De frente pro Crime

De frente pro Crime

Por Marcos Jorge Dias

“tá lá o corpo estendido no chão”

Em vez de reza, uma praga de alguém

E um silêncio servindo de amém”

O refrão da música “De frente pro crime” (do compositor João Bosco), foi o que me veio à mente quando vi a estátua do Chico Mendes caída. Derrubada no meio fio de uma calçada descuidada, aos pés de uma palheira, entre duas árvores, na praça dos povos da floresta. 

Os iconoclastas de plantão dizem que é só uma imagem, uma estátua, símbolo dos adoradores da floresta e de seus heróis. Ainda que lancem sobres as costas de “vândalos” anônimos a culpa pelo crime contra um patrimônio histórico dos acreanos, o poder público se cala e não age na identificação dos responsáveis, tampouco usa de presteza em reerguer a estátua do patrono do meio ambiente do Brasil. 

O Meio ambiente do Brasil é encharcado de sangue. Sangue do povos originários, que até hoje segue sendo derramado pela ganância da prata e do ouro que povoa o imaginário cruel dos assassinos. 

No Acre, etnias inteiras foram dizimadas durante as “correrias” no tempo da abertura dos seringais. Com o fim do apogeu da borracha, na abertura dos pastos para a pecuária mataram, em Brasileia, Wilson Pinheiro; em Xapuri, Ivair Higino e Chico Mendes.

No Nordeste, Margarida Alves, defensora dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores agrários e que lutou contra a violência no campo, pelo fim da exploração dos camponeses e pela reforma agrária, foi assassinada por ordem de latifundiários da região. Contudo, sua voz ainda eco nos rincões de todas as resistências na célebre frase: Porque entendo que é melhor morrer na luta do que morrer de fome”. 

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No Pará, a missionária americana Dorothy Stang, que sempre agiu na defesa dos trabalhadores rurais sem terra no estado, foi assassinada em 2005, no município de Anapu. 

No Amazonas, mais recentemente, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, foram brutalmente assassinados por criminosos que pela ausência do poder público e o isolamento da região, acreditavam na impunidade.

Para os criminosos não basta matar. É preciso BRUTALIZAR, esquartejar, tornar o crime assustador. Numa estratégia de causar medo e terror aos que teimam em resistir e lutar contra a ideologia de extrema direita que, qual uma serpente, sinuosamente se instala no Acre e no Brasil. Uma estratégia usada pelos torturadores da ditadura, tão exaltada por governantes atuais.

Derrubar a estátua do Chico Mendes na capital do estado da extinta florestania é uma estratégia que vem se consolidando com o apagamento na memória do povo acreano das obras e realizações dos governos passados;  mudar o nome da Via Chico Mendes para o nome de outra autoridade já falecida – ainda que cara aos corações acreanos –  pintar os portais do parque da maternidade, a fachada dos órgãos públicos e faixas de pedestres da cor do partido que está no poder é um método de apagamento da história, já usado por governos totalitaristas. 

O chamado processo de “rondonização”, que está acontecendo no Acre é sinal de que a premonição da Cia. Mangará, um grupo de artistas viajantes que por aqui passou, está se tornando realidade; “o Acre vai virar pasto de boi”. Um claro exemplo é a notícia publicada pelas jornalistas Alice Nascimento e Sâmia Roberta, no site do G1 AC e rede amazônica, que dão conta que o grileiro “Tato”, condenado pelo assassinato de Dorothy Stang, está se apossando de terras públicas na região do município de Sena Madureira.

O silêncio dos que deveriam cuidar do patrimônio histórico e a falta de ação dos órgãos de fiscalização do meio ambiente nos levam a pensar que não será reza nem velas acessas que irão impedir que tenhamos a volta dos conflitos agrários no estado, inclusive com muitos corpos, a exemplo do Chico Mendes,  estendidos no chão.  

Fotos: Marcos Jorge Dias

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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