A parte civil da ditadura se manteve intacta –

Marília Bonas, defensora de um museu engajado, a diretora do Memorial da Resistência traça paralelos entre o regime militar e os dias de hoje –

Por Laura Castanho /Carta Capital (www.cartacapital.com.br) com comentários iniciais de José Carlos Portella Jr, no Facebook.
A ditadura foi um processo civil-militar. Na redemocratização, se discutiu a parte militar. A parte civil se manteve intacta. Toda a relação com as empresas que financiaram o golpe de 64 se manteve estável até os dias de hoje. A grande crise política tem muito a ver com isso. Tem uma estrutura civil de pensamento conservador que tem muito a ver com identidade.

Os acordos políticos não diferem tanto em relação aos personagens. Quando a gente pega a expansão da Transamazônica ou a interiorização do projeto da ditadura, as empreiteiras são as mesmas envolvidas em todos os escândalos hoje. São os mesmos nomes. Quando a gente pega o livro de visita do Dops, são instituições que continuam determinando a ordem política”

“Isso aqui era conhecido como o elevador da morte”, diz Marília Bonas, com serenidade, ao segurar a porta do mesmo ascensor que levava presos políticos vendados para a sala de tortura do Deops, durante a ditadura. A antiga sede paulista do Departamento de Ordem Política e Social foi convertida no Memorial da Resistência em 2009, que visa lembrar as violências cometidas contra os opositores da repressão naquele período.

O prédio fica no entorno da Cracolândia, no centro de São Paulo, e conta com partes originais das celas onde ficavam os presos. Cinquenta e quatro anos após o golpe civil-militar, as exposições e depoimentos dialogam com o clima político de 2018, já marcado pela intervenção federal no Rio de Janeiro, ascensão de militares em cargos executivos e pela pré-candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSC) à presidência.

“O próprio público já faz os seus paralelos”, afirma Bonas. Autodenominada “historiadora freestyle” e “museóloga de guerrilha”, ela dirige o Memorial desde o ano passado. Antes disso, coordenou os museus da Imigração e do Café. Uma piada interna entre seus amigos é que ela entra para as instituições logo antes de virarem um grande tema. “Fui para o Museu da Imigração, não tinha refugiado. Vim para cá, não tinha ameaça. Quando eu for para o museu da invasão alienígena, preparem-se”, brinca.

CartaCapital: Como é trabalhar nesse lugar e nesse contexto?
Marília Bonas: A memória da violência é uma coisa muito visível na nossa sociedade. Vemos a persistência de uma tecnologia de violência do Dops em ações contra populações marginalizadas. Outra coisa é a distorção da ideia de direitos humanos. Quando a gente fala disso, a impressão que passa é que você está falando da perda de privilégio. Esses são mecanismos que levaram às violações que aconteceram aqui no Deops.

CC: Qual a relação entre o regime e a crise política atual?
MB: A ditadura foi um processo civil-militar. Na redemocratização, se discutiu a parte militar. A parte civil se manteve intacta. Toda a relação com as empresas que financiaram o golpe de 64 se manteve estável até os dias de hoje. A grande crise política tem muito a ver com isso. Tem uma estrutura civil de pensamento conservador que tem muito a ver com identidade.

Os acordos políticos não diferem tanto em relação aos personagens. Quando a gente pega a expansão da Transamazônica ou a interiorização do projeto da ditadura, as empreiteiras são as mesmas envolvidas em todos os escândalos hoje. São os mesmos nomes. Quando a gente pega o livro de visita do Dops, são instituições que continuam determinando a ordem política.

CC: O memorial opta por fazer um recorte de classe na história do regime. Por que isso importa?
MB: Ainda se tem a impressão de que essa é uma memória de uma classe média intelectual que pegou em arma pra lutar contra a ditadura. Isso tem uma razão de ser, do quanto essa memória foi apropriada politicamente pelas esquerdas no brasil, e também sobre como elas se constituíram: o quanto são masculinas, brancas, de elite.

A apropriação política dessa memória faz com que se relativize a gravidade da ditadura no Brasil. Eram mulheres, eram operários, negros, pessoas de todos os lugares do país. As vítimas da ditadura não eram necessariamente uma elite que foi fagocitada dentro da construção política da redemocratização.

Temos trazido pessoas que não eram do núcleo duro da resistência porque tinham militâncias concomitantes, como a questão de gênero e racial. Muita gente nem se entende como militante por causa dessa identidade. Essa militância foi invisibilizada e tem um trabalho ativo para acessá-la. Não é alguém que você digita no Google e aparece um depoimento, você tem que ir atrás.

CC: Boa parte dos militantes contra a ditadura ainda estão vivos. Como dialogar com uma história tão recente?
MB: Tem uma responsabilidade muito grande, porque estamos falando de um legado vivo. Trabalhamos em parceria com vários grupos de ex-presos. Essas pessoas estão vivas, são atuantes e fazem autocrítica. Tem um abatimento dessa geração que só consegue ser sanado quando vê as novas gerações em ação.

Isso é uma coisa que o Memorial tem orgulho de fazer. Botar os secundaristas com o pessoal da ALN tem um poder de entendimento e de fôlego para eles. De que o que eles fizeram não foi em vão, de que persiste a luta por uma sociedade mais justa.

CC: Qual a causa desse abatimento?
MB: Você viveu na pele uma coisa extremamente traumática, viu amigos morrerem, foi torturado, quase morreu. De repente você cruza com uma criança que diz, “Ah, que saudade da ditadura”. Geracionalmente isso é muito forte.

Às vezes um visitante vem, visita o espaço carcerário, conversa com os nossos educadores e não acredita que aconteceu. Continua falando que é a favor da ditadura. Isso é uma coisa muito difícil de trabalhar, emocionalmente. Essa geração vive isso com uma dor que a gente não concebe.

CC: Como as gerações mais recentes percebem isso?
MB: A minha geração entendeu que a democracia era conquistada, mas não entendeu o preço da manutenção, do quanto era importante trabalhar com isso, em termos de consciência política. Tinha uma celebração da democracia, das eleições, das diferenças políticas. Cresci entendendo que a ditadura era uma parte superada da nossa história. Para a minha geração, era muito improvável ver o que acontece hoje.

As novas gerações têm um desconhecimento até na maneira como isso é tratado em termos de currículo. Muitas vezes as crianças passam pela relativização antes de passar pela história.

CC: Quais paralelos você vê do período da ditadura com os dias de hoje?
MB: Algumas coisas são muito parecidas. As falas, as faixas das marchas são muito parecidas.

Essa é uma história que passou a ser relativizada por razões eleitoreiras. A gente passou a ter um papel de checagem. O que aconteceu aqui não é uma questão de opinião. Deixamos isso muito claro. Não tem revisionismo que chegue. É dado, é documento, é historiador. Todo mundo é historiador aqui, ninguém acha nada. Isso tem sido importante nesses momentos de fake news, manipulação de memória e história.

O próprio público já faz os seus paralelos. Mais do que nunca, o memorial tem essa função de lembrar o que aconteceu e como aconteceu. Tem sido suficiente para as pessoas ficarem alertas de quanto essa memória tem sido manipulada nesse processo de intervenção e ameaça à democracia.

CC: Como você vê o avanço conservador em curso no mundo?
MB: Acho que é uma questão global, essa confusão entre direito e privilégio. É algo especialmente forte [no Brasil] por causa da nossa herança escravista, entender que o outro é menos digno de ter o que a gente tem. Tem uma crise de entendimento do outro no mundo, com essa fragmentação toda. E tem uma certa angústia do quanto a gente consegue se articular para agir enquanto sujeitos da história.

Quando eu digo agir, é no nível mais básico, agir para que não passe fome, agir para ver o outro como igual. Isso era um pressuposto básico e você percebe que não é mais.

CC: Como você interpreta a intervenção federal e a retomada da força política dos militares em 2018?
MB: Como força política, responde a uma série de coisas, a uma sensação de insegurança, o medo, a violência. Do ponto de vista simbólico, é isso: tem uma crise e respondem com clareza, assertividade, evocando coisas protetoras e objetivas. Eles têm um papel político que tem uma justificação. Daí a entender que a democracia não funciona porque o jogo político não garante os seus direitos, já é uma coisa mais preocupante.

É muito difícil acessar esses sujeitos da repressão. Nunca conseguimos entrevistar alguém que trabalhou no Dops, e sabemos quem são.

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Reprodução de ligação telefônica entre pai e filho, parte do acervo do Memorial da Resistência (Foto: Cauê Gomes/CartaCapital)

CC: Ainda é pesado vir aqui todo dia?
MB: É pesado trabalhar com direitos humanos num território como esse e não se sentir hipócrita. Sinto todos os dias os meus privilégios.

Trabalhar com violações obviamente tem um impacto pessoal muito grande. Não tem como trabalhar [no memorial] como se fosse uma coisa teórica. Ou você acredita, ou não consegue segurar o rojão aqui. O nível de desigualdade, de violência, de mortalidade é muito grande. Você precisa acreditar que está no papel de fazer uma diferença.

Uma coisa muito radical que eu aprendi trabalhando com o entorno é que a resistência tem um lugar de afeto. É a chave da existência desse lugar.

CC: Você se denomina uma museóloga de guerrilha. O que é isso?
MB: A brincadeira da museologia de guerrilha é que você não precisa ter milhões de reais pra fazer uma exposição pós-moderna, performática, piroscópica e cheia de estrobo e milhões de telas touch se você consegue criar parcerias, ouvir o seu público e entender, principalmente, quem são os não-públicos: quem não vem e não se sente representado.

Para isso, a questão não é o nível de recurso, ou a qualidade artística da coleção que você preserva, mas é a serviço de quem você coloca o seu museu e qual é o objetivo maior. Você usa o acervo para mediar essas questões sociais. A minha geração e as novas entendem isso de uma maneira muito mais radical, muito menos isolada e elitista.

CC: Como se deu essa guinada? Houve uma tomada de consciência?
MB: Sim. tem também uma possibilidade de ascensão de outras classes como trabalhadores de museus e a consciência dos próprios privilégios. Se queremos que os museus tenham um impacto e  cumpram seu papel social, todas as ações. Não só as ações educativas, mas de curadoria, de memória, de engajamento de público têm que ser estruturantes na dinâmica Os museus são muito mais diversificados em termos de ação do que 20, 30 anos atrás. Não adianta entender essas narrativas se a gente não traz para dentro quem foi excluído delas.

CC: Qual a função social do museu?
MB: Os museus têm uma função de lidar diretamente com a sociedade. É uma instituição a serviço da sociedade para discutir todas as questões e problemas dela. O museu não é um lugar da relíquia, da riqueza, da cultura de elite, não é um templo. Isso passou a ser um pressuposto dos trabalhadores de museus, que se entendem como trabalhadores sociais.

O museu é um representação. Quando a gente fala de representação, está falando de poder, de escolha e de perda. Quem está em posição de escolha e quem define quais são as perdas no geral tem sido as elites.

CC: Como os museus narraram a história de imigração em São Paulo?
MB: O projeto de imigração está muito ligado a uma suposta qualificação que esses imigrantes teriam em detrimento dos escravizados recém-libertos.

É uma política de embranquecimento, o que já é uma perspectiva higienista, eugênica, conservadora. Na medida em que esses grupos puderam ser inseridos, eles ainda tinham uma voz de identidade branca, europeia, coisas que agregavam valor à identidade paulista.

Simplesmente pulando toda a contribuição e resistência dos escravizados e libertos na história de São Paulo. Isso começa em 22, se traduz no Museu Paulista, depois se traduz no Museu do Café e por fim no Museu da Imigração, quando essa ideia de orgulho imigrante surge dentro das comunidades de descendentes.

Era o bandeirante como pioneiro, o jesuíta como a bênção religiosa — mesmo que historicamente eles se odiassem — e os imigrantes. É a narrativa do empreendedorismo, do pioneirismo.

CC: As origens do imigrantes que vieram para São Paulo teve uma influência na mentalidade conservadora do paulista?
MB: Acho que é o oposto. O fortalecimento das esquerdas no brasil, as greves, têm muito a ver com a presença dos imigrantes. Devemos a eles uma ideia de classe trabalhadora. Como a escravidão é uma coisa tão estruturante nas relações de poder brasileiras, se entender como trabalhador e não como servo — entender que você tem direitos, e não que é explorado ou escravizado. Tudo isso é uma invenção no Brasil.

Todas as relações são marcadas. Se você não é o escravizado, é quem escraviza. A ascensão do escravizado é virar quem escraviza. Isso é estrangeiro para os imigrantes. Eles chegam nas fazendas e não entendem as relações de poder. Não operavam dentro da mesma lógica. Nunca se entenderam como equivalentes a escravos libertos.

CC: Qual a diferença disso para a imigração de hoje?
MB: A diferença entre um imigrante de hoje e um do 19, do 20, é que havia uma política de estado de incorporação dessas pessoas dentro da sociedade, o que possibilitava ascensão social. Radicalmente diferente do que aconteceu com toda a população que havia sido liberta e que ficou à margem, sem nenhum projeto de discussão.

Sempre se vai migrar. Não existe migrante melhor e pior, existe política que recebe e que não recebe, como as políticas de hoje, ou no caso da ascensão do conservadorismo na Europa e nas discussões do Trump.

Dentro dessa construção de identidade, a superioridade imigrante ainda sempre passa pelo racismo — é branco, é melhor; é europeu, é melhor. Os novos imigrantes não são europeus, são indígenas, refugiados, africanos, de países não católicos.

Obviamente uma pessoa que larga tudo o que tem num país e vem pra cá com uma mala tem uma narrativa forte de construção. A maneira conservadora como essas histórias foram apropriadas é uma perda em termos de poder de narrativa. Vemos muito pouco disso na questão dos migrantes nacionais, por exemplo, ou dos novos imigrantes.

CC: Quais histórias de imigração os museus ainda não contam?
MB: Tem muitas histórias de imigrantes que não deram certo, ou histórias que não são necessariamente de superação. Ou que são de superação de outras formas, da sobrevivência, e não dos sobrenomes que persistem dentro da lógica pioneira.

As histórias de preconceito também são pouco contadas. Tem que haver um gesto dos museus de falar das pessoas, e não da história oficial, e de entender que não existe juízo de valor. Não existe maior contribuição cultural, não existe bom imigrante, não existem só cases de sucesso.

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