Golpe à vista

Por Luiz Antônio Carvalho

Poderia ser atribuída ao general Heleno, que abandonou a quarentena  e já combate no Planalto, a figura de linguagem usada por um militar anônimo ao Estadão: “se alguém leva um tiro na perna em uma guerra, não pode ficar deitado esperando ser atendido para tirar a bala, precisa continuar atacando, reagindo, para garantir sua sobrevivência”. Essa imagem reflete o pensamento de ao menos dez oficiais ouvidos por aquele jornal: temerosos do caos social, apoiam a posição trumpista de relativização da vida em favor do laissez-faire economico. Suas ressalvas a Bolsonaro, por hora,  limitam-se ao seu modo de agir errático e emocionalmente desequilibrado. Podem, mesmo assim, encerrar de vez nosso último respiro democrático usando uma carta tipo Mourão.

Um desenlace favorável à centro-direita nessa pororoca golpista depende entretanto de um movimento difícil para esse bloco: aceitar a extemporaneidade do fundamentalismo de mercado. Os milicos estão certos em temer a explosão social derivada do prolongado confinamento de milhões de brasileiros a moradias indecentes,  onde já faltava tudo,  sem qualquer perspectiva de emprego e renda. Gotardo, secretario executivo do Ministérios da Saúde, é pouco. Alguém como seu antigo chefe, José Serra, teria de liderar esse Centro redivivo para as especificidades econômicas dessa crise épica: renda de ao menos 350 reais por membro de família sem renda, apoio a pequenos e médios empregados, garantia de emprego e renda aos trabalhadores formais…em resumo, todo empenho, mesmo que com endividamento de 10% do PIB, para impedir o empilhamento de mortos país.

Unir-se-iam em favor de um grande mutirão de saneamento, desinfecção e limpeza das cidades e suas comunidades carentes? Converteriam de indústrias e investiriam o necessário para o restaurar e dinamizar o SUS, as pesquisas…Propostas claras que pudessem desqualificar o cínico lema trumpista de que só o mercado salva e atrair os militares preocupados com o futuro do país.

Vencer o golpe miliciano-bolsonarista ficaria entretanto bem mais fácil se ao invés de um estreito bloco de centro-direita tivéssemos redivivo um bloco mais amplo de salvação nacional do miliciano-bolsonarismo como o que uniu pelas diretas o MDB de Ulisses e Montoro, o PDT de Brizola, o PT de Lula…

Doria não é Montoro, Rodrigo Garcia não é Claudio Lembo, Witzel está a anos luz de Brizola. É o que temos. Como evitar que um bloco anti-petista não saia vencedor na pororoca golpista em curso, e mantenha o país numa dinâmica perversa de estagnação e aprofundamento das desigualdades? Uma frente que incluísse os ex-presidentes FHC e Lula abriria caminhos alternativos?  A esperança tem de vencer o medo. Trocar o miliciano-bolsonarismo pela esquisitice ultra liberal de Mourão é tudo que o país não precisa para enfrentar essa guerra, agora recrudescida, contra a doença, a pobreza e a desigualdade.

*Luiz Antonio Carvalho é jornalista, licenciado em filosofia pela Universidade de Paris X – Nanterre, não é atleta e está no grupo de risco do Coronavírus. 

 

 

Salve! Este site é mantido com a venda de nossas camisetas. É também com a venda de camisetas que apoiamos a luta do Comitê Chico Mendes, no Acre, e a do povo indígena Krenak, em Minas Gerais. Ao comprar uma delas, você fortalece um veículo de comunicação independente, você investe na Resistência. Comprando duas, seu frete sai grátis para qualquer lugar do Brasil. Visite nossa Loja Solidária, ou fale conosco via WhatsApp: 61 9 9961 1193.

 

Anúncios

Comentários