A sociolinguística justificará

Começamos desde a linguagem.

Para o estudo puro e simples da nossa:

eu era um verbo intransitivo,

autossuficiente, sucinto,

elegantemente fiel ao conselho

que carregava em mim mesmo

e à mensagem que aos outros eu passava;

você era um adjunto adverbial,

uma informação inútil,

mas doravante interessante.

Tragicamente, quase…

De Camões: “E eu morri de amores”.

De repente, uma reviravolta cruel

destrói e refaz a sintagmática, fantástica,

relação entre nós; e em novas orações:

eu era sujeito de uma oração sem o mesmo,

desusado, mal usado, e em nada só;

você era sujeito simples,

despretensiosa, inocente;

qual primeiro amor (de hoje) e também só.

De Drummond, era como quase…

“Eu chovia, mas você sorria”.

Feita a hemodiálise sintática

do que passava em meu metafórico sangue,

usei-me de todos possíveis instrumentos

linguísticos (ou mesmo não!)

para transformar o que éramos,

o que quer fosse que fôssemos,

primeira pessoa do plural

do pronome oblíquo do caso reto.

Mas nós não éramos senão estranhos um para o outro.

Eu, tu, e, depois, chegou ele.

Um aposto absurdo, intruso.

Vestido em seus finos parênteses,

ostentando o seu inútil e desdenhado sorriso

de mais que perfeito do subjuntivo.

Mas o escritor sou eu e digo que aposto é obsoleto,

ainda que para um leitor não seja.

E digo que Capitu traiu Bentinho, ainda que não.

Até porque se Bentinho se sentiu traído,

Capitu se desfez da moral função de par

em se fazer parecer fiel, e falhou:

tal qual traição. Interjeição, Machado!

Os olhos de ressaca dela parecem até os seus.

…E de pensar que eu aceitaria

até que você fosse para mim uma coordenada.

Ou uma adverbial adversativa. Mas, não…

Se toda competência comunicativa me serve para algo,

servirá para alterar o tempo desse verão.

Não mais pretérito imperfeito do subjuntivo,

mas futuro do presente do indicativo, e “será”.

Será a semântica minha e eu também, para você, serei.

E o que estiver errado, esteja a gramática ao lado,

para nos preservar, proteger, reservar, assegurar,

ou a sociolinguística justificará.

Reinaldo Bueno Filho


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