Desconexões Políticas e Especificidades Indígenas

“A gente tem de parar de trazer veneno para dentro da nossa comunidade, porque as coisas que vêm de fora, elas são veneno. O açúcar é veneno, o sal é veneno, a bebida é veneno… essas coisas prontas que a gente come, a carne com hormônio, o óleo que a gente põe na comida, isso é tudo veneno, e faz mal para nós. Por isso a gente pensou em criar a cooperativa, também para dar independência para a gente não ficar sempre no cativeiro dos donos de estabelecimentos comerciais que retém os cartões, e mantém todos nessa escravidão, como era antigamente, no tempo da seringa”. –  Fabiano Sales Huni Kuin.

Ouvi essa fala na tarde de ontem, numa reunião na Assessoria Indígena, quando o Huni kuin do Jordão apresentava a algumas pessoas a ideia que tiveram da criação de uma cooperativa no Jordão, destinada tanto a fomentar a produção quanto a libertar os indígenas do ‘aviamento’ moderno que se instalou no Acre – e pelo Brasil afora – a partir da instituição de alguns programas sociais, notadamente, o Bolsa Família.

OPA! Vamos aqui desde já ressaltar que em nenhum momento estou aqui para falar necessariamente contra o fato de indígenas serem beneficiários desse e de outros programas sociais. Como já disse uma vez, os povos originários devem ser encarados como cidadãos brasileiros de pleno direito, e, por isso, têm total liberdade para acessar quaisquer programas sociais ou políticas públicas que sejam de seu interesse, quando assim o desejarem.

O problema é que, como de costume, esses programas não são pensados para dar conta das especificidades do mundo indígena, antes, já vêm prontos e há bem pouca margem de flexibilização que torne possível um encaixe menos danoso.

Como também já disse outras vezes, embora o Brasil possua uma Constituição que assegura o ‘direito à diferença’ como base de respeito para o tratamento dos povos originários, e a despeito de ser signatário de um tratado internacional que preconiza o direito à consulta prévia, livre e informada, a realidade prática ainda passa a milhas de distância da efetiva aplicação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A proposta capitaneada pelo povo do Jordão é, sem dúvida, uma ideia que pode trazer muitos benefícios aos indígenas daquela região, e servir de modelo para as demais regiões do estado, visto que possibilitaria a conquista de uma autonomia perante o comércio das cidades, que se impõe como única fonte de fornecimento de gêneros alimentícios e demais mercadorias que hoje já fazem parte do cotidiano de muitas populações indígenas.  Ao mesmo tempo, a cooperativa pode possibilitar a introdução no mercado dos próprios produtos indígenas, de maneira mais equilibrada e competitiva.

A fala do Fabiano, no entanto, me fez pensar menos na inoperância jurídica que grassa neste país quando o tema é o respeito aos direitos dos povos originários, e mais no termo que ele usou repetidamente para falar de ‘coisas que vêm de fora’: Veneno.

A fala dele me fez lembrar a primeira visita que fiz a uma terra indígena em terras acreanas, o carnaval que passei com o Povo Shawãdawa. Lembrei-me porque depois de passar uma semana com aquele povo, e de ter retornado para o estado onde eu residia até então, o Paraná, carreguei comigo a sensação de que, não fosse essa coisa chata chamada ‘sociedade branca cristã ocidental’, aqueles parentes poderiam viver maravilhosamente bem por uns bons 12 mil anos, mas acontece que essa coisa chata está ali, na fronteira, invadindo os limites, fazendo incursões para dentro do espaço indígena, e despejando os seus venenos.

Isso porque, como gafanhotos que são, a verdade é que os raion (não-índio) não têm por prática a perspectiva de respeitar limites. Pelo contrário, o raion sempre acha que sua presença é possível e bem-vinda em qualquer espaço. E ai daqueles que tentam avisar do contrário! (Basta citar para ilustrar as infindas e repetitivas discussões que se instalaram nas últimas semanas nas redes sociais acerca da apropriação cultural)

Fabiano falou muito sobre a introdução de determinados alimentos estranhos à cultura tradicional, e que acabam por se constituir em veneno. Trata-se de uma verdade inescapável: basta observar a quantidade de casos de doenças outrora inexistentes entre os indígenas, e que podem ter correlação estreita com a utilização de produtos industrializados e excessivamente processados, e que causam um inegável desequilíbrio no organismo humano, mais ainda se neste caso esse organismo não estava acostumado a seu uso frequente.

É assim que se tem com cada vez mais frequência notícias de parentes adoecendo de diabetes, gastrites, úlceras e tantas outras doenças ‘modernas’. Aliás, convém citar que para muitas concepções indígenas, a doença é uma manifestação de um desequilíbrio do corpo.

E, nessa diapasão, a introdução de determinados elementos do mundo branco como alimento tende a ser justamente a fonte do desequilíbrio. Gostaria de citar um caso que ouvi tempos atrás de uma amiga que trabalha na Saúde Indígena do Paraná, e foi chamada a apaziguar uma querela que surgiu depois de algumas incursões de uma equipe de saúde em algumas terras indígenas Kayngang no Paraná.

Ela me contou que o problema teria surgido porque aquela equipe havia adotado um forte discurso para que as mulheres indígenas substituíssem o uso da gordura de porco pelo óleo de soja, sob uma alegação de que esta seria uma opção mais saudável. A negativa a essa orientação por parte das Kayngang partia do pressuposto – óbvio – de que essa substituição era inviável, uma vez que a comida feita com óleo de soja não era nutritiva, era fraca e fazia o corpo adoecer, enquanto que a gordura animal proporcionava força ao alimento, e impedia a doença de se instalar.

Bom, de saída já podemos ressaltar o próprio absurdo que está em defender a utilização de um alimento transgênico como ‘alternativa saudável’. Mas, mais do que isso, temos também a mania desagradável que alguns raion adotam de tentar forçar a submissão de uma prática cultural ao crivo de um julgamento etnocêntrico, desrespeitando e desconsiderando o ponto particular do povo com o qual pretende interagir.

E antes fosse só o óleo de soja que o mundo não indígena tentasse nos impor! E quem dera houvesse aos indígenas a opção de rejeitar sempre essas tentativas impositivas, optando pela manutenção de suas práticas tradicionais, não é mesmo? Infelizmente, em um sem número de casos, não é tão simples assim… A evangelização, talvez uma das mais eficazes armas etnocidas de todos os tempos, está aí há tantos séculos para provar a força que têm essas imposições.

Língua, práticas sanitárias, vestimentas, alimentação, religião; muitos são os exemplos das doses de veneno quase diárias desses 517 anos de invasão. Por vezes, ela se insere sim de maneiras sutis, e até se fantasia de uma boa coisa, como o recente caso do caminhão doado pela Raizen no Mato Grosso do Sul para o atendimento dos indígenas na região de Dourados. Podemos encarar isso como um bem? Sim. Talvez. Aparentemente. Mas não!

Não ao menos sem ficar com aquele travo na língua e aquele frio na espinha que já antecipa o punhal que será cravado nas costelas quando ninguém estiver olhando. Não sem deixar de pensar sobre o que de fato representa a indústria de açúcar e álcool em terras sul mato-grossenses, e em qual o nível da contrapartida dessa política de boa-vizinhança pode vir a ser exigida do órgão indigenista e das instituições que trabalham na assistência às populações indígenas do estado.

Tal como os troianos que receberam aquele cavalo de presente. Vai dizer que não ocorreu a nenhum deles que era um tanto quanto estranho o fato de que, em meio a uma tremenda guerra, ‘do nada’ aparecesse um presentão muito vistoso e providencial vindo justamente do inimigo declarado que até então sitiara a cidade? E eis o desafio nessa guerra, muito mais sangrenta e duradoura do que a de Troia: saber antever a armadilha que se esconde no interior do presente, e ser capaz de reagir da maneira mais adequada possível em cada caso.

No caso específico do Mato Grosso do Sul, também não é sequer necessário lembrar o que de fato é prioridade para os indígenas que habitam o estado: a demarcação de suas terras. Se as demarcações de fato viessem a ocorrer, a maioria dos problemas dos Guarani e Kaiowá estaria resolvida de pronto, pelo simples fato da garantia de existência representada pela possibilidade de habitar seus Tekohá, de viver e ser, nos lugares cuja definição são, exatamente ‘o lugar de ser o que se é’. Com terras demarcadas, e segurança da não expulsão dessas terras, bem se poderia depois gozar dos benefícios de um caminhão que proporcionasse melhor conforto e acesso a serviços.

É importante que eu esclareça: não quero aqui parecer que estou desdenhando a utilidade desse presente. Conheci um pouco da realidade sofrida dos parentes do Mato Grosso do Sul nas ocasiões em que lá estive, realizando alguns trabalhos que certamente foram pouco mais do que tentativas de apagar um incêndio usando um conta-gotas. Sei muito bem que em um contexto de tantas necessidades, e de violência constante, ajuda e apoio são sobremaneira necessárias.

O problema é: que tipo de ajuda é essa? Até que ponto estamos perante uma ajuda, e até que ponto isso não passa de uma cortina de fumaça para esconder a verdadeira ação, a perene negligência e a inoperância do poder público em atacar o problema real? Afinal de contas, penso que talvez não seja tão complicado assim percebermos que o problema real para os Guarani e Kaiowá está no fato de ser obrigado a uma condição subumana de vida, acampados por décadas em barracos de lona em faixas de terra com pouco mais de dois metros de largura, sem acesso à água potável ou possibilidade de cultivar alimentos, e espremidos entre campos infinitos de soja ou cana, e a morte que circula sob as rodas de veículos que passam a toda velocidade. A resposta para este problema é tão óbvia quanto ele próprio.

Não creio que este texto se pretenda como uma defesa da ‘pureza’ e total separação dos povos indígenas do mundo raion. Infelizmente penso que essa separação não é mais possível nos dias atuais. Recordo-me de uma história Ashaninka que recentemente li, a respeito dos tempos em que o seu deus criador, Pawa, pretendia criar um muro de separação entre seus filhos e os virakotsha, garantindo assim a sustentabilidade de uma existência em equilíbrio.

Tudo parecia que ia funcionar, até que o demiurgo se dá conta que a separação não terá a devida eficácia, visto que um de seus filhos passa a demonstrar um comportamento ‘de branco’, sendo avaro e ganancioso, a ponto de provocar a quebra do equilíbrio até então mantido. Diante dessa constatação, Pawa decide abortar a construção do muro e opta por transferir sua morada para os céus, para onde vão após a morte aqueles filhos que se mostrarem merecedores. Essa história ancestral é bastante ilustrativa do quanto, desde o momento em que o virakotsha pisou por essas paragens, o mundo indígena foi conspurcado e jaz constantemente ameaçado.

Isso não quer dizer, no entanto, que não seja possível a transformação e incorporação de elementos externos de maneira inteligente. Em outras ocasiões já falei disso, e já citei, como exemplo, o uso de tecnologias em favor da preservação das tradições ancestrais (gravadores e compilação de cantos e histórias tradicionais, só para citar um dos usos). O que, no entanto, deve ser considerado e pesado com muito cuidado, é como se dá essa incorporação, para que essas atividades não acabem por se reverter em armadilhas de longo prazo, que acabem por escravizar o tradicional dentro do moderno.

O que se coloca, ainda outra vez, é a necessidade de equilíbrio, de entender o que, onde, e até que ponto se pode ceder, e o que constitui o núcleo duro e inegociável, no qual não será permitida a interferência. Equilíbrio é, sem dúvida, a pedra de toque a ser buscada. Como disse no começo dessas considerações, a doença pode ser encarada como uma situação de desequilíbrio do corpo, e, seja quanto encaramos as intrusões correlacionadas à inserção de alimentos não-tradicionais na dieta alimentar, seja quando pensamos em questões mais macro, como a adoção de determinadas práticas, é sempre muito importante levar a sério essas interferências, e considerar o que de bom ou ruim elas podem vir a acarretar a longo prazo.

Sei que pode parecer um exercício cansativo, e sequer acho que seja saudável nos dedicarmos ao ato de questionar o fato de adoçarmos o café nosso de todos os dias (ou até o próprio fato de tomarmos, café, diga-se de passagem…), encarando isso a partir de implicações de uma ordem metafísica. Também não creio que necessariamente o ato de usar açúcar precise ser necessariamente encarado como um ato entreguista e inconsequente. Não!

Existem problemas bem mais sérios e ameaças bem mais graves do que o branco açúcar do branco, mas nem por isso, se deve deixar de tomar a sério esses pequenos venenos cuja potência danosa acabam por passar despercebidos no contexto mais amplo. Lembrando que quando se pensa em um contexto comunitário, o singular, o pequeno e o individual podem também constituir em ameaças ao equilíbrio e sobrevivência do todo, razão pela qual não se pode menosprezar, mesmo aquilo que de início parece insignificante e irrelevante. Como bem ensina a teoria do caos, mesmo uma pequena ação pode derivar num desdobramento de nível macro.

E eu bem sei que existe uma máxima bastante repetida que nos diz que ‘a diferença entre o remédio e o veneno é a dose’, mas eu tenho cá para mim que dependendo do que for que se coloca em questão, uma dose grande ou pequena de determinadas substâncias acaba sendo irremediavelmente venenosa.

Finalizo este texto esperançosa pela iniciativa da Cooperativa do Jordão, torcendo para que lá eles consigam de forma eficaz combater os venenos que ali vêm se inserindo, e servir de inspiração para outras regiões do Acre, e do Brasil, para a libertação dos povos indígenas dos muitos cativeiros modernos que se lhes são impostos.

 

ANOTE AÍ:

Raial Orotu Puri – Indígena do povo Puri. Graduada em Direito. Doutoranda em Antropologia. Chefe de Divisão no IPHAN/Acre. Assessora jurídica da Federação Indígena do Povo Huni Kui do Acre (FEPHAC). 

Puri –  Segundo o indigenista acreano Jairo Lima, o nome Puri é uma designação de cunho pejorativo, que teria sido atribuído pelos vizinhos, não necessariamente amigáveis, os coroados o significado da palavra seria algo como ‘gentinha, gente miúda, povo fraco’. Apesar desses significados depreciativos, Puri acabou sendo o nome assumido como etnônimo, sem grandes recalques daí derivados. (Minha avó costumava dizer que era ‘pura intriga da oposição’…)

As imagens  que ilustram esta matéria foram selecionadas pelo indigenista acreano Jairo Lima (cronicasindigenistas.blogspot.com.br), e são da autoria de:
Quadro 1: Lu Alencar
Quadro 2: Cardoso Vieira
Quadro 3: Jociane Bisnagli

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