Salto de Haddad mostra eleitor como protagonista da eleição

Por Paulo Moreira Leite

Eleitor Haddad

Faltavam alguns minutos para as sete da noite de segunda, 24, quando a notícia de uma nova escalada de Fernando Haddad no Ibope circulou no whatsapp dos jornalistas que participavam de uma entrevista coletiva com o candidato do PT no Instituto Lula. Coube ao repórter Joaquim de Carvalho, do Diário do Centro do Mundo, cumprimentar Haddad pela novidade, que confirma uma análise corrente entre os observadores mais atentos e indica uma virada espetacular numa disputa marcada por tantas idas e voltas e uma tensão crescente até o final.

Como era previsível, momentos depois teve início o espetáculo inesquecível dos olhares perdidos e comentários angustiados da bancada de comentaristas da  GloboNews, inconsolável diante de números que configuram uma  possível tragédia no horizonte já próximo. Demonstrando que a memória política da maioria dos brasileiros tem uma consistência raras vezes reconhecida por analistas incapazes de enxergar as luzes próprias  da consciência popular, Haddad cresce aos saltos, e ganha perto de 1,4 milhão de novos eleitores por dia.

Referindo-se ao flagelo monumental produzido pelo governo Temer, antes mesmo que os números do Ibope fossem divulgados Fernando Haddad explicou o que se passa no país: “as pessoas estão percebendo. Por isso o Lula quase ganhou no primeiro turno”. Em outro momento, ele faria uma menção a uma outra expressão do mesmo fenômeno, ao recordar que, antes de se passarem de dois anos da derrota na eleição municipal de 2016, ele vence Bolsonaro nas intenções de voto na capital paulista.

O crescimento do candidato do Partido dos Trabalhadores demonstra o papel do eleitor como protagonista de uma eleição decisiva em nossa história política, numa evolução que desmoraliza armações feitas às suas costas.

Ocorre 72 horas depois de Fernando Henrique Cardoso ensaiar uma intervenção-surpresa  na campanha, pela divulgação de um documento politicamente desonesto, a Carta as Eleitoras e Eleitores, no qual teve a cara dura  de nivelar Fernando Haddad a Jair Bolsonaro, convocando o eleitorado encontrar um “candidato que não aposte em soluções extremas”. O texto não era uma peça isolada.

Serviu de introdução a uma operação que incluiu uma visita-relampago  de Bill Clinton a São Paulo, na qual o ex-presidente dos EUA — responsável por uma empréstimo de US$ 40 bilhões que em 1998 salvou a reeleição de FHC num país quebrado — pediu aos brasileiros que não votassem “com raiva”.  Reorientado no novo curso,  a campanha de Geraldo Alckmin na TV adquiriu a estética sombria de filmes de filmes B de terror, sem resultados visíveis, pelo menos de imediato. O próprio candidato tucano  ganhou um pontinho mas segue um ponto abaixo do patamar no qual se encontrava há quinze dias.

Mencionado como outro alvo possível de transações de bastidor, tratado com interesse fora do comum pelas Organizações Globo nos dias anteriores,  Ciro Gomes não saiu do lugar e segue parado em 11 — desde ontem, esse patamar é a metade daquilo que Haddad acumulou até aqui.

Num comentário feito antes que os números do Ibope fossem  conhecidos publicamente, Haddad fez questão de recordar o esforço pela unidade com Ciro. “Trabalhei intensamente por isso”, disse, lembrando conversas reservadas em torno de uma chapa comum, que vieram a público por iniciativa da outra parte, nas quais,  afirma, nunca colocou condições sobre quem teria a candidatura presidencial. Numa das versões em circulação naquele período, quando o TSE ainda não havia liquidado definitivamente a candidatura de Lula, Ciro teria direito a ficar com a cadeira de vice — mas seria promovido a titular caso o candidato presidencial fosse impedido.

Voz disciplinada em defesa da unidade com o candidato do PDT, evitando responder críticas com novas críticas, única forma de fugir de  uma espiral mutuamente destrutiva, o comportamento de Haddad é consistente com sua própria visão dos riscos e armadilhas da política brasileira atual. A análise foi anunciada em  2016, quando — e isso era novidade no período — ele disse que a campanha presidencial de 2018 poderia ser transformada numa disputa “da direita contra a extrema-direita”.

O ponto aqui é que Haddad não se limitou  a fazer uma simples análise dos fatos, mas incluiu um engajamento para modificar a realidade adversa, numa luta paciente mas firme  para dobrar o desalento e o ceticismo de boa parte de eleitores e militantes, lembrando que “depois de 500 anos de história temos a oportunidade de mudar o que está aí”.

Se até há pouco a simples viabilidade de sua candidatura era colocada em dúvida em várias conversas, o vigor exibido pelos números mais recentes mostra uma situação confortável — para dizer o minimo. Se a maioria dos estudiosos está convencida de que a informação de que Haddad é o sucessor escolhido por Lula já chegou a quase totalidade do eleitorado interessado, seria ilusório imaginar que, em todos os casos, a substituição de candidatos se faz pelo piloto automático.

Os 22% anunciados pelo Ibope marcam um salto de grande envergadura, ainda mais notável enquanto os adversários permanecem no mesmo lugar.

Num país onde a popularidade do PT chegou a 29% e as intenções de voto de Lula batiam em 39% quando ele foi retirado da campanha, é fácil  enxergar um bom espaço  — em terreno já cultivado — para novos avanços em futuro próximo.

Essa é a questão essencial quando se examina o futuro, nas próximas semanas.  A ameaça “à democracia é real”, diz Haddad, recordando as “formas contemporâneas” que as ditaduras têm assumido em vários países, como regimes autoritários que desrespeitam os direitos e as liberdades, sem exibir a fisionomia clássica que apresentaram ao longo do século XX.

Ele recorda que uma declaração do presidente do STF, Dias Toffoli, comprometendo-se com o respeito ao resultado das urnas, chegou a ser comemorada quando, em situações normais, seria uma questão que sequer deveria ter sido colocada. Também critica a “naturalização” de ataques a direitos consagrados pela Constituição. Diz: “não vejo ninguém indignado”.

A ascensão de Haddad na campanha coincide com um novo sinal político, enviado por várias camadas geológicas da sociedade brasileira e um horizonte político muito mais amplo do que o PT. Iniciado como o Movimento Mulher Unidas contra Bolsonaro, a campanha  “Ele não” se transformou numa mobilização social de vulto.

Sob a sombra de uma árvore de organizações femininas e feministas, ali se encontram a fina flor do universo intelectual brasileiro e as torcidas organizadas dos principais times de futebol. Incluindo militantes e ativistas de vários partidos, mas sem qualquer definição  partidária, o “Ele não” ganha corpo e impulso para se transformar numa grande reação democrática contra o fascismo na reta final do primeiro turno, realizando uma defesa vigorosa das garantias democráticas que permaneceu silenciosa até aqui.

O progresso de Haddad se explica pela história e pelo horizonte do Partido que representa. Por suas ligações únicas com a maioria do povo, o PT é a força politica capaz de unir as duas questões que envolvem o destino da maioria dos brasileiros e brasileiras. A questão social, que se tornou ainda mais urgente após o cruel trabalho de destruição de conquistas e direitos que protegem a população contra a miséria mais degradante. Também é a força comprometida com a questão democrática e o respeito ao Estado Democrático de Direito. Com essas bandeiras, Haddad tem condições de liderar o resgate do país. São duas faces da moeda que separa a civilização da barbárie.

Alguma dúvida?

ANOTE AÍ

Fonte: Brasil 247

Anúncios

Comentários

X
%d blogueiros gostam disto:
preloader