OCUPAÇÃO: VIDA X MORTE

Ainda há pouco, a jornalista Laurenice Noleto Alves (Nonô), de Goiânia, publicou o texto que se segue em sua página no Facebook, com o seguinte comentário: “Me permita, professora Ailma, assinar junto com você?”  Nonô e Aima, nós também queremos assinar junto com vocês, na esperança de dias  mais esperançosos pra esses meninos e meninas que vão à luta em busca do sonho de um Brasil melhor para as gerações presentes e futuras.

A morte do menino Guilherme, assassinado pelo pai, neste quinze de novembro, me traz além da dor, a seguinte indagação: O que estamos fazendo pelos nossos filhos no processo educativo? Onde estamos, que não ocupamos os corações desta juventude? O que é a educação e para que serve¿ Porque um pai decide matar seu próprio filho e atirar sobre sua cabeça logo em seguida?

Sabemos que as ocupações de escolas neste momento, é a forma de resistência, de protesto que a juventude encontrou para lutar contra os governos, contra a PEC da MORTE, a PEC 55. Mas, ela é bem mais que isso. Ocupar significa tomar posse, apoderar, trabalhar, viver! Somente quem vai a uma escola ocupada pode ter noção do trabalho realizado por cada um e cada uma das pessoas e do coletivo que ali se faz.

Durante 2015, tive a oportunidade de visitar 16 escolas ocupadas em Goiás, e era surpreendente a recepção, inicialmente desconfiada, por parte dos atores ali inseridos e que não me conheciam. Mas, ao adquirir confiança, se entusiasmavam em nos relatar os procedimentos para buscar manter a unidade, a permanência e a organização.

Muitos sofreram, foram presos, perseguidos, maltratados pelos pais e até por professores. Mas, bravamente resistiram e vários, foram para universidade e continuam em luta contra a privatização do ensino.

André Tokarski, líder nacional da juventude, nos contava ano passado,sobre um dos relatos das ocupações em São Paulo. Dizia que, no segundo dia de ocupação de uma escola, a mãe apreensiva e bastante irritada chegou ao portão aos gritos para buscar o filho, Pedro (nome fictício). Gritava: Chama o Pedro! Eu não vou deixar meu filho nessa ocupação!! Eu não admito filho meu nessa bagunça! E a jovem, que cuidava do portão, perguntou à mãe: Qual o sobrenome do seu filho? Qual Pedro? E a mãe respondeu é Pedro Guilherme!!  A menina gentilmente olhou na planilha e disse: Olha, hoje, é dia do Pedro Guilherme lavar os banheiros. Ele tá cumprindo esta tarefa agora. A mãe chocada, esbravejou: O Pedro Guilherme! O Pedro, está lavando banheiros?! Meu filho lavando banheiro? E a menina com a prancheta na mão, respondeu: Sim. Ele tá no terceiro banheiro. A mãe: Meu filho nunca lavou banheiro. Você tem certeza que é o Pedro Guilherme¿ Sim, respondeu a menina. Então deixa meu filho aí!! Deixa que isso é muito importante pra ele.

Esse relato parece não significar nada. Mas, só na cabeça de quem vive a ocupação, que trabalha na ocupação e das famílias que participam da luta coletiva, é que sabe, e vê os resultados no processo de formação dessa moçada. Há pais que se inserem e dão grandes contribuições para a escola, passando a formar melhor seus filhos em uma educação humana e de exercício de cidadania.

As ocupações fazem a luta da resistência contra o golpe, contra o fascismo, contra o autoritarismo, contra os que se apropriam da liberdade da juventude de lutar, de resistir, de sonhar e, de reinventar um outro modelo de sociedade.

Eu vi o Guilherme em diversos atos em defesa da Educação, em defesa do transporte coletivo, Contra as O.S.s. Eu acompanhei as postagens dele. E, uma das postagens, para mim, bastante significativa, não era contra o governo, ou sobre a luta específica.

Guilherme postou uma foto de quando era criança brincando, e compartilhou uma nota. Era sobre o Direito dos Meninos. O direito às diferenças, o direito de dançar, de chorar, o direito de amar. O direito de se Humanizar.

O pai do Guilherme deveria ter ido às ocupações. Deveria conhecer os amigos, as intenções, deveria ter vivido, e, deveria principalmente tê-lo deixado viver.

Ailma Maria – Professora

guilherme-irish-presente

Observação: Em Goiânia, no dia 15 de novembro, um pai matou seu filho único, estudante de matemática na Universidade Federal de Goiás (UFG)  e depois se matou. A causa? O menino participava da ocupação de sua Universidade contra a PEC 55 e a perda de direitos no Brasil. Em nota, a UJS declara: Guilherme Irish foi mais uma vítima da crescente onda fascista alimentada e alienada pela propaganda odiosa da mídia golpista, que coloca pais contra filhos e assim como na ditadura, se posiciona contra os estudante. Não iremos nos esquecer. #GuilhermeIrishPRESENTE . A foto de capa desta matéria é também a foto postada em memória de Guilherme na capa da página página no Facebook. Paz e Bem.

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Xapuri

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