A máquina e a revolta: A academia, os indígenas e os paradoxos de um acesso não muito acessível.

Nesta última semana que passou, acompanhei dois eventos realizados na capital Rio Branco que trataram de assuntos de importância para os povos originários, ao mesmo tempo em que acompanhava de longe algumas outras tantas coisas e situações da luta e da lida diária que fazem parte do Ser indígena.

Pensei, a princípio em escrever especificamente sobre isso, ainda em certa correlação com o que escrevi na semana passada sobre abril, este mês e os muitos eventos em que se celebra a ancestralidade indígena de um país que na maior parte do tempo opta por ignorar e silenciar suas raízes.

A motivação central do meu texto era um colossal incômodo gerado por uma das falas ocorridas no I Seminário sobre Saúde Indígena promovido pelo Conselho Federal de Medicina no dia 06 de abril, e que contou com algumas palestras e falas bastante interessantes, mas que também contou com o seu quinhão de surrealismo, bem como com a curiosa e gritante ausência de participação de pelo menos um dos quatro médicos indígenas pertencentes aos povos Yawanawa e Huni Kui, formados em Cuba, e que atuam  aqui no Acre, em Manaus e no Pará. (Como diz aquela máxima para lá de conhecida “representatividade importa!”).

A única presença indígena como palestrante na temática do evento foi de Ninawa Huni Kui, acadêmico do primeiro ano de medicina da Universidade Amazônica de Pando – UAP, Bolívia, que apresentou uma retrospectiva histórica acerca da criação do subsistema de saúde indígena, também apresentou a experiência específica e estrutura do DSEI Alto Purus. Aos demais indígenas presentes, inclusive a médica Maria Gilda Yawanawa, que atende na Unidade de Pronto Atendimento – UPA da Cidade do Povo em Rio Branco, coube apenas a plateia.

Isso se torna ainda mais sério, quando, no desenrolar do próprio evento, foram ouvidos diversos questionamentos e manifestações, tanto da plateia como dos palestrantes, acerca de pontos muito específicos do tema da saúde indígena, das mulheres indígenas, das demandas indígenas, dos problemas enfrentados nas aldeias, da solução para esses problemas, da incoerência dos números, da ausência de preocupação do Estado para com determinados tipos de endemias e questões sociais a elas conectadas… e tudo isso sendo falado, discutido, abordado e respondido por homens, na maioria brancos, ricos e citadinos. Puxado, né gente?

Nesse sentido sim, insisto: não adianta muito tacar no nome do evento a palavra ‘indígena’ e só por isso acreditar que está cumprindo o seu papel. Aliás, não é que não adianta muito; é que não adianta nada.

Pois bem, como eu dizia, a princípio, meu texto giraria em torno da sensação de tristeza e revolta para com a explanação de um palestrante em específico, para o absurdo paradoxo que ele acabou trazendo e colocando à vista em sua apresentação, ao interromper sua fala para apresentar um comercial– sim, isso mesmo! – de um empreendimento pessoal dele, uma instalação médica de alta tecnologia e elevadíssimo custo, que para a realidade indígena é certamente tão distante e inalcançável quanto uma viagem a marte.

Não, eu exagerei: acho que marte é mais próximo! Porque, bem, digamos que em uma parte do país em que os povos originários estão lutando, e com frequência perdendo, por nada mais nada menos do que existir, chega a ser ofensivo que alguém acredite ser uma boa ideia trazer em sua fala algo desse tipo, não é mesmo? (E quem dera essa tivesse sido a única incoerência do palestrante, ou desse dia).

Mas bem, um exame da semana finda me fez ver que aquela maquinaria propagandeada na ocasião não era a única que merecia ser abordada, pois, de fato, penso que exista um componente muito mais amplo de irritação a ser considerado neste e em tantos outros casos, alguns dos quais ocorridos ainda essa semana, e, ironicamente, neste tão famoso mês de ‘homenagens’ aos povos originários.

Contextualizando a questão: já há alguns meses, venho acompanhando as etapas da seleção para uma turma de Licenciatura Indígena na UFAC de Cruzeiro do Sul. Mais do que acompanhar a distância, pelo meu envolvimento particular com as demandas indígenas do Acre, estive divulgando os editais, e auxiliando diversos parentes nas diferentes etapas do processo – inclusive naquilo que se referiu a ajudar na compreensão de alguns dos trâmites e editais – que começou ainda no mês de fevereiro, e ainda prossegue em suas etapas seletivas, compostas de inscrição, prova e entrevista.

Minha fala aqui se dá dentro do ponto de vista de alguém que teve um curto, porém intenso, contato com os professores indígenas do Acre, alguns dos quais figuraram na lista dos inscritos. Tive o grande privilégio de dar aula durante um módulo de curso de formação, ocorrido em Plácido de Castro em 2014, e através dessa experiência pude estabelecer contato e alguma amizade com alguns deles, razão pela qual tenho alguma consciência do quanto se batalhou pela abertura dessa turma, o quanto o acesso ao curso superior é um sonho antigo de muitos, talvez todos, e faço ideia do nível de expectativa que essa possibilidade gerou, não apenas entre os concorrentes, mas também em suas comunidades, pois é sabido que sendo indígena, nunca se está só de fato nos planos e projetos. Cada um de nós leva consigo, para onde vai, todo o mundo que está contido em nosso povo.

No dia 05 de abril foram divulgados os resultados preliminares da referida seleção, as quais foram com recebidas com tristeza, consternação e revolta por uma parte significativa dos inscritos, que acabou sendo desclassificada com base em um mesmo critério do Edital, o qual se referia à apresentação de um memorial e uma ata da comunidade anuindo com a candidatura, documento esse que deveria ser homologado pela Funai.

Note-se: a documentação possuía caráter eliminatório, e neste caso, não se trata aqui de casos de inscritos que deixaram de apresentar o documento, mas de alguns casos em que esse documento foi entregue, mas considerado ‘inadequado’ pela banca examinadora.

Pois bem, eis que eu vejo nesse caso um problema bastante contundente, e que reporta à dificuldade da academia em se abrir para uma diversidade que ela, pretensamente, pretende acolher ao fazer uma seleção dessa natureza. Considere-se de saída que estamos falando de um vestibular especial, para indígenas.

E sim, até posso compreender que o edital dizia textualmente que o ato de inscrição significava a adesão irrestrita às condições previstas no edital. No entanto, convém perguntar se, por acaso, a recíproca é verdade, se por acaso a Academia, ao conceder um pretenso acesso aos povos originários a uma cadeira em sua instituição também estava por esse ato dando a entender que faria a adesão irrestrita às especificidades de povos com formas de organização, expressão e culturas diferenciadas.

Parece-me bastante claro que não é este o caso. Isto pode ser comprovado a partir da oitiva de algumas das alegações que foram apresentadas aos candidatos descredenciados, os quais, obrigatoriamente ‘tinham de saber como se faz uma ata’.

Tinham? Não sei. Creio que a resposta é turva. Talvez, do ponto de vista de que quando se pretende inserir-se dentro do ‘sistema branco’ se faz preciso jogar conforme as regras dele. Pensando por aí, até certo ponto a argumentação faz sentido. Ocorre, no entanto, que só faz sentido até o ponto em que se considera que este caso não se enquadra, ou não deveria ao menos,  nos moldes de uma inserção ao ‘sistema branco’, visto que ele versava sobre um processo seletivo específico e ‘diferenciado’.

Não se tratou, por exemplo, de um processo seletivo de candidatura ampla, envolvendo concorrentes indígenas e não-indígenas. Se assim fosse, é meio óbvio que os candidatos indígenas necessitariam se adequar às regras ‘de todos’.

Mas e quando esses ‘todos’ são indígenas, não seria necessário que a Academia pensasse os seus critérios no sentido de atender às especificidades do público que pretendia acolher? Bem, penso que se a proposta é realizar de fato uma seleção diferenciada, ela terá de necessariamente o ser, ou então que nem se tente!

É preciso dizer que o caso desse vestibular diferenciado (mas nem tanto) da UFAC não é, infelizmente, um isolado. O mundo da Academia possui atualmente uma quantidade de exemplos de concessão de um acesso (mas nem tanto) a grupos ‘minoritários’, mas que na prática revelam-se ainda cheios de restrições e barreiras, não apenas no que se refere ao ingresso, mas também à permanência daqueles que conseguem ingressar.

Haja vista que o vestibular é apenas um passo, e depois que se consegue – quando se consegue – adentrar, ainda são esperados muitos anos de aulas, exames e trabalhos pela frente. E longe de mim dizer que qualquer dos meus parentes não é capaz de encarar e vencer o desafio que lhe é posto.

Longe de mim MESMO, mas talvez, apenas talvez, seria bastante interessante levar em consideração que ajudaria imensamente que as instituições de ensino estivessem atentas às questões e demandas dos estudantes, afim de, na medida do possível, adotar medidas que pudessem tornar um pouco menos difícil o caminho a ser percorrido, e de principalmente torna-lo muito mais possível de ser percorrido. Os índices altos de evasão existentes que o digam…

Verdade seja dita, a questão não está só na Academia, mas em toda ‘a máquina’ de engrenagens que compõe o sistema branco. Às vezes, esta máquina é de moer, quebrar e moldar a diversidade em uniformização.

Umas poucas vezes, ela se presta a uns hiatos de abertura e concessão. O problema é até que ponto ela é efetiva, e realmente acolhedora. Só para falar de Editais, abro aqui um parêntesis para falar de outra vertente dos mesmos: Ao longo de minha experiência em produção de projetos para editais diversos, frequentemente me deparo com casos de instituições que promovem programas de apoio e seleções para comunidades indígenas no Brasil, mas que exigem a apresentação exclusiva em francês ou inglês.

Óbvio: não existe nada que impeça um indígena falar um desses idiomas – eu falo. E mais óbvio ainda: o português também não é a língua materna dos povos originários, antes, é a língua que foi imposta pelos invasores. Mas, ainda assim, o mínimo de descolonialização que poderíamos esperar das tais instituições “de apoio” seria que facilitassem o acesso dos povos que pretensamente se colocam como apoiadores, não é mesmo?

Volto novamente à questão do Seminário de Saúde Indígena, que quase não abriu espaço à fala de indígenas. Cabe perguntar – dizem que não dói! –  se, por acaso, nesse arranjo de mundo aos indígenas só existe espaço para ser estatística, paciente ou plateia, enquanto que o domínio das letras, da discussão do tema e planejamento de políticas públicas é mantido pelos doutores não-indígenas. Aparentemente, parece que esta resposta é sim. Mas não deveria!

E creio que não é preciso ir longe demais, até o contato com outras epistemologias para entender o quão hermética é a Academia. Basta a recente campanha de internet #meuprofessorracista, a qual serviu para escancarar as portas de um sem-número de situações de racismo, boa parte delas ocorridas dentro de universidades.

Ao contrário do que pode pressupor um nome como ‘universidade’, o que podemos perceber é que, salvo raras e louváveis exceções, a maior parte dos exemplos de instituições de ensino superior está longe de ser um espaço aberto para o diálogo e a diversidade, a menos que, em algum momento do tempo e espaço, diversidade e abertura tenham mudado tanto o seu significado para tornar-se esse ambiente fechado e conformador de visão única e via única, onde qualquer coisa que destoe do status quo seja tratado como anomalia a ser resolvida. Mesmo quando este destoar seja justamente a riqueza, a beleza e a potencialidade de uma convivência e aprendizado com o diferente.

Eu contribuí com uma única ‘historinha’ na campanha, e quero reproduzi-la aqui pois a considero exemplar dentro do argumento deste texto:

#meuprofessorracista: quando contei toda empolgada para um professor que havia ouvido de um parente que eles estavam num movimento de ler e revisar a literatura escrita sobre eles ao longo de um século, ele me respondeu indignado: ‘Quem eles pensam que são para fazer isso?’ (Sim, essas foram as palavras!)”

Cabe, para esclarecer a informação, e evidenciar o problema, visto que, no referido caso, meu interlocutor e autor da frase era um professor de antropologia que trabalhou pesquisando junto a uma população indígena. A frase foi dita em uma conversa de corredor de Evento Acadêmico, dessas nas quais a gente troca informações sobre campo e interesse de pesquisa enquanto come alguns petiscos servidos nos intervalos entre palestras.

Esclareço também que, entre o engasgo de ódio e a incapacidade de acreditar no que tinha ouvido, não consegui responder nada mais que “Eu acho que eles são eles. O que eu não sei é quem exatamente você pensa que é para dizer isso”.

Sempre que conto isso, e já contei algumas vezes, é comum que as pessoas que escutem a história se assombrem muito mais com o fato da fala ser de ‘alguém da antropologia’ do que com seu conteúdo em si.

Pois bem… eu que já venho há anos percorrendo um caminho acadêmico dentro da Antropologia, bem sei que essa área do conhecimento não é nem de longe isenta de problemas, academicismos, bairrismos, hermetismos, e, óbvio, racismos. Não mesmo! Além dessa história narrada, já ouvi, li e testemunhei outras tantas coisas, que se não são tão absurdas quanto essa, são no mínimo sintomáticas dos problemas que estão contidas nessa parte do Olimpo.

Por isso, digo que sei, e não tenho dúvidas, de que na profissão que escolhi para chamar de minha, existem vários exemplos bem tristes de profissionais que se acreditam donos dos grupos com os quais pesquisam e que, já que os tratam como posse, acabam por encarar as tentativas de falar por si e de si mesmos como uma afrontosa e desleal concorrência.

E não posso achar nada menos do que revoltante essa ordem de coisas, vindo de uma das áreas do conhecimento que há tanto tempo vem falando e discutindo diversidade. Poucas coisas podem ser mais dignas de lamento do que o enorme paradoxo de que se encontrem situações de resistência à manifestação da diversidade, quando essa parte pessoalmente daqueles que constituem essa diversidade.

Há algo de realmente errado, e de muito errado nessa tal ordem de coisas. Ainda bem que existem as tais exceções nessa ordem, para dar respiro e algum alento para aqueles que, como eu, escolheram insistir no grau acadêmico – sabe-se lá deus o porquê… Lembro bem das palavras de uma amiga em uma das conversas acaloradas sobre as muitas decepções desse caminho.

Ela, também acadêmica da área, me disse que, ao contrário de me ver desanimada e prestes a ser mais uma das desistentes, o que temos é de insistir, estar lá, para ser realmente destoante, apontar dedo na cara, e denunciar. Para reivindicando espaço, nem que seja no grito.

Sim, acredito que eu precise estar lá, e neste sentido, acho que esse texto é quase uma conversa para minha própria consciência em constante questionamento. Mas, para além disso, ela é também uma exposição da necessidade que eu vejo de que essa Academia realmente supere suas contradições e limitações, principalmente se ela realmente se coloca como pretensamente aberta e acessível, principalmente para que um cada vez maior número de parentes tenha, se quiser, o direito de também estar lá.

Pois, como já disse no começo, ou é isso, ou então que nem sequer comece a fazer o discurso de abertura e inclusão.

ANOTE AÍ:

jairo-foto-raial

 Raial Orotu Puri – Indígena do povo Puri. Graduada em Direito. Doutoranda em Antropologia. Chefe de Divisão no IPHAN/Acre. Assessora jurídica da Federação Indígena do Povo Huni Kui do Acre (FEPHAC). Puri –  Segundo o indigenista acreano Jairo Lima (cronicasindigenistas.blogspot.com.br) , o nome Puri é uma designação de cunho pejorativo, que teria sido atribuído pelos vizinhos, não necessariamente amigáveis, os coroados o significado da palavra seria algo como ‘gentinha, gente miúda, povo fraco’. Apesar desses significados depreciativos, Puri acabou sendo o nome assumido como etnônimo, sem grandes recalques daí derivados. (Minha avó costumava dizer que era ‘pura intriga da oposição’…)

Nota da autora:  O título deste texto é uma licença poética em cima do título do livro “A Máquina e a Revolta: as organizações populares e o significado da pobreza”, da Alba Zaluar. Obviamente, meu texto não tem muita conexão com o assunto dela, exceto se for pensado a partir de um ponto de vista de tratar em alguma medida sobre desigualdade social e dificuldade de acesso a determinados seguimentos do ‘sistema’, mas a verdade é que o único motivo da minha escolha foi exclusivamente o meu gostar.

As imagens que ilustram esta matéria foram selecionadas por nosso parceiro Jairo Lima (cronicasindigenistas.blogspot.com) e são da autoria do pintora Arissana Pataxó, finalista do Prêmio Pipa 2016.

 

 

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