Meu canto não grita terra à vista.

Arranhada na lâmina das incertezas, a garganta não afina. Meu canto não grita terra à vista. É saveiro nas mãos de um vento sujo de esperanças, navegando a lama tóxica das minas que ferem o corpo da minha terra, onde se escondem animais devoradores de alegrias. O magma das palavras engavetadas escorre lento, incinerando de saudade a gema da alma. Lava. Escorre pela carne queimada das lembranças. No andar amiudado dos dias, o percurso cambaleante das horas, onde o minuto se demora nos avessos. Ampulheta de vivências. Poente do alumbramento. Quisera achar nome para esse vendaval… Acordo num tempo agalopado, onde martelam lembranças em águas turvas de sangue e cal. Na Calunga do meu cantar, o encontro de todos os rios. Aguadeiro das incandescências dessa estrada, nosso futuro na boca do sumidouro. Todo lugar é poço. Não estamos na beira do cais. Nem vejo ponta de areia. Ponto final.

in “Janela Enluarada” de

Fernanda de Paula

com ilustrações de

Letícia De Paula

Editora

Carpe Librum Editora

 

Salve! Este site é mantido com a venda de nossas camisetas. É também com a venda de camisetas que apoiamos a luta do Comitê Chico Mendes, no Acre, e a do povo indígena Krenak, em Minas Gerais. Ao comprar uma delas, você fortalece um veículo de comunicação independente, você investe na Resistência. Comprando duas, seu frete sai grátis para qualquer lugar do Brasil. Visite nossa Loja Solidária, ou fale conosco via WhatsApp: 61 9 9961 1193.

Comentários

%d blogueiros gostam disto: