Oportunidade de novas reflexões sobre antigos problemas

Por Anelice Batista

“Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite provável
Tocar o inacessível chão” 

(Versão de Chico Buarque e Ruy Guerra)*

Desde o início da pandemia causada pelo novo coronavírus, uma preocupação de instituições escolares e das famílias tem sido as perdas de conteúdos acadêmicos dos estudantes de todas as idades e níveis de ensino.

Milhões de brasileiros perderam emprego ou a renda advinda do trabalho sem carteira assinada e precisam lutar pela sobrevivência. Milhões estão ou são desabrigados e sem condição mínima de seguir as orientações de segurança sanitária. Essas pessoas ainda precisam lidar com o mesmo problema educacional de quem tem salário, comida, casa e acesso aos produtos de higiene e proteção pessoal.

Em face da imposição de isolamento social, a escola se viu diante da necessidade de criar novas maneiras de ensinar sem a convencional sala de aula com carteiras enfileiradas ou com qualquer outro desenho do ambiente presencial, a fim de minorar as perdas dos alunos. Agora, professores e alunos se encontram separados fisicamente e precisam lançar mão de alguma ferramenta que possa reuni-los mesmo a distância, mantendo a qualidade do ensino ofertado. Ou seja, professores e gestores escolares foram convocados a se reinventarem e a ampliarem o alcance da educação escolar.

Não temos o hábito de pensar que as crianças aprendem o tempo todo, participando das mais variadas atividades e dialogando com outras pessoas. O que muda da vida cotidiana para a escola é que nesse ambiente a criança é submetida a regras mais rígidas, o ensino já está organizado e formulado de maneira padronizada quando ela chega para integrar o ambiente. Esse modelo de organização escolar dificulta aos profissionais perceberem cada criança com as suas particularidades e interesses.

Não é comum encontrarmos espaços escolares em que as crianças participem, opinando, do planejamento pedagógico e das decisões acerca das ações da escola, como formas de avaliação, conteúdos de ensino com respectivo sequenciamento, entre outros.  O que encontramos, via de regra, é o trabalho pronto para ser posto em execução, sem a participação prévia das crianças, sem que sua voz seja ouvida.

Ao contrário do que acontece na vida cotidiana, onde a criança opera sobre os objetos de maneira livre, sem cerceamento da atividade,na escola as atividades são propostas em uma sequência pensada para alcançar determinados objetivos.

Muitas vezes há um descompasso entre a maneira como a criança elabora questões da vida, fatos ou fenômenos vivenciados no cotidiano, e como essas mesmas questões são ensinadas na escola. A escola introduz elementos textuais pré-formatados por códigos como nomes científicos, que nem sempre carregam alguma característica que facilite a compreensão pela criança. Na maioria das vezes, aliás, os fenômenos conhecidos pela criança na vivência, quando explicados na escola, distanciam-se, ganhando novos contornos, novas cores e formas, tornando, muitas vezes, sua compreensão quase impossível.

A mediação pedagógica constrói pontes, suavizando o caminho da aprendizagem por meio de instrumentos e estratégias. Julgamos de fundamental importância a parceria família–escola na facilitação da aprendizagem das crianças. A escola instiga e acolhe as dúvidas e os saberes trazidos pelos alunos, construídos ou observados a partir de sua vivência cotidiana, e transforma essa informação em saber científico, embasado por teorias. À família cabe o papel de colaborar com as tarefas de fixação enviadas pelos professores e o de observar possíveis dificuldades, reportando-as para que sejam sanadas de pronto.

Todos – alunos, pais, professores e gestores escolares – estão vivendo a mesma inusitada e assustadora situação. A pandemia pelo novo corona vírus e suas terríveis consequências causam pânico em qualquer ser humano que desfrute de suas faculdades mentais intactas – Quem tem juízo, tem medo. Pais e responsáveis pelos estudantes, além da tarefa de acolher seus medos e inseguranças, receberam a   tarefa de salvar o ano escolar. Não queremos minimizar a gravidade do quadro, mas trazer uma brecha por onde possamos vislumbrar algumas soluções.

Estamos diante de uma situação extrema, para a qual necessitaremos de medidas também extremas. É muito arriscado, nesse momento em que a curva de contaminação ainda está ascendente, enviarmos as crianças à escola. As autoridades sanitárias são categóricas em afirmar que máscaras, sabão e álcool em gel não os protegerão adequadamente e que o isolamento ainda é a mais adequada medida de proteção. Sabemos também que muitos responsáveis e muitos estudantes não apreciam a ideia de cancelamento do ano letivo.

Por outro lado, essa tragédia que estamos vivenciando se apresenta como uma oportunidade ímpar para o desenvolvimento da solidariedade e da alteridade como fontes norteadoras das nossas vidas e da vida da nossa sociedade. Aprendi com Paulo Freire que a Educação deve ser libertadora e, para tanto, não pode discriminar ou excluir quem quer que seja, sob quaisquer pretextos.

Poderíamos construir metodologias de ensino e de avaliação que ajudassem a salvar o ano escolar, mas perderíamos a chance de pensar coletivamente, de pensar naquelas famílias que não terão acesso às tecnologias utilizadas para a efetivação do nosso projeto. A desigualdade social, tão antiga em nosso país, se apresenta mais uma vez diante de nós, dando-nos a oportunidade de olhar para ela com desejo de mudança. Nossas crianças e jovens ganhariam muito mais agora se pudessem aprender sobre equidade e solidariedade a partir da realidade escancarada pela pandemia.

Faz-se urgente combater as diferenças que nos tornam seres cada vez menos humanos. Existem muitas crianças nas escolas do Brasil com diagnóstico de deficiência intelectual leve. Após muitas intervenções com crianças que carregam esse selo, pudemos constatar que, na maioria dos casos, são crianças com todos os tipos de dificuldade de acesso ao conhecimento escolarizado: crianças com histórico de adoecimento crônico, crianças vítimas de abandono, crianças que vivem em condições sub humanas de saneamento com relação a saneamento básico e/ou acesso a alimentação. Enfim, é uma deficiência intelectual socialmente construída pela falta de oportunidades, de acesso e de ambiente adequado à aprendizagem.

Está em nossas mãos a chance de escolher se o Brasil Pós-pandemia será menos desigual ou se teremos acentuado a desigualdade seguindo o paradigma presente.

Iniciamos este texto com um fragmento de um poema de Fernando Pessoa. E vamos finalizá-lo com uma alegoria adequada para a reflexão que pretendemos despertar: o mito de Procusto.

Procusto era um ladrão que vivia às margens da estrada na região de Elêusis, Grécia. Roubava os pertences de viajantes que por ali passavam, os quais enganava oferecendo pouso.  Em sua casa, tinha uma cama de ferro que oferecia aos viajantes para descanso.  Mas, ao contrário de descanso, o leito era de tortura.  Procusto prendia suas vítimas na cama e as torturava. Se o hóspede fosse maior que a cama, ele lhe amputava as pernas; se fosse menor, esticava-o até que nela coubesse.

Palas Atena, deusa guerreira e símbolo da sabedoria, sabendo desses horrores, exigiu explicação. Procusto argumentou que sua cama não era um terror, mas a solução para as desigualdades: “minhas camas acabam com as diferenças. Elas igualam os homens. A diferença é injusta, a igualdade é justa”. Sem argumento e decepcionada, a deusa voltou para o Olimpo.

Seu silêncio reforçou o comportamento de Procusto, cujo terror durou até ser capturado por Teseu, que o prendeu lateralmente na cama.  Como suas pernas passavam do tamanho do leito, Teseu cortou o que sobrava. Entretanto, mesmo faltando os pés, a cabeça ainda passava do tamanho da cama. Teseu não pensou duas vezes, cortou-lhe a cabeça, pondo fim à história de terror do bandido.

Assim como no Mito do leito de Procusto, as aulas com mediação de tecnologias consideram que todos os alunos gozam das mesmas oportunidades de acesso, desconsiderando as particularidades e intensificando as desigualdades e a exclusão.

*Epígrafe: versão de An Impossible Dream, de Joe Darion e Mitch Leigh.

Atualizada em 16.05.2020, às 19h58.

Anelice Batista – Pedagoga, especialista em Desenvolvimento Psicológico e Inclusão Escolar, mestre e doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB). Servidora pública lotada na Gerência de Residência, Especialização e Extensão da Escola Superior de Ciências da Saúde do DF.

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