B. Kucinski e Pedro Tierra: duas versões de uma mesma devastação

A poesia enquanto doação impossível das palavras que não se tem para dar está colocada de modo dramático na “Explicação necessária” existente na abertura da edição de 2010 de Poemas do povo da noite, da Editora Fundação Perseu Abramo, comemorativa dos 30 anos da anistia…

Por Alberto Pucheu/via Cult

Nela, há uma página inteira em que Pedro Tierra conta a proveniência do poema “Tempo subterrâneo” no impulso que se deu, em 1975, no Presídio do Barro Branco, a partir de um encontro com Mayer Kucinski, pai de Ana Rosa Kucinski, igualmente militante da ALN, desaparecida. Ressaltando que “a expressão ‘diálogo’ é pálida e insuficiente para dar conta daquele contato entre dois desconhecidos”, salienta, a modo de preâmbulo, que “nunca tivera diante de mim, como naquela tarde, o corpo devastado de um ancião sustentado por dois olhos – duas chamas – que eram a encarnação do desespero. Alguma razão, não atino qual, nos levou ao pátio onde nos sentamos”. Depois de, ininterruptamente, lhe narrar “seus dias e noites de tormentos”, Mayer Kucinski lhe pede qualquer informação sobre a filha. Eis, então, o desfecho momentâneo do relato de Pedro Tierra:

Mayer Kucinski buscava Ana Rosa, sua filha. Desejava, para seguir vivendo, ver o rosto de Ana Rosa. Varava meus olhos com o cravo dos seus e me pedia, patético – a mim, que àquela altura cumpria já o terceiro ano de prisão – uma palavra, ainda que fosse a notícia de sua morte. Eu não tinha nenhuma palavra para lhe dar.

Diante do momento dramático de não ter qualquer palavra para dar a quem, sofrendo do desaparecimento forçado de sua filha, lhe a demandava, buscando a confirmação, ainda que fosse, da morte de Ana Rosa, ou seja, diante desse recuo das palavras a expor a força trágica dos dois caminhos que ali os juntaram – o caminho de um preso político e o de um pai cuja filha, pertencente à mesma organização política de seu interlocutor, poderia estar morta, sem conseguir, entretanto, essa confirmação –, diante, portanto, desse recuo das palavras e a partir da intensidade desse recuo, imediatamente em seguida, o relato traz versos do poema “Tempo subterrâneo”, mostrando que tais versos são exatamente a doação impossível das palavras que não se tem para dar:

Há uma hora em que todas as bocas se fecham.
Há uma hora em que a memória nega.
Há uma hora em que a noite desce
como a mordaça definitiva.

Enquanto a poesia poderia ser definida como a aporia da doação impossível das palavras que não se tem para dar, tais versos provêm da sétima parte do referido poema, da qual extrairia um fragmento bem maior que explicita tratar de Ana Rosa, com o pai, em sua tragicidade, recriado em personagem dramatizado que, em tal momento, fala:

[…] Eu quis apenas ver o rosto de Ana Rosa.

Horas,
…………..dias,
………………..anos enterrados,
mastiguei o gosto da tragédia.
Eu quis a marca no muro,
………………………………um sinal.
Bati todas as portas.
Portas de silêncio,
surdas portas
sem rosto.

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Gritei por uma palavra qualquer.

Portas sem gesto,
sem palavra,
sem resposta.

Eu pedi a resposta mais amarga.

Portas como a pedra
do túmulo jamais
encontrado:
……….eu pedi a morte de Ana Rosa.

Há uma hora em que todas as bocas se fecham.
Há uma hora em que a memória nega.
Há uma hora em que a noite desce
como a mordaça definitiva.

E recomeço como o sol
a eterna tarefa
de encontrar a noite.

E repiso a marca
dos meus passos
no rosto da lama.

Dei minha cabeça ao coração da terra,
à maneira das crianças perdidas:
como a Gestapo, devolvessem o corpo.
Negaram-me a vida.
Negaram-me a morte.
Negaram-me a derradeira forma de esperança.

[…]

Visitei os sobreviventes.
Tinham as mãos atadas,
a boca cheia de promessas,
onde o rosto de Ana Rosa?,
…………..…………..………Nada.

Há uma hora em que todas as bocas se fecham.
Há uma hora em que a memória nega.
Há uma hora em que a noite desce
como a mordaça definitiva.
E recomeço como o sol
a eterna tarefa
de encontrar a noite…

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GOLPEIO A MEMÓRIA DA TERRA.
RECOLHO O SANGUE DOS ESQUECIDOS.
COM CRAVOS ESCUROS MARTELO
A MARGEM DA LEMBRANÇA
NOS OLHOS VAZADOS DE AMÉRICA.

No capítulo “No Barro Branco”, de K.: relato de uma busca, B. Kucinski retoma a cena que foi exposta na “Explicação necessária” de Pedro Tierra, sem levar em conta, entretanto, a passagem do poema “Tempo subterrâneo”, que dramatiza a voz de Mayer Kucinski. O igualmente comovente relato poético, em que cada capítulo parece um conto fragmentariamente interligado aos outros, nos é trazido pelo narrador desde a ótica de K., personagem que incorpora a potencialidade da história do pai do escritor em busca de sua filha Ana Rosa Kucinski, irmã do prosador, desaparecida pela ditadura militar. No contato entre “os dois desconhecidos”, Kucinski cita exatamente a frase em que o poeta afirma que nunca tivera diante de si “o corpo devastado de um ancião sustentado por dois olhos – duas chamas – que eram a encarnação do desespero”. Desdobrada pela “encarnação do desespero” de Mayer Kucinski, tal devastação, como salientada por Pedro Tierra, atravessa o livro de B. Kucinski desde suas primeiras páginas para compor o pai-personagem:

O velho sentiu-se esmagado. O corpo fraco, vazio, como se fosse desabar. A mente em estupor. De repente, tudo perdia sentido. Um fato único impunha-se, cancelando o que dele não fosse parte; fazendo tudo o mais obsoleto. O fato concreto de sua filha querida estar sumida há onze dias, talvez mais. Sentiu-se muito só.

O que no poeta é chamado de “devastação” e “encarnação do desespero”, em Kucinski ganha, já nas primeiras páginas da novela, quando Ana Rosa está desaparecida há pelo menos 11 dias, as designações de esmagamento, fraqueza, esvaziamento, desabamento, estupor, perda de sentido, solidão… Conforme o tempo vai passando e a narrativa seguindo, o vocabulário se estende na mesma direção para designar o pai (alheio a tudo que não seja o desaparecimento de sua filha) e, consequentemente, direcionar o texto: drama, amargura, destroçamento, cansaço, derrubamento, destempero, desgraça, arrefecimento, exaustão, desânimo, alquebramento… A ida de Mayer Kucinski ao presídio do Barro Branco ocorre catorze meses após o desaparecimento da filha, apenas no penúltimo capítulo do livro – o último é uma carta ficcional do personagem Rodriguez, membro, tal qual Pedro Tierra e Ana Rosa Kucinski, da Ação Libertadora Nacional, ao comandante de então da respectiva organização de luta armada, exilado no momento em Paris, Carlos Eugênio Paz, cujo codinome era Clemente, grafado em tal mensagem do livro como Klemente.

Dos 11 dias da primeira caracterização aos 14 meses passados do acontecimento traumático, pode-se imaginar os efeitos consecutivos da devastação na personalidade do pai e o consequente estado em que se encontra ao chegar ao Presídio do Barro Branco com, cito mais uma vez, “o corpo devastado de um ancião sustentado por dois olhos – duas chamas – que eram a encarnação do desespero”, tal escrito pelo poeta e citado pelo relator ou novelista. E mais: quanto mais avança em direção à área semi-isolada dos presos políticos, mais sua memória recobra os tempos passados em que estivera preso, acorrentado e humilhado, enquanto judeu, na Polônia antes do nazismo.

Foi na prisão polonesa que aprendera a importância, para os presos, dos cigarros e dos chocolates que, agora, adentrando o presídio paulista, cansado, tonto e fraquejando, carrega debaixo dos braços juntando o começo e o fim de sua vida, em que “o fim toca[ndo] o início e no meio nada, cinquenta anos de nada”. Identificando os duros semblantes dos presos políticos com o seu olhar de 50 anos atrás, identificando-se, portanto, com os presos políticos, com uma cadeira à frente deles, K. lhes conta, mais uma vez entre inúmeras outras, em busca de qualquer informação, sua história insuportável de busca pela filha desaparecida. É nesse momento que Hamilton Pereira/Pedro Tierra é mencionado e citado pelo texto de Kucinski:

Os presos ouviam em silêncio, de olhos fixos no rosto afogueado de K., como que hipnotizados pelas órbitas intumescidas de seus olhos vermelhos e úmidos. Muitos nunca mais esqueceriam aquele momento. O sofrimento do velho os impressionava. Um deles, Hamilton Pereira, descreveria décadas depois ‘o corpo devastado de um ancião, sustentado por dois olhos – duas chamas – que eram a encarnação do desespero’. Alguns conheceram sua filha e o marido, eram da mesma organização clandestina; todos conheciam a história, inclusive quem os havia delatado. Sabiam que já estava morta havia muito tempo.

De repente, K. começou a soluçar. Os presos mantiveram silêncio. Os olhos de alguns deles se umedeceram. K. curvou o dorso para a frente e levou as mãos ao rosto. Não conseguia estancar os soluços. Não tinha força para nada. Sentia-se muito cansado. Então se curvou um pouco mais e tentou distribuir os pacotes de cigarros, as barras de chocolates, que estavam no chão, talvez para dissipar o choro.

Nesse momento ele caiu.

Lembro que depois das epígrafes e antes de o texto propriamente dito começar, há, em K., uma nota ao leitor em que o escritor afirma que “Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”. Nesse encontro intertextual e vital entre Pedro Tierra e B. Kucinski, explicações, poemas, relatos, novelas, contos, notas e modos de escrita em que as fronteiras entre eles se desguarnecem, aos quais, no caso, ainda poderiam ser acrescentados monólogos, diálogos, epístolas, documentos, entrevistas e palestras, são necessários enquanto “invenção” justamente para conseguir lidar com o “quase tudo [que] aconteceu”. Trata-se aqui de escritas feitas desde o acontecimento, desde a vida e desde a história, por aqueles, politicamente vencidos, cujas forças de verdade se colocam para destituir a verdade dos vencedores, levando a poesia e a literatura a realizarem uma intervenção contra-hegemônica ao criarem uma disjunção no tempo.

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Seja na vida dita real seja na escrita, que, com suas invenções, compõe igualmente o real da vida, a devastação da vida de K. ou da vida de Mayer Kucinski se dá em decorrência da devastação de um país. A devastação de K. é, em um grau não menos desolador – pois diz respeito a centenas ou mesmo milhares de Anas Rosas singulares e milhares ou mesmo dezenas de milhares de Mayers (K.) Kucinskis igualmente singulares –, a devastação do Brasil.

 

Alberto Pucheu é poeta e professor de Teoria Literária na UFRJ. Publicou, entre outros, de Que porra é essa – poesia?, A fronteira desguarnecida e Para que poetas em tempos de terrorismo?

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