Sobre a mulher e o biquíni: o exercício da cidadania em tempos de trevas

 Janaína Diniz

Meu lugar de fala é de uma filha do biquíni. É que eu fui uma barriga grávida exposta na praia, quando a barriga grávida era escondida porque era sinônimo do pecado e não devia ser vista. A barriga grávida no biquíni fazia lembrar o ato sexual que deu origem àquela barriga, que vem a ser o ato que gera a vida. Enfim, incongruências.

O fato é que a moral exigia das mulheres dessa época o impossível: disfarçar uma barriga indisfarçável. Enfim, 47 anos se passaram desde que eu circulei numa barriga, num biquíni que escandalizou um país moralista, de uma moral ditada pela ditadura militar.

Andando bem mais pra trás, as mulheres desobedientes, as que não se curvavam ao papel determinado pra elas, que pensavam diferente, eram executadas, como exemplo de punição. O feminicídio se dava batizado como “caça às bruxas”. Eram queimadas na fogueira as que pensassem diferente do que deveriam pensar.

Pra que a humanidade se libertasse disso, sutiãs foram queimados, pílulas anticoncepcionais foram liberadas, as mulheres conquistaram o direito de trabalhar fora, sendo que o trabalho de casa ainda hoje é exigido da mulher. Conquistaram o direito ao voto. Olha só, houve um tempo em que não se podia votar, e as barrigas grávidas se tornaram símbolo da vida, motivo de orgulho.

Mas eis que os retrógrados saíram dos seus armários – onde provavelmente sempre permaneceram –, quiçá envergonhados da sua moral castradora. Talvez, envergonhados por algumas décadas. Diante da primeira oportunidade retomaram seu orgulho e ditaram as regras pra vida alheia. Encontraram como porta-voz um suposto mito que está mais para uma de nossas lendas: a “mula sem cabeça”.

Um representante de baixa capacidade intelectual, mas que vende o discurso dessa falsa moral e em troca disso muita gente anda fingindo que acha graça, aceitando a destruição de tudo, normalizando a violência, e graças a acharem graça disso, nós andamos de marcha a ré na velocidade da luz.

Em menos de um ano recuamos em décadas de conquistas, em séculos de evolução, no respeito um ao outro. Se hoje toda nudez vem sendo castigada, se as nossas maravilhosas bruxas icônicas são queimadas como são nossas florestas e nossos povos originários, estão queimando nossos direitos, nosso Estado laico.

Se queimam a nossa justiça, se queimam a nossa Constituição, se a gente é castigado nu ou vestido por não seguir uma determinada doutrina – por não reproduzir o que nos ditam os atuais ditadores –, se tentam calar a nossa voz, se censuram a nossa arte, o fato é que não está dando se postar de biquíni, não pelo ato em si, já que o corpo feminino enquanto objeto de desejo e de consumo sempre foi muito bem-vindo pelos ditadores da moral.

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Não está dando pra gente se postar de biquíni pelo fato de que nós somos cidadãs brasileiras que vivemos no Brasil medieval, colonial, ditatorial, e diante das milhares de reconquistas que urgem, realmente dá um trabalho enorme ser cidadã no Brasil de hoje. Ah, mas nós somos!

Há quase cinco décadas o biquíni simbolizou uma libertação. Hoje, com tanta destruição que exige da gente um estado de alerta e de luta por todos os direitos roubados, dia sim e dia também, o biquíni por hora está simbolizando uma alienação e não está dando pra gente se postar de biquíni. Infelizmente, digo eu, filha de um biquíni, super, hiper, mega postado, mas o que não está dando mesmo nos tempos de hoje é pra gente se dar ao luxo de não ser cidadã.

Janaína Diniz Guerra – Diretora, produtora e roteirista de cinema. Filha de Leila Diniz e Ruy Guerra.


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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