No Jequitinhonha (MG), versos ajudam bordadeiras e chegam a Chico Buarque

“Oi, Marli! Chico Buarque. Tô te mandando versinhos também. Ósculo!”. Moradora do Vale do Jequitinhonha, na região do semiárido de Minas Gerais, Marli de Jesus Costa foi surpreendida no início de maio com a mensagem de seu ídolo e os versinhos cantados por ele:

Durante a noite inteira
Escuto porquê quem sonha
A Marli bordadeira
Lá de Jequitinhonha

Era uma resposta aos versos que a bordadeira, modista e lavradora de 41 anos havia enviado dias antes ao músico e compositor carioca:

A lua já vem saindo
De trás do pé de fulô
Não é lua não é zero
É o Chico puro paixão
Joguei meu barquinho na chuva
Com carinho e paixão
Chico você é tão lindo
Que nem sereno na flor

Marli é integrante do projeto Versinhos de Muito-Querer, que vende, por meio de uma plataforma do dedo, versinhos cantados por mulheres de comunidades rurais do Jequitinhonha. Helena, filha de Chico Buarque, havia encomendado um para uma amiga. Marli resolveu aproveitar a oportunidade e acrescentou, por conta própria, outro para seu ídolo. Por meio da filha Helena, o compositor o recebeu e retribuiu. “Chico é uma pessoa humilde. Se fosse outro, talvez nem ligasse, mas ele respondeu com um versinho tão bonito, tão suave. Gostei muito, fiquei muito feliz”, conta a bordadeira, que ainda enviou uma tréplica ao músico.

O Versinhos de Muito-Querer foi lançado em março para vulgarizar a cultura do Vale do Jequitinhonha e, ao mesmo tempo, ajudar as comunidades da região a enfrentarem o impacto econômico da pandemia da Covid-19. “Ficamos pensando em porquê gerar uma renda rápida para essas pessoas, que ficaram isoladas em suas casas, sem poder trabalhar. Aí lembramos dos versinhos — uma tradição da cultura sítio, passada de geração em geração — e tivemos a teoria de personalizá-los”, explica Viviane Fortes, coordenadora do projeto Mulheres do Jequitinhonha, da ONG Ajenai, e uma das idealizadoras da novidade empreitada.

Nas épocas de plantio e colheita, os moradores do Vale se reúnem para trovar versos em rodas, em volta da fogueira. Já a versão do dedo é comercializada da seguinte forma: o interessado encomenda um verso por R$ 26 no site. Por e-mail, ele explica as características da pessoa que irá recebê-lo. Com base nessas informações, as mulheres do projeto gravam um verso cantado personalizado e misturam com outros tradicionais. Os áudios são enviados por WhatsApp a quem encomendou e leste os encaminha para quem quiser.

Por meio da propaganda boca-a-boca e da divulgação em redes sociais, o negócio virou um sucesso e foi preciso suspender as encomendas por dez dias em junho por motivo do excesso de demanda. “As pessoas compram os versinhos para ajudar e acabam se surpreendendo com a riqueza que recebem. Elas se emocionam”, diz Viviane. “As mulheres do Vale têm uma conexão profunda com a natureza, uma alegria e uma sabedoria que transparecem nos versos que criam.”

Desde o início do projeto, em 26 de março, mais de 2.500 versos foram enviados para pessoas de todo o Brasil e de países porquê Estados Unidos, Israel, Espanha, Alemanha, França, Portugal, Suécia, Suíça, Argentina, Chile e Uruguai. Segmento do quantia arrecadado vai para as dez mulheres que cantam os versos e o restante, para um fundo solidário talhado a famílias de sete comunidades do Jequitinhonha: Tocoiós, São João de Inferior, Curtume, Ribeirão de Areia, Poções, Alves e São João dos Marques. A partir de julho, os recursos vão para a ONG Ajenai, que desenvolve projetos sociais na região.

O pico da demanda ocorreu na idade do Dia das Mães. “Cheguei a fazer quase centena cantigas num só dia”, conta Marli, que aprendeu a jogar versos com o pai e a avó e incorporou a cantoria à sua rotina diária. “Levanto às 5h30 e quina bastante de manhã. A gente precisa estar inspirado para fazer uma cantiga formosa, que transmita alegria e bem-estar às pessoas. Aí paro, vou cuidar da morada e fazer o tingimento dos tecidos usados pelas bordadeiras. Tomo um banho, almoço e primícias tudo de novo. Tem vezes que vou até tarde da noite cantando.”

Trovar, segundo Marli, dá menos trabalho do que bordar, ofício que “exige muito tempo, muita delicadeza”. São duas tradições que estão na família há cinco gerações. “Meu tataravô, Joaquim Teodoro da Costa, veio de Portugal para o Brasil e trouxe os tecidos, os bordados e as cantorias de lá. As cantorias dos brancos se juntaram com os cantos dos escravos e viraram uma marca da nossa região.”

Entre os pedidos de versos que mais emocionaram Marli estão aqueles voltados para levar um pouco de conforto a pacientes internados com a Covid-19. “Precisa regular muito as palavras para não entristecer a pessoa. Tenho que levar ânimo para ela. Cantei para uma moça que estava no hospital por motivo do coronavírus. Ela me agradeceu, chorando de emoção. Senti porquê ela ficou feliz. Fico satisfeita porque estou ajudando as pessoas e, ao mesmo tempo, esse dinheirinho me ajuda muito também.”

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