Guerra comercial entre EUA e China poderia impulsionar exportação de soja no Brasil e desmatamento na Amazônia

  • O Presidente Donald Trump está fazendo fortes pressões para uma guerra comercial com a China. Até o momento, ele impôs U$50 bilhões em tarifas aos chineses e ameaçou impor mais US$200 bilhões; os chineses estão revidando. Uma guerra comercial completa entre os EUA e a China poderia ter sérias repercussões imprevistas para a Amazônia brasileira, incluindo ampliação no desmatamento, intensificação nas pressões voltadas a grupos indígenas e agravamento nas mudanças climáticas.
  • A preocupação é de que a China substituasuas compras de commodities, incluindo gado e soja, dos EUA para o Brasil. A Amazônia e o Cerrado já são os maiores exportadores de ambas as commodities e estão gerando uma grande expansão quanto à construção de infraestrutura para trazer esses produtos ao mercado. Mesmo sem uma guerra comercial, especialistas esperam que o Brasil ultrapasse os EUA enquanto maior produtor de soja do mundo este ano.
  • As tarifas dos EUA podem estar levando a uma mudança no comércio. Em um primeiro momento, Trump ameaçou a China com tarifas em janeiro. Em abril, as vendas de soja dos EUA para a China diminuíram 70.000 toneladas métricas comparadas ao mesmo período no ano passado. Os dados também mostram um aumento no desmatamento da Amazônia brasileira entre fevereiro e abril de 2018, comparado a 2017, uma possível resposta dos produtores de soja brasileiros desejosos em lucrar a partir de uma guerra comercial
  • Se a guerra comercial entre os EUA e a China resultar em um aumento significativo na produção brasileira de commodities, os índices de desmatamento poderiam então disparar. Cientistas receiam que o desmatamento da Amazônia, hoje em 17%, poderia ser elevado a um ponto de inflexão de inflexão climática de 20-25%, transformando a floresta tropical em savana, inflando vastamente as emissões de carbono e desestabilizando potencialmente o clima regional e até mesmo global.
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Guerreiros Munduruku com pintura facial cerimonial usada para dar boas-vindas aos visitantes da aldeia. Os Munduruku se opõem de modo feroz aos planos brasileiros de construir projetos de infraestrutura de mega transportes em seu território na Amazônia. Foto: Mauricio Torres.

“Somos nós que nos importamos com a natureza”, afirma Alessandra Munduruku, jovem líder do povo Munduruku na Amazônia brasileira. “Não é alguém vindo de cima que vai nos ensinar como cuidar da floresta”. Alessandra se juntou à luta de sua comunidade por sobrevivência quando esta foi ameaçada pela inundação do projeto da megabarragem de São Luiz de Tapajós. Apesar de os planos para a barragem terem sido arquivados por enquanto, Alessandra revela que os Munduruku ainda enfrentam ameaças à sobrevivência de sua cultura e comunidade.

Uma ameaça inesperada: a algazarra do presidente Donald Trump sobre as tarifas e o comércio, que elevou o preço da soja brasileira no início deste ano. Como a região amazônica é um centro de produção de soja, o aumento de preços pode levar a um maior desmatamento. Agora, com os EUA já impondo US$ 50 bilhões em tarifas sobre a Chinaos chineses revidando na mesma moeda e Trump ameaçando cobrar mais US$ 200 bilhõesem tarifas, uma guerra comercial completa se aproxima. As repercussões de tal guerra ameaçariam os Munduruku e a Amazônia.

“O que nos afeta diretamente são a ferrovia, o canal, os portos”, diz Alessandra. “Já existem três [portos] e eles querem construir mais 20.” Ela está se referindo à nova infraestrutura de transporte e silos de grãos que pontuam as margens do Rio Tapajós, um importante afluente do rio Amazonas, e o território de origem dos Munduruku. Esses silos são preenchidos com soja sendo transportada do estado de Mato Grosso, no interior do Brasil.

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Mercado de Peixe de Santarém na Amazônia brasileira. O terminal de commodities da Cargill, através do qual grandes quantidades de soja são transportadas anualmente, aparece ao fundo. Foto: Thais Borges.

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Em 2015, uma aliança indígena lançou um protesto sem sucesso exigindo que o governo brasileiro suspendesse a construção da represa amazônica. Desde então, comunidades indígenas e tradicionais se uniram para combater a expansão da infraestrutura de transporte de commodities em toda a região. Foto: cortesia da Amazon Watch.

A expansão do agronegócio industrial, sobretudo a produção de carne bovina e soja, no Mato Grosso e em outros estados da Amazônia, está desmatando a Floresta Amazônica de modo constante. Isso, juntamente à construção de infraestrutura para apoiar a movimentação desses produtos no mercado, está aumentando a pressão sobre as comunidades indígenas e tradicionais que habitam a região. Os pesquisadores também apontam para o Cerrado, bioma vizinho e menos conhecido, como outro ponto crítico de desmatamento: ele também abriga numerosos grupos indígenas e o local de uma grande expansão no cultivo da soja e do gado no Brasil.

Embora a escalada de Trump para a guerra comercial entre os EUA e a China ainda não tenha atingido plenamente seus efeitos internacionais, pode já estar afetando negativamente as florestas brasileiras. Dados do Imazon, organização de monitoramento de florestas tropicais, mostram um aumento no desmatamento entre fevereiro e abril de 2018 em comparação com o ano passado. Esse cronograma se alinha com a primeira ameaça de tarifas do presidente contra a China feita em janeiro.

Em março, Trump anunciou oficialmente US$50 bilhões em tarifas sobre produtos chineses que chegam aos Estados Unidos.Pequim reagiu declarando US$300 bilhões em impostos sobre produtos norte-americanos destinados à China, incluindo a soja. Em 10 de maio, as vendas de soja dos EUA para a China caíram cerca de 70.000 toneladas métricas em comparação ao mesmo período do ano passado. Esta queda sugere que os compradores chineses têm procurado outros fornecedores apenas por segurança, não importando se a guerra comercial começou ou não.

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Floresta Amazônica convertida em soja. A guerra comercial entre os EUA e a China poderia levar os chineses a substituir as compras de soja dos EUA pelo Brasil, resultando em um rápido aumento na produção de soja e, consequentemente, a um maior desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Foto: Mayangdi Inzaulgarat.

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Mapa mostrando o extenso desmatamento ocorrido na parte norte do estado do Mato Grosso entre 1986 e 2016 para acomodar a produção de soja e gado. Em apenas 40 anos, o avanço do agronegócio reduziu radicalmente a cobertura florestal. A guerra comercial entre os EUA e a China pode levar à expansão da soja na Amazônia, onde foi dramaticamente desacelerada nos últimos anos pela Moratória da Soja. Mapa: Maurício Torres.

Analistas dizem que o Brasil está posicionado para substituir pelo menos parte da soja que a China normalmente compra dos EUA, enquanto o presidente Trump provoca a ira do gigante asiático. O Brasil já espera embarcar 56 milhões de toneladas de soja para a China este ano, com a Amazônia e o Cerrado fornecendo grande parte desse montante. Este ano, especialistas esperam que o Brasil supere os Estados Unidos como o maior produtor mundial de soja, crescendo 117 milhões de toneladas.

Provavelmente em preparação para um grande impulso no comércio de commodities entre o Brasil e a China, os chineses ofereceram aos brasileiros um pacote de fundos de investimento em infraestrutura de US$20 bilhões, que poderia pagar novas estradas, ferrovias e hidrovias industriais para o transporte de soja – provavelmente levando a mais desmatamento na Amazônia e a mais perturbações da vida indígena.

Especialistas podem indicar claramente o agronegócio industrial e o comércio global de soja como contribuintes para o desmatamento na Amazônia brasileira. Por exemplo, o sistema de monitoramento florestal Imazon correlaciona uma queda no desmatamento da Floresta Amazônica no ano passado a uma queda nos preços das commodities, incluindo o gado e a soja. Isso é o oposto do que está acontecendo atualmente.

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O desmatamento da Amazônia é, com frequência, um processo de várias etapas, à medida que os usos da terra mudam. O processo geralmente começa quando os grileiros de elite reivindicam florestas. O desmatamento ilegal e o desmatamento para a produção de gado geralmente vêm na sequência. Mais tarde, as pastagens antigas são convertidas em soja. Foto: Sue Branford.

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Planície desmatada na Amazônia brasileira, agora usada para criação de gado. A guerra comercial de Trump entre EUA e China poderia não apenas aumentar a produção brasileira de soja, mas também a produção de gado, uma das principais causas do desmatamento da Amazônia. Rhett A. Butler.

É importante ressaltar que o desmatamento na Amazônia poderia desencadear impactos climáticos significativos não apenas na América do Sul, mas em todo o mundo. Cientistas relataram na revista Nature Climate Change que reduzir o número de árvores nos trópicos pode afetar adversamente os padrões de chuva em outras partes do mundo. Ainda mais preocupante, os renomados pesquisadores Tom Lovejoy e Carlos Nobre advertiram em março que o desmatamento da Amazônia, atualmente em torno de 17%, se elevado a 20-25%, poderia ultrapassar um ponto de inflexão do clima que reduziria as chuvas na Amazônia e levaria à conversão de grandes áreas de floresta tropical em savana. Essa perda na capacidade da Amazônia de armazenar altas quantidades de carbono poderia aumentar drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, levando a mudança climática a níveis perigosos.

Ainda assim, Jair Schmitt, diretor do Departamento de Controle e Prevenção do Desmatamento do Brasil, acredita nas medidas de proteção atuais que visam conter o desmatamento futuro. Estes incluem o Código Florestal do país e a Moratória da Soja, um acordo voluntário obtido pelo agronegócio, ONGs ambientais lideradas pelo Greenpeace e pelo governo. “Mesmo que a demanda por produtos possa influenciar o desmatamento, é o próprio mercado que está impondo restrições ao desmatamento ilegal”, diz Schmitt.

A Moratória da Soja foi lançada em 2006 com o objetivo de impedir a disseminação de novas plantações de soja na floresta tropical e de impedir diretamente o desmatamento realizado para dar lugar à soja. Esse acordo manteve novos desmatamentos para a produção de soja abaixo de 1% na Amazônia brasileira, mas não acabou com a derrubada de árvores.

Críticos da Moratória da Soja dizem que o acordo contém grandes lacunas. Um exemplo: os ladrões de terra desmatam florestas nativas, transferem o gado para a terra e depois vendem essas pastagens para os produtores de soja, um processo de múltiplos passos que não é levado em consideração pelas regras da Moratória da Soja. O mesmo ocorre com o Código Florestal Brasileiro de 2012, que foi recentemente enfraquecido de maneira substancial por uma decisão do Supremo Tribunal Federal, de acordo com especialistas.

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A Amazônia Legal abrange todo o bioma amazônico, além de uma parte do Cerrado. A Moratória da Soja da Amazônia abrange apenas a Amazônia e nenhum dos Cerrados; portanto, não protegeria o bioma de um aumento na produção de soja trazida pela guerra comercial entre os EUA e a China. O mapa também mostra dois grandes projetos de infraestrutura, a BR-163 concluída, usada para transportar soja, e a BR-319, ainda não pavimentada. Mapa: Mauricio Torres.

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Silos de soja da Archer Daniels Midland (ADM) no estado de Mato Grosso. As empresas transnacionais de commodities, como ADM, Cargill e Bunge, provavelmente irão lucrar com os aumentos na produção brasileira de soja provocada por uma mudança no comércio com a China. Essas empresas resistiram por muito tempo a qualquer tentativa séria de desacelerar a expansão da soja no Cerrado, onde a produção de soja está experimentando uma intensificação recorde. Foto: Thaís Borges.

Embora o mundo tenha dado destaque ao desmatamento na Amazônia, essa não é a única região onde as árvores são derrubadas para a soja. O Cerrado, a vasta savana no centro-norte do Brasil, está atualmente presenciando a mudança mais rápida da nação da vegetação nativa para a soja, o algodão e o milho. Holly Gibbs, pesquisadora da cadeia de suprimentos da Universidade de Wisconsin-Madison, chama o Cerrado de “hotspot” dos novos desmatamentos.

“A soja é uma causa relativamente pequena de desmatamento na Amazônia”, diz Gibbs, com “a pecuária respondendo por 60 a 80% dos novos desmatamentos”. No entanto, porque as áreas inicialmente desmatadas para a pecuária podem ser mais tarde transformadas em campos de soja, essa história de desmatamento não é tão cortada e seca. Somando-se a essa complexidade, a soja também fornece forragem importante para a pecuária, agregando ainda mais as duas commodities. Outra complicação: se as tarifas de Trump resultassem na imposição de tarifas de retaliação chinesas à carne bovina dos EUA, os chineses poderiam aumentar as compras de carne bovina brasileira. A China e outros países asiáticos viram seu consumo e importação de carne bovina dispararem nos últimos anos – mais uma potencial má notícia para a Amazônia.

A pesquisa de Gibbs descobriu que, mesmo com a Moratória da Soja, mais de 600 fazendas de soja violaram as leis florestais do país e desmataram ilegalmente. O estudo analisou imagens de satélite da Amazônia coletadas entre 2001 e 2014 e do Cerrado entre 2001 e 2013. Além disso, apenas 115 dessas fazendas foram proibidas de vender soja devido a lacunas no acordo. A Moratória da Soja cobre apenas a parte de uma plantação onde a soja é cultivada, e não a fazenda inteira. Lacunas como esta deixam espaço de manobra que permite mais remoção de árvores, dizem os ambientalistas.

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Tráfego de caminhões na BR-163 na Amazônia no auge da colheita da soja. A pavimentação da BR-163 criou um maior acesso à floresta tropical e levou ao aumento do desmatamento que ainda está em andamento. Conservacionistas temem que os planos do Brasil de pavimentar a BR-319 na bacia do rio Madeira possam representar a próxima grande ameaça de infraestrutura de transporte para a Amazônia. Foto: cortesia da Agência Brasil.

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Um terminal de grãos da Amazônia no crepúsculo. Os interesses internacionais e brasileiros do agronegócio estão se esforçando para transformar a bacia do Tapajós e a bacia do rio Madeira em um corredor de transporte de commodities industrializado para lidar com a produção expandida de soja que sai do interior do Brasil e é enviada para a China e Europa. Foto: cortesia de Mayangdi Inzaulgarat.

Conservacionistas também alertam contra a rápida expansão da infraestrutura necessária para o envio de commodities. Novas estradas, ferrovias e hidrovias industriais causam diretamente o desmatamento da Amazônia, ao mesmo tempo em que aumentam drasticamente o acesso das florestas a ladrões de terra, madeireiros ilegais, pecuaristas, produtores de soja, operações de mineração e novos colonos.

Uma organização que está desafiando o crescimento desregulamentado do agronegócio é o Instituto SocioAmbiental (ISA), uma ONG dedicada à justiça social e ambiental. Rodrigo Junqueira, do ISA, diz que a perspectiva de uma guerra comercial entre os EUA e a China é animadora para os produtores de soja: “[Eles] estão apostando que um aumento na demanda pressionará o mercado e, portanto, quaisquer restrições [legais] serão abandonadas.”

“Se a demanda aumentar, e o Brasil se tornar um fornecedor mais importante como resultado, o cultivo de soja aumentará no Cerrado e nas partes da Amazônia que são adequadas”, sustenta Junqueira. Ele acrescenta que um aumento na demanda global de soja quase certamente produzirá “uma dinâmica territorial que levará a novos desmatamentos”.

Para Alessandra Munduruku, a expansão do agronegócio representa uma ameaça existencial ao povo Munduruku. “A luta é pela nossa terra. A luta é por um pouco de terra ”, diz ela. “Mesmo se as pessoas vierem falar [conosco] sobre o manejo florestal, o capitalismo vem ensinar você a ser ‘sustentável’. Mas o mini-capitalismo é onde o individualismo começa.” O individualismo, diz ela, com sua competitividade embutida, em última análise, levar ao fim da floresta, ao fim das culturas indígenas focadas na comunidade e ao fim dos Munduruku.

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A Amazônia brasileira continua a correr sério risco de desmatamento, apesar das proteções concedidas pelo Código Florestal do país e pela Moratória da Soja da Amazônia. A guerra comercial de Trump entre os EUA e a China parece piorar a ameaça do desmatamento, segundo analistas. Foto: Mauricio Torres.

 

ANOTE AÍ

Traduzido por Izabela Papin

Fonte: MONGABAY

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