Fosse uma Olimpíada do Ocidente, Huka-Huka seria classificada como um tipo de arte marcial. Entre os povos indígenas do Xingu, Huka-Huka é a dança-luta que encerra o Kuarup, o ritual de celebração da ressurreição dos mortos.

 

Em 2016, o Kuarup foi realizado na Aldeia Yawalapiti, no Mato Grosso, entre os dias  13 e 14 de Agosto de 2016. O líder indígena Kanato Yawalapiti publicou vários álbuns de fotos das cerimônias em sua página no Facebook. Algumas delas,  creditadas a Antonio Carlos Ferreira Banavita, reproduzimos aqui.

Huka Huka

 

HUKA-HUKA 

O Huka-Huka é uma luta ritual. Durante o Kuarup, é no Huka-Huka que jovens “atletas” indígenas dos vários grupos presentes mostram sua força.

A luta começa sempre  quando o guerreiro local, o  chefe da luta,  caminha até o centro da arena e chama os adversários, os campeões de cada tribo presente, pelo nome. Atendendo ao chamado, os lutadores vão-se posicionando em frente ao oponente.

Em seguida, se entreolham, se agarram e vão à luta, até alguém cair ao chão. O Huka-Huka começa sempre ao alvorecer do dia seguinte ao início do Kuarup, depois que acontece a ressurreição simbólica dos mortos, e o canto e o choro cessam. Depois da disputa individual, os jovens presentes encerram as festividades com lutas grupais.

huka 2

 

O KUARUP

Os povos indígenas do Xingu se despedem de seus mortos celebrando o Kuarup, um alegre ritual de encerramento do luto. “Os mortos não gostam de ver os vivos tristes”, acreditam. Por essa razão, fazem uma festa exuberante, onde os “kuarup”, que são troncos de madeira decorados, representam o espírito dos mortos.

Diz a lenda que o Kuarup começou quando o Pajé Mavutsinim preparou seis troncos para trazer de volta à vida seis pessoas que tinham morrido em sua aldeia. Depois de avisar que quem tivesse relações sexuais não deveria sair de suas malocas, o pajé começou, com sucesso, o ritual da ressurreição.

Tudo ia bem até que um índio que estava namorando desobedeceu ao aviso e se aproximou do pajé. Naquele momento, os troncos pararam de se mexer. Muito triste, o pajé disse que dali por diante os Kuarup serviriam apenas para reverenciar os espíritos dos mortos. Desde então, por tempos imemoriais, o ritual é celebrado para agradecer pela convivência nesta vida e liberar os mortos para viverem em outro mundo.

A cerimônia começa na noite anterior, quando os troncos de madeira – um para cada pessoa encantada – são trazidos da floresta e colocados em linha reta no centro da aldeia pelos homens. Começam, então, a serem recortados em forma humana, pintados com faixas amarelas e vermelhas, e ornamentados com os principais objetos do morto.

Depois de preparar os Kuarup, os homens vão até as malocas e buscam as mulheres e as crianças. Em silêncio, as mulheres se aproximam dos “Kuarup” e, em voz baixa, quase sussurrando, expressam gratidão a seus mortos presenteando-os com braceletes, cocares e belas peças de plumagem.

Chegada a noite, os homens, com seus corpos pintados e ornamentados, fazem a belíssima dança do fogo. Carregando archotes de palha em fogo, os homens cantam canções míticas e dançam a passos cadenciados ao som dos maracás, até a chamada do pajé, que evoca Tupã, implorando pela ressurreição dos mortos.

A dança dos homens termina no momento em que a lua cheia alcança seu máximo esplendor. Os homens então se dispersam em pequenos grupos e só o pajé, acompanhado pelas mulheres, continua entoando cânticos até o dia amanhecer. O nascer do sol traz, nos cânticos do pajé, de volta à vida os encantados.

Começa, então, a dança da vida. Cada “atleta” da aldeia traz no ombro uma longa vara verdejante, significando a vida das últimas crianças que nasceram na comunidade. Em um grande círculo, formado ao redor dos “Kuarup”, os “atletas” reverenciam os espíritos, agradecem pelos nascimentos, e em seguida se dispersam e se juntam às suas famílias, ou clãs.

Terminada a homenagem às novas vidas, os clãs da aldeia e os grupos convidados começam uma luta parecida com uma luta que chamam  “Huka-Huka“, ou “Uka-Uka”. Depois, em procissão e em festa, levam os “Kuarup” até o rio e encerram a cerimônia entregando-os às águas, para que possam ser levados para a vida em outro mundo.

Assim se resumem os vários relatos do Kuarup, contados por indígenas e não indígenas.

Kuarup 7

PROTESTO NO KUARUP

Desde que se tem notícia do Kuarup, 2016 foi o primeiro ano em que lideranças indígenas usaram seus corpos pintados para expressar sua insatisfação com os riscos e retrocessos da política nacional indígena.

Kuarup fora Temer

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Zezé Weiss

Jornalista
Socioambiental

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