Brasília é uma cidade complexa(da). Ao mesmo tempo em que se vangloria de ser uma capital moderna, sofre constantemente achaques de senilidade. De um lado, olha para trás e pensa no Projeto Cabeças, nos movimentos culturais de outrora, no rock e na política.

De outro, se olha no espelho e vê um corpo que está prestes a entrar em colapso, mercê dos assédios burocráticos e do desencanto de uma vida que se perdeu nas quarenta horas semanais. O tempo e o espaço, em Brasília, se confundem com os limites da rotina. Extrapolá-los é uma ousadia mais que necessária.

Jogar com esses limites, torná-los elásticos e propícios ao exercício da cidadania, é vital tanto para a cidade quanto para sua cidadania, para as pessoas que nela vivem. Mais do que nunca, é preciso reinventar o uso que se faz dos espaços públicos, explorá-los de maneira a que se dobrem aos apelos de vida.  Urge instaurar novas temporalidades mais condizentes com o tempo lúdico, esquivo aos regulamentos. Por aí Brasília começaria a respirar melhor, mais relaxada e menos sufocada pelas pressões da repartição.

Na esteira desses impulsos utópicos, desde 2014 alguns jovens brasilienses resolveram promover às margens do Eixão uma ocupação exemplar a que deram o nome de “Feira Livre”. Consiste basicamente no amplo encontro de produtores culturais, djs, músicos, escritores, artistas plásticos, performáticos e circenses, gastrônomos de rua, livreiros ambulantes, bebês, crianças, jovens, adultos, idosos: a feira é aberta a toda a população. Na última edição, em maio deste ano, reuniu uma vasta multidão em um clima de total descontração.

Ao contrário das feiras alternativas em voga na cidade, a Feira Livre prescinde do aparato comum às demais. Para participar como expositor, por exemplo, basta chegar cedo para arrumar uma boa sombra. Como o evento acontece aos domingos, a ocasião é extremamente propícia, pois o Eixão fica aberto exclusivamente para pedestres, ciclistas e skatistas até as seis da tarde. Público é o que não falta. Tampouco espaço.

Contudo, no entanto, todavia, como não poderia ser diferente, realizações como essa frequentemente correm o risco de sucumbir justamente devido à sua principal virtude: o idealismo despojado. Como sempre o vil metal se aproxima com seus rumores de falência. Quem banca um evento desse porte? Até onde sei, os próprios organizadores. E quem se dispõe a ser voluntário em um esquema desses, em que o retorno financeiro é nulo e alta a probabilidade de gastos?

Ao que tudo indica, o financiamento coletivo é uma opção que tem tudo a ver com o caráter da Feira Livre. Sendo para o bem comum, nada mais natural. E mais: se a iniciativa se propagar, e outras pessoas se animarem para realizar ocupações afins, não haverá uma só, e sim diversas feiras livres espalhadas pelo Eixão e por Brasília afora.

O movimento foi apenas iniciado, sugerido. Que se alastre! “Vamos rumo a nada menos que essa utopia coletiva, de natureza mutante e adaptável, acreditando sempre que o destino se desenha nas alegrias do caminho”.

Contato: www.feiralivre.org

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Guilherme Cobelo

Historiador, Músico.

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