Acabo de sentar à minha mesa para escrever sobre livros & livreiros. Gostaria de incrementar meu texto com referências históricas, mas pouco sei do assunto. A não ser que eu escreva de um ponto de vista bastante subjetivo, investigando minhas memórias e experiências em busca de substância.

Afinal, desde que a micro-história ganhou legitimidade historiográfica, os relatos pessoais ganharam estatuto de verdadeiras fontes primárias. Então lá vou eu. Mergulho em minha história para me manifestar: o tema se esboçará por si só. Atualmente um dos meus trabalhos é no comércio de livros.

Eu e minha companheira Tâmara tocamos  o sebo (ambulante) Dom Caixote. Migramos com nossa mesa e nossos caixotes para ali e para lá. Ora montamos em um café, ora em uma feira-livre, ora em uma feira de vinis. Fazemos o que um sebo-loja faz, porém à nossa maneira, por fora.

Há cinco anos eu fazia essa migração com os livros na mochila e nas mãos, de mesa em mesa, bar em bar, café, adega, onde fosse e onde pudesse. Vendia razoavelmente bem e podia voltar mais ou menos tranquilo para minha quitinete vagabunda, com dinheiro no bolso.

“Cada sujeito desses pode passar a vida bem”, disse João do Rio em 1906, referindo-se aos camelôs de livros, a “próspera profissão da miséria” (RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Companhia de Bolso, 2009. p. 87). Em duas semanas conseguia assegurar as contas do mês. No dia seguinte,  fazia minhas voltas em busca de mais livros, sempre alimentando o acervo que se renovava diariamente. Trabalho solitário, garimpo.

Nas ruas vira e mexe eu topava com outros ambulantes, livreiros ancestrais como o célebre Faraó, especializado em autores e editoras brasilienses, o Jorge, grandalhão, carregando uma pilha tão enorme quanto aleatória, o escritor Marco Polo com seu colete-vitrine, o único que ainda vejo perambulando por aí. O Faraó agora vende pimenta, e o Jorge nunca mais vi; estará vivo?

Os vendedores de livros são uma chusma incontável que todas as manhãs se espalha pela cidade, entra nas casas comerciais, sobe aos morros, percorre os subúrbios, estaciona nos lugares de movimento. Há alguns anos, esses vendedores não passavam de meia dúzia de africanos, espapaçados preguiçosamente como o João Brandão na praça do Mercado. Hoje, há de todas as cores, de todos os feitios, desde os velhos maníacos aos rapazolas indolentes e aos propagandistas da fé.” (RIO, João do. A alma encantadora das ruas. p. 85).

E de lembrar que tudo começou com uma biblioteca desfeita… Algo em torno de 300 livros, Cortázar, Hesse, Murilo Rubião, Augusto dos Anjos, Rimbaud, Lautrèamont, Carl Solomon, Burroughs, Poe, Calvino, Nietzsche, Camus, Villon, Lovecraft, Bob Dylan… Muitas pessoas perguntavam se eu não tinha dó de vender tanta pérola.

Eu explicava, na língua das ostras, que não estava me desfazendo deles por meros trocados para uma e outra cerveja, uma e outra carteira de cigarro. Claro que esses gastos também estavam envolvidos na contabilidade do mês, mas não era esse o ponto. Lembro-me de um cara me dizendo uma vez que tinha pena da minha mãe, querendo dizer com isso que eu estava arruinando a biblioteca dela.

É o tipo de suspeita que um sebista ambulante desperta nas pessoas: “esse tanto de livro só pode ser roubado”. Calúnias à parte, eu estava realmente envolvido com essa coisa de ser livreiro, de ter uma pilha respeitável embaixo do braço e me relacionar com as pessoas por meio desse papo silencioso que rola entre o leitor-cliente e o leitor-livreiro.

A imagem que sempre me vem à mente, uma imagem antiga, é a de um velho sentado na porta de sua loja, recebendo os “clientes” habituais e casuais. Ora, ele conhece muito bem o seu espaço, o seu domínio, transita com desenvoltura entre as estantes, agarra com precisão os volumes que procuram. Entre ele e os outros existe uma relação de cumplicidade muito peculiar, uma troca de imaginários constante, (con)fusão de sonhos, empatias mútuas, confiança e, também, cinismo.

Lembro o trecho de um romance ocultista (Zanoni) que li, no qual certo livreiro é celebrado por sua excelentíssima coleção de livros insólitos, tratados de magia, compêndios esotéricos, poemas alquímicos que faziam suspirar os conoisseurs, os eruditos. Seu ofício era quase o de um guardador-de-segredos, revelados apenas àqueles que haviam sido iniciados nos mistérios do oculto.

Lembro também uma referência – talvez tenha lido em um artigo sobre as livrarias antigas de São Paulo – sobre um livreiro que recomendava aos clientes que, fosse o caso de não desejarem guardar o livro, o vendessem de volta. Rá! Quantas vezes não desejei correr atrás daquelas edições raras que frequentemente aparecem uma vez apenas em nossa vida.

O Panamérica de José Agrippino de Paula, por exemplo, primeira edição, 1967, folha de papel cretone ou de pão, sei lá. Anos atrás entreguei ele a um escritor conhecido (embora maldito) da cidade, dizendo que talvez fosse de seu interesse investigar o texto e a vida do autor, pois ele passara grande parte de sua vida na esquizofrenia e havia morrido recentemente e pouco se escrevia sobre ele etc. Fato é: o livro ficou com ele uns quatro anos, e muitas vezes eu me pegava pensando o quanto tinha sido displicente passando o livro daquela maneira.

Por que eu mesmo não escrevia nada sobre o cara? Contracultura literária brasileira de primeira linha. Comprara a “epopeia” pela bagatela de 3 reais em um sebo na Asa Norte. Há quem peça 300 na internet.

Passei um ano tentando reaver o dito cujo até que desanimei com a probabilidade do meu conhecido tê-lo perdido, como o próprio lamentou na época. Para a minha sorte, contudo, acabou achando e recentemente tive o Panamérica de volta. Não vendo mais, mesmo que não vá escrever nada sobre ele. Ficará comigo à disposição de quem quiser lê-lo. Entre outros, muitos outros. Se um dia eu estiver passando fome ou qualquer outra necessidade, talvez até cogite vendê-lo, mas com a certeza de que antes terei copiado ele inteiro.

 

ANOTE AÍ: UM BREVE ROTEIRO DOS SEBOS DE BRASÍLIA

Agora, como estamos falando de livros e pérolas, gostaria de esboçar um breve roteiro de sebos em Brasília para o bibliófilo bem disposto e curioso. Não aquele que espirra e se coça na primeira poeira, sendo isso o bastante para ir-se embora, mas aquele que se agacha, limpa o ranho, suja as mãos, dá peteleco em traça e sabe que muitas vezes a pedra mais preciosa está socada no meio da montanha.

Então vem, vamos lá. Como diz a Cila do Coco, a cidade tem movimento, quem quiser vir pode passear. Não falarei das lojas célebres, por motivos óbvios. Façamos o contra-fluxo. Limitarei o roteiro por enquanto apenas à W3 sul:

I – Começando na 510

Vá andando pela calçada, passando pelos restaurantes, cabeleireiros, armazéns, lojas de ferragens, até se deparar com a banca de jornal “Nova Era”. Não se intimide com o pouco espaço. Em frente ao balcão verá umas três estantes de ferro lotadas de livros. Baratos e bem conservados. Algumas pérolas. Cassandra Rios, edição dos anos 50. Cadernos de literatura do instituto Moreira Sales. Ariano Suassuna. Hitchcock/Truffaut. Ainda leva um bom picolé de frutas do cerrado por apenas R$ 1,70. Detalhe: a livraria é praticamente ignorada.

II – Prossiga andando rumo à 512

Depois que atravessar o restaurante Roma, haverá outra banca, bem mais largada e mais aberta. Logo verá um tanto de livros “em exposição, cheios de pó, com as capas entortadas pelo sol”. Talvez lá no fundo esteja o Fulano sentado, tocando seu pífano de PVC ou preparando alguma beberagem à base de cacau. Lá você encontra bons livros a preços módicos. Sade. Mate-me por favor. Sartre. Rousseau. E uma vasta coleção de revistas eróticas e pornográficas. Suecas, russas, húngaras. Escatologia e breviários bíblicos. Beauvoir e Plínio Marcos. Não encontrará água para matar a sede, nem picolé. Só livros, revistas, CDs e DVDs. Esturricados, é verdade. Mas o preço compensa.

III – Mais à frente, no rumo da 514.

Haverá uma banca sabiamente coberta de lona (azul). Adentrará o recinto passando por um corredor apinhado de livros e mais livros. Sentado ao fundo haverá o Sicrano sentado assistindo à TV. Atrás dele e por toda parte: livros e mais livros! Ali tem que ser garimpeiro. E convém não ser alérgico. Muitos estarão com indícios de mofo… Paciência. Entre Freud, Tolkien, biografia de Madame Satã e coleções de Ficção Científica, talvez até encontre uma boa vitrola a preço negociável. A gruta do caçador. Coragem. Conheça. Esqueça os sebos famosos por um tempo e se aventure neste mundo empoeirado.

Depois desse giro pelos sebos “lado b”, dá para perceber que ainda existem boas livrarias na cidade e que é possível economizar mesmo quando se trata de relíquias. Em tempos de mega stores, nos quais o mercado livreiro está bastante debilitado, resistências inconscientes pipocam aqui e ali, quase que à margem do pomposo cenário mercantilista.

Aquela imagem do velho em sua livraria não deixa de ser uma fantasia em minha mente, conquanto seja raro encontrar alguém que conheça bem o seu produto. É verdade que tem o Chiquinho lá na UnB, que sabe de tudo um pouco e conhece bem os clientes que tem.

Nós do sebo Dom Caixote buscamos de alguma forma realizar essa imagem do livreiro que é praticamente uma ponte, um guia e um guardião. A um sebo não basta vender livros usados, tem que ter uma personalidade, ou várias. Tem que ser motivo de encontro, revelação, descoberta. Quem sabe um dia não viramos também uma editora? Tudo é possível. A ver. Por enquanto continuamos com o apartamento cheio de livros espalhados nas estantes, nas mesas, nos armários e pelo chão. Querendo a lista, enviamos para o seu e-mail, sem grilo. Livre-se!

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Guilherme Cobelo

Historiador, Músico.

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