O Cururu

Por Jorge de Lima (in memoriam)

“O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um de seus cantores.”

Tudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semi-escuridão. Engoliu um mosquito; baixou a cabeçorra; tragou um cascudinho; mergulhou de novo, e bum-bum! Soou uma nota soturna do concerto interrompido.

Em poucos instantes, o barreiro ficou sonoro, como um convento de frades. Vozes roucas, foi-não-foi, tãs-tãs, bum-buns, choros, esguelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de sapos, respondeiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. (…)

Daí a pouco, da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes, como dois vagalumes. Um sapo cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os dois olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes aproximavam-se mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado.

Sem dúvida queria fugir; previa o perigo, porque emudecera; mas já não podia andar, imobilizado; os olhos feiíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo.

A boca fina do réptil arreganhou-se desmesuradamente; envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil entregando-se à morte tentadora, apenas agitando as patas sem provocar nenhuma reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E, num minuto, as perninhas do cururu lá se foram, ainda vivas, para as entranhas famélicas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um de seus cantores.

Arte encontrada no Twitter

Biografia de Jorge de Lima

Jorge de Lima (1895-1953) foi um poeta brasileiro. Fez parte do Segundo Tempo Modernista. É autor de vasta obra poética, que oscila entre o formalismo, o misticismo, as recordações da infância e a figura do negro.

Jorge de Lima (1895-1953) nasceu em União dos Palmares, Alagoas, no dia 23 de abril de 1895. Filho de senhor de engenho, mudou-se para Maceió, em 1902. Estudou no Colégio Diocesano de Alagoas. Com apenas 17 anos, escreveu o poema “Acendedor de Lampiões”. Estudou Medicina no Rio de Janeiro. Em 1914 publicou “XIV Versos Alexandrinos”, que foi sua estreia no mundo literário. Em 1919, retornou a Maceió, onde exerceu a profissão e dedicou-se à política.

A carreira poética de Jorge de Lima foi múltipla, iniciou-se no Movimento Parnasiano, e no final da década de 20 acercou-se de técnicas do Modernismo, em especial do verso livre. Reuniu as várias fases em seu poema, a epopeia barroco-surrealista “Invenção de Orfeu”.

Jorge de Lima sintonizava-se com as proposições “regionalistas” de alguns intelectuais nordestinos, chefiados por Gilberto Freyre, daí a fase nordestina do poeta, caracterizada por uma produção literária focada na realidade existencial, cultural e histórica do povo do Nordeste. A valorização do misticismo nordestino o aproximou do catolicismo. Publica a biografia “Anchieta”, “O Anjo” e “Tempos de Eternidade”. O autor explora também a cultura negra, em seus ritos e costumes.

Jorge Matheos de Lima faleceu no Rio de Janeiro, no dia 15 de novembro de 1953.

Obras de Jorge de Lima

XIV Alexandrinos, poesia, 1914
O Mundo do Menino Impossível, poesia, 1925
Poemas, 1927
Novos Poemas, 1927
Salomão e as Mulheres, romance, 1927
Poemas Escolhidos, 1932
O Anjo, romance, 1934
Calunga, romance, 1935
Tempo e Eternidade, 1935 (em colaboração com Murilo Mendes)
Quatro Poemas Negros, 1937
A Túnica Inconsútil, poesia, 1938
A Mulher Obscura, romance, 1939
Poemas Negros, 1947
Livro de Sonetos, 1949
Guerra Dentro do Beco, romance, 1950
A Filha da Mãe D’Água, teatro
As Mãos, teatro
Ulisses, teatro
Os Retirantes, cinema
Obra Poética, 1950
Invenção de Orfeu, 1952

Fonte da Biografia de Jorge de Lima https://www.ebiografia.com/jorge_de_lima/

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