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O caso Mari Ferrer e a meritocracia do estupro

Um deputado diz a outra deputada que só não a estupra porque ela não merece. Quatro anos depois, ele é eleito presidente do país…

Por Lian Tai

Uma jovem é estuprada inconsciente, com indícios de que teria recebido um “boa noite Cinderela”. Dois anos depois, o estuprador é absolvido do crime doloso (“estuprou sem querer”), e a vítima é humilhada em julgamento: sua vida e sua imagem são expostas para um juiz, um promotor e um advogado, todos homens, segundo os quais, aparentemente, ela merecia ser estuprada.

O estupro tratado como questão de mérito em uma falsa argumentação lógica: se a mulher é desejável, é ela quem provoca o desejo do homem, que, portanto, pode assediá-la ou mesmo estuprá-la. Tal falácia mascara a real lógica do estupro: não é sobre desejo, é sobre poder.

E será preciso repetir mil vezes: não é sobre desejo, é sobre poder.

E é sobre o poder do homem sobre a mulher, cujo corpo será sempre um corpo-objeto à mercê do estupro. Sobre as mulheres estupradas recaem a culpa, a desconfiança e a imposição do silêncio. Este, quando quebrado, acaba por expor a vítima em praça pública. A vítima, não o estuprador. É ela quem será analisada e julgada segundo os critérios do mérito do estupro. E, não se enganem, para merecer, basta ser mulher. Vocês se lembram do caso da menina que engravidou aos dez anos de idade, após ser sistematicamente estuprada pelo tio durante anos? “Pessoas de bem” foram pra porta do hospital protestar contra o aborto legal e a atacaram de várias formas, dizendo que ela “gostava de dar” e coisas do tipo. Nem as crianças escapam do “mérito”.

A escritora francesa Virginie Despentes é assertiva ao declarar que o estupro não é uma contravenção na nossa sociedade: o estupro é o próprio modelo e metáfora do Capitalismo. Não é, também, o Capitalismo, um sistema em que uns têm poder sobre os corpos de outros? Pelo estupro, aquele que detém o poder afirma sua vontade e deixa claro ao outro, ou melhor, à outra, que ela não é soberana e não tem direito sobre o próprio corpo. Lembrando que o Capitalismo se estruturou sobre a escravidão, o colonialismo e o trabalho não remunerado das mulheres, este tendo sido ignorado até por Marx e resgatado agora por pensadoras contemporâneas como Silvia Federici.

Não à toa, quanto mais rico e mais branco, mais inocentado o estuprador é. Afinal, lhe é dado o direito de subjugar outros corpos. Quanto mais preta e mais pobre, mais merecedora da violência, segundo a cultura do estupro em que estamos inseridos.

O que é assustador é que o caso de Mari Ferrer só se tornou conhecido por ela ocupar minimamente uma posição de privilégio, sendo branca, de classe média e influenciadora digital. O que não impediu, entretanto, que o estuprador (este sim privilegiado) fosse inocentado, em um julgamento assustadoramente violento e misógino.

Cabe-nos a todas e todos pressionarmos para que este caso não fique por isso mesmo, em nome de todas as mulheres que são silenciadas. É nossa responsabilidade moral somarmos nossas vozes à de Mari Ferrer. E é nossa responsabilidade moral, sobretudo, nunca mais elegermos figuras misóginas, que façam apologia ou normalizem o estupro.

Precisamos reafirmar todos os dias que nós, mulheres, temos o direito de existir. Precisamos ocupar espaços e falar em alto e bom som que não mais seremos violadas, seja em nossos direitos, seja em nossos corpos. Precisamos votar em mulheres. E precisamos, de uma vez por todas, entender sobre quantos estupros nossa sociedade foi constituída, para, quem sabe, acabar com a cultura do estupro de uma vez por todas.

Lian Tai – Poeta. Atriz. Modelo.

 

 

 

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