O calendário indígena dos Kalapalo

A vida social nas aldeias Kalapalo varia de acordo com as estações do ano. Na estação seca, que se estende de maio a setembro, a comida é abundante e é tempo de realizar rituais públicos, que costumam contar com muita música e a participação de membros de outras aldeias. Na estação chuvosa, a comida torna-se escassa e a aldeia fecha-se nas relações entre as casas e os parentes. No contexto multiétnico do Parque Indígena do Xingu , os Kalapalo têm se destacado por uma participação ativa na vigilância de seus limites, evitando a invasão de fazendeiros vizinhos…

Por Loike Kalapalo

Janeiro – chove muito. Nesse mês, quem tem filho rapaz, acima de 14 anos, fica em reclusão.

Fevereiro – as pessoas que têm roças fazem cercas de paus roliços em volta da roça para as plantas não serem destruídas pelos porcos do mato. Nesse período, fica difícil a pescaria.

Março – as pessoas costumam construir as suas casas.

Abril – as pessoas que fizeram suas casas arrancam o sapé para cobri-las.

Maio – os rapazes que entraram em reclusão são soltos para começarem a preparação do “Kuarup”.

Junho – as aldeias que se juntaram com a aldeia onde será realizado o “Kuarup”, farão a entrega do polvilho.

Julho – é a época da desova do tracajá e começam os preparativos para a festa do “Kuarup”.

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Agosto – época da festa do “Kuarup”.

Setembro – início das primeiras chuvas.

Outubro – época em que as frutas do pequi começam a cair.

Novembro – época em que os rios começam a encher.

Dezembro – as pessoas das aldeias do Alto Xingu fazem vários tipos de festas.

Loike Kalapalo – Liderança Indígena, em “Geografia Indígena”, MEC/SEF/ISA, 1994.

 Histórico do contato

Foto: René Fuerst, 1955.
Foto: René Fuerst, 1955.

Algumas semelhanças entre mitos kalapalo e ye´cuana sugerem que os ancestrais dos Karib xinguanos deixaram a região das Guianas em tempos recentes, certamente depois de contatos com espanhóis, intensificados na região durante a segunda metade do século XVIII. No entanto, parece haver, do ponto de vista cultural, pouco em comum entre os Kalapalo e os povos karib setentrionais, sendo difícil distinguir qualquer característica propriamente “Karib” nos aspectos de seu modo de vida e visão de mundo.

Permanece incerto quando o grupo conhecido como Kalapalo foi contatado por estranhos pela primeira vez. Indivíduos identificados à aldeia que portava este nome foram medidos pelo antropólogo alemão Hermann Meyer durante um estudo antropométrico dos povos do Alto Xingu, realizado no final do século XIX. Em 1920, o Major Ramiro Noronha, da Comissão Rondon, realizou pesquisas na região do Rio Kuluene e fez a primeira visita registrada às aldeias dos Kalapalo, Kuikuro e Anagafïtï (Naravute, na literatura). Os últimos, particularmente, sofreriam as conseqüências dessa visita, que suscitou a primeira de uma série de epidemias que destruiu a integridade de sua comunidade.

Foto: René Fuerst, 1955.
Foto: René Fuerst, 1955.

O nome Kalapalo, inicialmente atribuído ao grupo por não-índios, tem como referência uma aldeia com esse nome abandonada provavelmente há menos de cem anos. Naquele tempo, pessoas mudaram de Kalapalo para um sítio vizinho chamado Kwapïgï, que, por sua vez, foi sucedido pela aldeia Kanugijafïtï, abandonada em 1961. Todos esses sítios estão localizados a cerca de meio dia de caminhada na direção leste do Kuluene, ao sul da confluência com o Rio Tanguro. Os últimos remanescentes de um grupo Karib importante, chamado Anagafïtï, juntaram-se aos habitantes de Kanugijafïtï depois da epidemia de gripe na década de 1940 e, naquele momento, havia Kuikuro, Mehinako, Kamayurá e Waujá vivendo entre os Kalapalo.

O que chamamos hoje de “Kalapalo” é, então, uma comunidade composta de uma gente cujos ancestrais foram associados a diferentes comunidades, com uma maioria oriunda ou descendente de pessoas que viveram em Kanugijafïtï.

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 Localização

Habitação na aldeia Aiha. Foto: Beto Ricardo, 2002.
Habitação na aldeia Aiha. Foto: Beto Ricardo, 2002.

Atualmente, os Kalapalo vivem em oito aldeias Aiha (que significa algo “acabado”, “pronto”), Tanguro, Agata, Caramujo, Kunue, Lago Azul e Kaluane todas no Rio Kuluene e seus afluentes e na aldeia Tupeku, no limite sudeste do Parque. Além dessas aldeias, alguns Kalapalo vivem na Coordenação Técnica Local Kuluene da Funai (CTL). O CTL Tanguro localiza-se nas margens do rio de mesmo nome, no limite do Parque, e o PIV Kuluene nas margens desse rio, também no limite.

 População

Kalapalo paramentado para o Egitsu (Kwarup). Foto: Beto Ricardo, 2002.
Kalapalo paramentado para o Egitsu (Kwarup). Foto: Beto Ricardo, 2002.

Devido a surtos de sarampo e gripe ao longo do século XX, a população dos Kalapalo diminuiu significativamente, começando a se recompor novamente só na década de 1970. Se em 1968 sua população era de 110 pessoas vivendo em seis casas, em 1982, esta havia crescido para 185 pessoas vivendo em 13 casas. Em 1999, a população das aldeias kalapalos foi estimada em aproximadamente 362 pessoas e, em 2002, esse número chegou a 417, segundo dados da Unifesp (universidade Federal de São Paulo).

A atual população kalapalo inclui descendentes de um grupo Karib importante, chamado Anagahïtï, que se uniram a eles depois de uma epidemia de gripe ocorrida na década de 1940. Também vivem nas aldeias pessoas das etnias Kuikuro, Matipu, Nahukuá, Mehinako, Kamayurá e Waurá, em razão de casamentos.

Estas e mais informações sobre os Kalapalo, você encontra no https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kalapalo

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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