na primeira metade do século XII o pequeno território do Condado Portucalense, situado entre o Douro e o Mondego, estende-se num processo sem retorno. Nesta fase crucial da Reconquista, Cister se ocupa das terras situadas ao norte do rio Tejo. (…) O Mosteiro de Alcobaça (1153) cujas dimensões soberbas demonstram sua importância simbólica e real para a empresa cisterciense, foi construído próximo ao limite extremo das conquistas de entre Mondego e Tejo… A Reconquista irmana-se com a vocação cisterciense em seu desenraizamento espacial e parental. Juntas, fornecem um quadro de unidade geográfica e social aos grupos humanos envolvidos pelo processo de conquista e povoamento…”(07)

Todavia na sequência dessas empresas guerreiras, o apoio real à Abadia de Alcobaça nunca fora secundarizado. Mais que nunca, a Coroa e a nobreza governante necessitavam empreender o povoamento das novas terras conquistadas, e manter estabilidade social naquelas mais antigas, núcleo do reino. Alcobaça e sua ingente Abadia ficavam a meio caminho da Capital, Coimbra e da principal cidade, Lisboa, que era também a mais populosa e comercial do país. Tanto os reis D. Sancho I quanto D. Afonso II e D. Sancho II entre 1185 a 1248, esforçam-se no povoamento do reino e entregam ao clero cisterciense de Alcobaça a carta régia que a torna “independente”, o foral em 1220. Com esta outorga, D. Afonso II procura estabelecer um convívio proveitoso com o clero português, já que entrara em colisão com a Santa Sé a ponto de ser excomungado pelo Papa, em parte pela apropriação dos rendimentos da Igreja postos à disposição do Estado.

Mas o importante a sinalizar é que com a independência feudal da Abadia e a administração própria de seu imenso território, os monges intensificam a motivação devocional em torno de seu centro espiritual. Distribuem cartas e missivas às demais casas cistercienses na Península, nos reinos vizinhos de Castela e Leão, para que acorram a venerar as santas relíquias custodiadas na Abadia. O trabalho e a produção intelectual centrados em Alcobaça são notórios e funcionais à política clerical – e à da Coroa por suposto – daí divulgando o nome da Abadia para diversas regiões da Europa. Isso consolida o nome da Abadia como centro de estudos, jurídicos – em torno da patrística – políticos e espirituais em todo o mundo cristão ocidental. Nos informa Saraiva(1988, p. 107) em suas investigações sobre a livraria do mosteiro, que as obras mais dignas de nota são as teológicas, de direito canônico e civil, e direito divino, a maioria em latim. São obras que traduzem a importância política da Abadia porque tanto a Coroa quanto a nobreza valiam-se dos conhecimentos e técnicas jurídicas dos monges e clérigos para manter e legitimar seu poder. Alcobaça era por este largo período medieval um núcleo decisório para todo reino, sendo que as Cortes – assembleia nobiliárquica convocada pelo rei para decidir os mais importantes assuntos – sempre requisitavam a apreciação do clero cisterciense e seu veredicto.

O destaque a fazer aqui é entender como a Abadia vai se tornando um local nevrálgico para a sociedade medieval portuguesa, e como este apanágio vai se interiorizando no espírito coletivo, via peregrinação mariana.  Temos aqui a conjugação de três importantes fatores: 1 – a Abadia como centro intelectual e político do reino, nas características que descrevemos acima; 2 – como sede religiosa da principal ordem eclesiástica europeia entre os séculos XII e XIII e 3 – por ter se tornado a casa espiritual de maior relevo no jovem reino ibérico, afluiu para si o vital apoio real e senhorial, e conquistou as graças da população devota, que buscava refúgio dentro de seus muros. No correr dos séculos seguintes a Abadia de Alcobaça foi o equivalente português ao Santuário do Apóstolo Tiago na Galícia, sem a mundial celebridade, mas com um considerável peso em paralelo para o reino de Portugal. É preciso entender que as vagas migratórias, apesar de existirem a muito tempo, não era um lugar comum no mundo medieval. As viagens eram difíceis, os caminhos não tão seguros, e para as camadas mais humildes como camponeses e servos, a oportunidade da viagem devia ser devidamente conseguida com o senhor suserano. Quanto mais próximo for o destino, mesmo numa peregrinação cristã, mais factível sua realização para o devoto humilde, que em muitos casos levava toda sua família para que a graça fosse concedida para todos. Esse destino mais alcançável também era conveniente ao senhor, que assim não veria desassistida sua propriedade, sua produção agropastoril e os serviços atinentes ao servo vinculado. E por conseguinte, um destino mais próximo seria vantajoso para o clero local, que amealharia as riquezas das regiões circundantes, e poderia estimular as peregrinações em proveito da casa local – como de fato a ordem cisterciense, e mais na frente outras congregações o fizeram, tornando as rotas devocionais verdadeiros marcos no calendário religioso português.

O culto à Nossa Senhora, centrado na Abadia de Alcobaça, institucionalizou-se no reino sendo proclamada como a “protetora de Portugal”, até que as reformas canônicas na era moderna instituíssem Nossa Senhora da Conceição como a Padroeira da nação. Quando a expansão do Império Português no ultramar veio a ocorrer a partir do século XV, a Abadia de Alcobaça e seu ciclo devocional mantiveram-se firmes, bem como a influência intelectual e literária do mosteiro. As peregrinações até ela continuaram em vigor, a devoção mariana à Nossa Senhora da Abadia idem, e ao longo dos caminhos que convergiam à vila, próximo ao litoral, nas Beiras, hospedarias religiosas com respectivas capelas e igrejas eram erguidas para o abrigo dos peregrinos.

Todavia sua outrora centralidade política dos séculos XII ao XIV tivera que ser compartilhada com outras casas eclesiásticas fundadas no reino sob beneplácito real. Isso ocorre no momento em que novas aspirações devocionais são estimuladas pela Coroa, pelo Clero e pela nobreza governante. As Ordens Religiosas que aportam em Portugal nos séculos XIII, XIV e XV, como franciscanos e dominicanos, manterão as antigas práticas cultuais e devocionais, mas as reformularão consoante aos novos tempos e interesses. O culto mariano será mantido e promovido sob novas orientações, mais populares, citadinas e de ampla divulgação pública, o que reforçará a veia peregrina à muito tempo arraigada entre os portugueses.(08) O próprio rei D. João I, da Casa de Aviz – dinastia na qual, se conquistarão os portugueses o Brasil – compôs o belo Livro das Horas de Santa Maria, tendo dedicado à Virgem a magnífica Igreja do Mosteiro da Batalha. O Condestável Nuno Álvares morreu Frei Nuno de Santa Maria, depois que construiu a Abadia de Nossa Senhora do Carmo, em Lisboa, e ainda o rei D. Duarte torna-se defensor da Imaculada Conceição, um dogma que não era comumente aceito pela Santa Sé.

Foto: ZecaBlog

As peregrinações nas terras portuguesas além mar

A colonização lusa na América correspondeu em certo sentido à transplantação civilizacional para a nova terra. Mesmo se considerando que houve a construção humana sob um novo tipo, o tipo humano marcado pela mestiçagem e fusão cósmica, é fato que o edifício civilizacional português veio nas caravelas. Dentro da ingente bagagem histórica, o elemento religioso e espiritual foi de significativa preeminência inserido numa sociedade hierarquizada pela realeza e pela Igreja. As ordens religiosas seculares e clericais estavam todas vinculadas ao reino luso, e grande parte delas contavam com a chancela real para atuarem no Brasil Português. Não vamos tratar aqui da instalação dessas ordens pelo território que vai sendo ocupado, a começar pela faixa litorânea do Nordeste ou na zona costeira e altiplano paulista. Missionários jesuítas, franciscanos e dominicanos foram se instalando e abrindo suas casas espirituais para onde acorriam centenas de pessoas em devoção; ainda o trabalho ligado aos afazeres e misteres cotidianos, à educação, ao cultivo de hábitos e ao estabelecimento da própria civilização, da qual somos resultante, estiveram nas agendas dessas ordens eclesiásticas. Nosso foco volta-se para a expansão missioneira nos interiores do Brasil Português, para além São Francisco, o rio que delimitava naturalmente a expansão lusa nos séculos XVI e XVII. Ora a instalação dos primeiros arraiais auríferos nas Minas Gerais em fins do século XVII e sua subsequente constituição no Mato Grosso e Goiás (1719 e 1730 respectivamente) levam ao movimento ocidental das missões seculares e clericais daquelas ordens citadas. De São Paulo provem o empuxo expansionista caracterizado pelas célebres Bandeiras e Monções, partidas pelo interior (sertões), em que o elemento humano predominante é paulista por formação e temperamento, aquele tipo único fusionado entre o português e o índio, bem explicado por Bonfim.(09)

Porém nas caravanas ou tropas que os paulistas guiam para os sertões ocidentais da América Portuguesa, não pode deixar de haver o missionário oficialmente reconhecido pelo clero metropolitano e Coroa. Esta figura vem munida das credenciais eclesiásticas para oficiar seu trabalho, junto ao gentio ímpio, na tarefa catequizadora-civilizacional, e junto ao branco, seja ele senhor/gentil homem, peão cristão livre ou condutor de tropas. Mais ainda vai desenvolver seu trabalho missioneiro junto ao negro escravizado, estimulando junto àqueles mais aculturados a criação das Irmandades do Rosário. Na bagagem desses missionários vem todos os costumes ancestrais da tradição lusitana e ibérica, num quadro mais amplificado, em que as antigas práticas medievais conservadas na metrópole são por sua vez transplantadas. Seguindo a evolução da espiritualidade portuguesa apontada por Saraiva, a religiosidade que aporta no coração geográfico do Brasil (século XVIII) vem carregada do misticismo, ritualismo e da sensação vívida que marca a Reforma Católica tridentina. O Humanismo cristão voltado para o homem, seus serviços e conquistas sob as bênçãos divinas, está arraigado nas mentes missionárias e no Clero. Sobrevive à Ilustração setecentista e torna-se vitorioso no Ultramar português, inclusive nos sertões ocidentais do Brasil, na Capitania de Goiás particularmente.

O espírito iluminista centrado na razão e na fina observação dos fenômenos, e refletido nas reformas administrativas que Pombal e seus sucessores farão, não adentrará a mentalidade coletiva entre os súditos de S. M. R portuguesa no Brasil. Mas a espiritualidade mística vinda com a Reforma Católica essa sim sobreviverá nos rincões interiores, e com o caldo indígena e africano, emanará nas demonstrações de fé e devoção ritualística que tanto enriquecem o cenário cultural no Centro Oeste brasileiro.

Para nosso melhor entender, é preciso situar como o Estado monárquico português vale-se da Igreja como preâmbulo a seu domínio, como também a classe senhorial. Esse caldo interétnico, bem formulado por clássicos como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, não pode ser reconhecido sem seu elemento principal, na visão de outro clássico, Raymundo Faoro que diz,

“… A cultura nativa deixou traços, reminiscências, resíduos: seu conteúdo ósseo se perdeu, substituída pela predominância portuguesa, infiltrada – apenas infiltrada – de águas subterrâneas, degradadas, espiritualmente degradadas. A conciliação das duas cultura seria impossível, como impossível a segregada permanência do indígena. Em todos os tempos, as culturas quando se encontram, combatem, como o sacrifício de uma, num permanente processo de trituramento interior, com a sobra da nostalgia idealizada da civilização perdida e soterrada, longínqua e morta…”(10)

A Igreja no Brasil Português constituía-se como instrumento do Estado monárquico lusitano, corroborado pela indelével aliança entre a Coroa e a Santa Sé, desde tempos imemoriais(11). Isto levou a que todo súdito português, seja nascido na metrópole ou no ultramar, fosse também um fiel devoto cristão quanto de Sua Majestade. E tal procedimento penetrou pelas diversas castas sociais que formavam a pirâmide humana no Brasil Português, não distinguindo entre índios, negros, brancos, mestiços, caboclos e, casualmente, estrangeiros convertidos em súditos da Coroa portuguesa. A Capitania de Goiás estava adstrita à Arquidiocese da Bahia, em São Salvador, que era também a responsável pelo encaminhamento dos religiosos que serviriam duplamente ao poder temporal, à Coroa e aos senhores fidalgos, e ao poder espiritual, representado pela Igreja. Como nota Bertran (2002,p. 54) a proximidade geográfica com a Bahia e as relações econômicas mantidas com esta antiga Capitania fizeram aportar em São José do Tocantins (atual Niquelândia) e Traíras (atual Tupiraçara) inúmeros ‘baianos’. Com eles vinha também suas praticas devocionais contraídas em direto contato com a Metrópole, sendo na verdade transplantações daquela ancestral religiosidade portuguesa. O ciclo das romarias na Bahia já era muito conhecido assim como a devoção mariana em longínquas localidades, como se observa por todo Portugal. Uma explicação sobressai que nestas romarias e festividades que frequentemente acontecem, uma importante movimentação vem dar vida ao lugar. Nesta ocasião são realizados acordos comerciais, trocas, doações à Irmandade local e pelos dias festivos – curtos mas significativos – contatos entre proprietários-senhores e comerciantes; está feita a vida para muitos que não contarão com qualquer movimentação semelhante naquelas paragens pelo próximo ano.

As romarias típicas da Bahia são muito inclinadas às práticas comerciais devido aos encontros e festividades promovidos pelas irmandades leigas e paroquianos envolvidos. No norte de Goiás, em São José, Traíras, Arraias e Natividade, a presença desses súditos portugueses da Bahia cria ou reproduz essas devoções muito apropriadas, e as famílias senhoriais se incumbem de dar prosseguimento àquele tradicional festejo. Na verdade as celebrações religiosas estão entre as pouquíssimas festividades naqueles distantes horizontes. São praticamente as únicas aglomerações em que o calor humano e as demonstrações de vida e civilização tornam possíveis o cotidiano em tão longínquas e desabitadas paragens. Assim o elemento religioso marca a mentalidade e o cotidiano entre aquela população, cuja origem é portadora das tradições portuguesas, católica, monárquica e senhorial no além mar.

Na Diocese de Uruaçú-GO, existem documentos que corroboram a vinda desses contingentes da Bahia para o norte de Goiás, para a zona aurífera da capitania, entre as décadas de 1760 e 1790. São por assim dizer os primeiros contingentes de uma carreira que não cessará até os dias atuais, pois esse itinerário migratório até hoje é registrado no norte goiano e atual Estado do Tocantins. Mas para a observação historiográfica, é importante situar as primeiras levas que chegaram a Goiás, provenientes da Bahia, e que muito contribuíram para a formação civilizacional em toda região setentrional da capitania. Os passos pela Serra Geral de Goiás (ou Espigão Mestre na cartografia baiana) conformam o cinturão de caminhos e picadas que foram conhecidos como “a Estrada do Norte”. Esta atravessava a referida Serra na altura dos atuais municípios de Formoso-MG, Sítio da Abadia e São Domingos (mais ao norte) ambas em Goiás. Duas vertentes uma dirigindo-se ao norte, rumando para os centros auríferos de Natividade, Monte do Carmo e Arraias; e outra para o noroeste onde alcançava São José (Niquelândia), Traíras, Pilar e outros centros auríferos nas cercanias da capital Vila Boa (Cidade de Goiás). Esses caminhos genericamente chamados Estrada do Norte levaram os primeiros colonizadores para o sertão goiano, com suas famílias, algumas posses, habilidades na arte da mineração e outras artes, e o afeto em introduzir as tradições cristãs basilares da vida na época. As romarias, ladainhas, cânticos paroquianos e festividades do santo padroeiro (da família? do dia? Pessoal?) tudo era motivação de sobra para lembranças e comemorações.

No norte da capitania de Goiás são registradas algumas manifestações características das antigas peregrinações portugueses levadas para a Bahia, em finais do século XVII e inícios do XVIII. Devemos ter em mente que essas peregrinações guardavam o sentido tardo-medieval devocional, exprimido na exterioridade da fé. A reforma humanista proposta no Velho Continente que tornava a fé uma expressão introspectiva e espiritual do homem, dirigida à sua evolução intelectual e de seu espírito, não cativara a sociedade portuguesa, seja a metropolitana ou a de além mar. A “imitação de Cristo” na devotio moderna tardaria a encontrar guarida em Portugal.(11)Por outro lado a chamada “Santa Peregrinação” acorde à Baixa Idade Média, esta sim encontrava adeptos entre as camadas sociais no Brasil Português, como atestam as romarias e celebrações hagiográficas na Bahia do seiscentos. Um dos mais notáveis exemplos é a peregrinação agostina em honra a Nossa Senhora da Soledade na lapa do Bom Jesus, ás margens do rio São Francisco. Diga-se de passagem neste antigo e celebrado santuário, a devoção é dupla: ao Bom Jesus e à sua mãe, a Virgem Maria, uma particularidade caracteristicamente portuguesa. A antiquíssima devoção pia ao Bom Jesus remonta à plena Idade Média em Portugal, notadamente nas Beiras onde se encontra o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos (Distrito do Porto) joia do barroco luso e inspiração para o homônimo santuário em Congonhas do Campo, MG.   Os festejos em honra ao Bom Jesus consorcia a peregrinação ao Templo, as festividades, a liturgia própria (com missais específicos) e o apelo daqueles que obram diretamente na causa. A peregrinação ao Bom Jesus é uma completa expressão de fé e devoção em todos os sentidos, pois

“…A atividade física de viajar para Deus pode ser também uma ajuda para a mente em sua própria viagem. Os que participam de procissões testemunhais, os que marcham em apoio da paz, ou de boas causas, os que andam pelas ruas recolhendo dinheiro para as obras de caridade, todos estão envolvidos nesta espécie de peregrinação…”(12)

Na metrópole a devoção ao Bom Jesus era uma sincera interpretação franciscana que tomou impulso no século XV com o trabalho de Dom André Dias, bispo de Mégara, fundador da primeira procissão em honra ao Corpo de Deus. Recua-se a 1432, sob o reinado de D. João I em Coimbra, e a mística desse ritual é a peregrinação estimulada a todos os devotos no reino. Segundo Saraiva (1998 p. 89) é verdadeiramente uma fé popular porque traz consigo o domínio mágico das visões, inspirações divinas e curandeirismos. Nota por outra parte que a Coroa não fazia boas vistas com essas práticas populares, mas as tolerava, como numa passagem onde D. Duarte recomenda prender-se toda a gente à verdadeira religião.(13) Essa fé popular estimulada pela Confraria do Bom Jesus centrada em Coimbra preceituava externar o amor em Deus através dos cânticos, danças, caminhadas e encontro físico com o Senhor Bom Jesus. Essa série de manifestações embebidas no sagrado seria o aporte para as graças e bênçãos que todos buscavam em última instância, e o próprio D. André Dias se responsabilizou de recitá-las para os peregrinos e fiéis,

“…Vinde agora e vinde todos vós outros, confrades e servos da Confraria do Bom Jesus, e comigo estes melodiosos cantares, hinos, prosas e laudes, que aqui neste livro compilei em honra do Bom Jesus, em altas vozes cantai, bailai, dançai, orai, tocai, em órgãos, em atabaques, com trompas, com anafis, com guitarras, com alaúdes e com arrabis, ante o seu altar (…) E por mar e por terra, louvai, glorificai, exalçai e chamai o seu nome santíssimo e muito espantoso de Jesus, e em vossas armas e escudos e lanças, naus, galés, caravelas e barcos, e em vossos peitos e vestiduras e casas, e em vossos corações e almas o pintai e trazei e nomeai; e vinde em eternos caminhares ante o seu altar que está no Mosteiro de São Domingos da cidade de Lisboa, onde por ele se fazem muitos milagres cada dia…”(14)

 Pelos séculos seguintes a devoção ao Bom Jesus se radicou no território português, tornando-se poderoso símbolo identitário para o reino. Ao aportar no Brasil se desenvolveu consideravelmente pelos núcleos populacionais e igrejas espalhadas pelos sertões, sob direta jurisdição missionária de franciscanos ou de dominicanos. Seu cunho popular se manteve no Brasil Português, tal como se desenvolvera na metrópole, mas com o caldo sertanejo impregnado na sua ritualística e mentalidade inspirada pela fé. Pelas distancias e solidão com que o homem lusitano tinha que contar, sobretudo nas terras para além do rio São Francisco, as práticas devocionais funcionavam como bálsamo, verdadeiros lenitivos para a alma entregue aos infinitos horizontes. Nestas paragens era apenas ele, o senhor de terras e minas (e escravos) que reinava e conduzia a fé pois representava civilizacionalmente o longínquo reino metropolitano.

                Portanto a dupla devoção que vigorara no Brasil Português, a de Jesus e a de Nossa Senhora, são transplantações civilizacionais que o homem realiza, estruturado em suas instituições e padrões culturais. Não há por assim dizer um plano orquestrado, previamente traçado para esta ou aquela finalidade, mas há o pendor cultural, a formação humana que carrega consigo as manifestações mais íntimas e públicas ao mesmo tempo. Elas se consorciam coerentemente, mas não harmonicamente, para formar novos edifícios culturais noutras terras. Realizam a simbiose com outras culturas para criar (ou recriar ou renovar) as antigas manifestações do sagrado, do humano, do cultural, perpetuando assim a própria civilização.

Mas o raio de divulgação da peregrinação ao Bom Jesus da Lapa transcendeu consideravelmente as fronteiras da Bahia. As famílias que acorriam para Goiás, provenientes daquela capitania, introduziram sua devoção e toda ritualística empregada na peregrinação – romaria – ao Bom Jesus. Em particular as marchas com os carreiros puxados por bovinos que melancolicamente singravam os sertões e as serranias goianas com suas hostes coloridas e seus ícones em honra ao Senhor. Todavia o significativo dessa “exportação” de fé ao Bom Jesus, que atingiu praticamente todo o Planalto Central, indo até além do Araguaia no Mato Grosso, foi a devoção à Virgem Maria. E como a piedade mariana tem raízes profundas no misticismo português, em muitos casos chegou a sobrepujar numericamente a devoção em Jesus Cristo, externada nas peregrinações e festividades. É assim que em Goiás desde meados do século XVIII são conhecidas mais romarias em honra a Virgem Santíssima que a qualquer outro vulto do cristianismo. E em especial a Nossa Senhora da Abadia venerada em muitas localidades que nos dias atuais tornaram-se centros urbanos que abrigam seus templos ou mesmo santuários.

A consagração de Nossa Senhora da Imaculada Conceição como protetora de Portugal pelo próprio rei, passando ao largo pontifício, revela a identificação construída entre monarquia e devoção mariana. Para o público/súdito na metrópole e no ultramar, ter Nossa Senhora como a protetora do reino guarda significado especial. A Mãe de Deus protegia as famílias, os desamparados, os pobres e também a nobiliarquia com sua hierarquizada estrutura de controle. No topo estava a Coroa que pela intersecção mariana reinava “absoluta” sobre todo território, com legitimidade perante as casas principescas que compunham o estamento do país, e que nem sempre se submetiam de bom grado ao alvitre real. Nos domínios ultramarinos a Virgem também era a proteção que velava pelos que se distanciaram, levando a fé em Cristo para outras plagas. No Brasil Português setecentista e de inícios do século XIX, a piedade mariana supunha a renovação da irmandade em Cristo, aquela ligação com o sagrado que doravante a instalação das famílias, em caráter definitivo nos sertões, deveria ser mantida. A divulgação cristã nos sertões goianos para além do rio São Francisco, teve uma orientação institucional, como se pode depreender da antiga documentação – século XVIII. Petições de governadores às ordens religiosas, eram as mais comuns, como atesta a solicitação do segundo governador da Capitania de Goiás, D. José de Vasconcelos “…para que venham padres para cristianizar e civilizar toda a gente da terra…” (15) Oficiais do governo e demais autoridades na capitania e fora dela, como na sede do Vice Reino no Rio de Janeiro, também fazem solicitações às ordens religiosas afins à elite senhorial local, para que padres e missionários se instalem na região e levem “civilização e fé àquela gente”.

Essas investidas institucionais são normais e revelam a política metropolitana para seus domínios, a edificação cultural ou a transplantação do patrimônio cultural português para as novas terras. Em sendo o Planalto Central brasileiro à época região ainda agreste e despovoada, a definição territorial portuguesa passaria pela sua presença humana, com toda fisionomia lusitana possível. Os antigos arraiais mineradores tiveram atenção direta do poder metropolitano para erguerem capelas, altares, igrejas e obterem imagens religiosas que hoje nos impressiona pela beleza artística. Como nota Bertran (2002.p. 61) o interesse em levar a civilização para os sertões do Planalto chegava até Lisboa, onde várias plantas, desenhos sugestivos, modelos arquitetônicos e auxílio (verba) às obras pias foram despachados para Goiás e Mato Grosso. E importante a destacar, é que obras e imagens também foram remetidas por solicitação expressa das ordens missionárias e autoridades preocupadas com a conclusão célere e imediato funcionamento das igrejas e capelas.

Mas além desse interesse institucional havia o não menos importante interesse daqueles que habitavam e tinham aqui suas famílias fixas. Esses, imbuídos da necessidade de observar a fé e renová-la constantemente foram os grandes responsáveis por levar as romarias e peregrinações às mais longínquas vagas do sertão. E o fizeram sem qualquer responsabilidade institucional, missionária ou catequética vinculada a algum poder governamental. Seu senso ou sua lógica civilizacional já estavam estabelecidos e a linguagem que empregaram era a que conheciam: era preciso manter a devoção e a fé em Nossa Senhora e em Jesus acima de tudo.

Lá pelos finais do século XVIII a política reformista de Pombal – prosseguida no reinado de D. Maria I – incrementava os chamados ‘aldeamentos’ civis, maneira de agrilhoar o gentio, catequiza-lo e conservá-lo na civilização cristã. Alguns modelos foram registrados na Capitania de Goiás e Mato Grosso, como determinação expressa da Mesa de Consciência e Ordens do Real Conselho Ultramarino em Lisboa(17). Mesmo que não se registre qualquer aldeamento na região em torno ao Arraial de Muquém, é provável que os notáveis em São José do Tocantins e Traíras tenham se empenhado em garantir a pacificação em suas terras seguindo o modelo tradicional e oficial que conheciam. E tanto, que nesses dois ilustres arraiais auríferos, a expressão religiosa foi muito vívida desde a fundação das primeiras capelas e igrejas, não se declinando o fervor com o ocaso do ouro.

Foto: Meu Tédio

Bibliografia

01-Faoro, Raimundo. P. 12. “O domínio do clero e da nobreza, empreendido pelo rei, encontrou nesse instrumento ideológico das manifestações de fé, o meios espirituais de justificação da ordem senhorial-estamental”.

02-http://www.mosteiroalcobaca.pt/monumento/historia/fundacaodanacionalidade Acesso em 22/02/2016.
03-Boxer, C R. p. 224-225. “Havia a convicção de que Portugal era a nação missionária por excelência no mundo ocidental – Alferes da Fé, como se vangloriava o cronista quinhentista Gil Vicente. No Brasil sua ação missionária equiparou-se a uma cruzada evangelizadora”.
04-Armstrong, Karen. P. 177.

05- Relativo ao nome em latim (Jacob) do apóstolo hebreu Yakov reverenciado na Galícia. Tomou o nome de Tiago por corruptela na tradução de Saint Yakov ou Saint-Yago, para simplesmente, Santiago, donde degenera-se o prenome comum português de Tiago.

06-Saraiva, Antônio José. P. 70-71.

07-Souza, Néri de Almeida. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.phpscriptnerialmeidasouza. P. 205-206. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v.21, nº40, p. 197-216.

08- Saraiva, Antônio José. Op. Cit. P. 87.

09-Bonfim, Manuel. O Brasil na América. P. 47.
10-Faoro, Raymundo. Op. Cit. P. 201.
11-Nota: com este termo “imemorial” não queremos dizer que ao infinito no tempo. Sim existe marco histórico e mesmo cronológico para a aliança estabelecida entre a realeza lusa dos Borgonha e Roma, como há ainda os marcos que ratificam e reelaboram esta aliança, habilidosa e politicamente conveniente.
12- Chawdwick, Henry e Evans, G.R. A Igreja Cristã. P. 90.

 

13 – Op. Cit. P. 78.

14 – Saraiva, Antônio José. Op. Cit. P. 88-89.

15- Laudes e Cantigas Espirituais de Mestre André Dias. P. 17. Apud: Saraiva, Antônio José. Op. Cit. P. 90-90.

16-Notícias Geral da Capitania de Goiás.

17- Lacombe, Américo Jacobina. A Igreja no Brasil Colonial. In: História Geral da Civilização Brasileira. Direção de Sérgio Buarque de Holanda. V 2, p. 51.

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