Sobre crônicas indigenistas e pensamentos dialéticos…

A semana que passou não deixará, pelo menos para mim, nenhuma saudade. Foi cheia de notícias desagradáveis, falsas moralidades e desculpas esfarrapadas por todos os lados. Isso sem contar com a tal moral hipócrita, tão em uso ultimamente que até parece ter-se tornado uma das virtudes humanas.

Sento em minha poltrona favorita para escrever a crônica da semana e me deparo com um problema: sobre o que escrever? Afinal, foi uma semana com tantas coisas acontecendo… Enquanto penso em algo ligo para a esposa. Ela não atende e lembrei que minha parceira está em atividade na terra dos Shanenawa, discutindo um interessante projeto de registro das canções tradicionais daquele povo.

Perguntaria a ela sua opinião sobre eu escrever esta semana a respeito de “educação escolar indígena”. Talvez refletir sobre a letargia que tomou conta do Aquiry nos últimos anos e que fez com que este estado, que outrora ostentou a primazia no assunto, agora dispute um espaço na lanterna, tentando recuperar-se, tendo sido ultrapassado até por outros estados que eram considerados, até alguns anos atrás, péssimos exemplos sobre o assunto. Não. Assunto muito desanimador sendo que a semana que passou já foi desmotivante demais.

Mas, pensando nesse assunto “educação escolar”, talvez, quem sabe, seria uma boa escrever sobre uma viagem que fiz ao Jordão em 2005 para discutir o projeto pedagógico das escolas indígenas, com direito  a momentos maravilhosos, como os de subida do rio.

Num daqueles trechos por terra, acompanhado do professor Tadeu Matheus, bebemos um shawã huni (cipó da arara)* e fomos caminhando rente ao rio, sobre o barranco em uma pequena trilha. O cipó fazendo efeito e o céu ficando cada vez mais colorido. As árvores ao redor cada vez mais verdes e brilhantes. Uma suave brisa, refrescante, trazendo aos meus ouvidos o som de uma flauta, que o Tadeu insistentemente tocava, treinando suas canções tradicionais, enquanto caminhava tal qual um cicerone encantado, logo à  minha frente. O som trazia uma sensação maravilhosa, costurando a harmonia de tudo ao redor…

Poderia escrever sobre como foi participar de uma festa de forró em homenagem ao dia de São Pedro, ocorrida na aldeia Cachoeira, com um som movido a bateria de carro, onde homens, mulheres, jovens e adultos, se divertiam demasiadamente. Todos pintados de jenipapo, com acessórios coloridos (bandanas pulseiras, etc), cadenciavam-se em pisadas rítmicas no chão de terra batida do grande chapéu de palha onde a festa ocorria e, onde era possível ver redes amarradas em todos os cantos, com crianças sendo embaladas por avós e mães que riam sem parar das evoluções dançantes, falando alto e apontando com muita graça para cenas diferentes como a minha tentando pegar o ritmo sem pisar nos pés de minhas acompanhantes…

Poderia, ainda, descrever o entardecer lindo do crepúsculo às margens do rio Jordão, onde o céu, matizado com nuvens azuis escuras, denunciava a chegada da noite e o frescor apoderava-se da aldeia, afastando o calor dos dias de verão. E eu sentado num banquinho perto do rio, fumando meu cachimbo me sentia a pessoa mais felizarda do mundo por estar ali, olhando toda a beleza e grandeza dessa natureza, junto com o povo Huni Kuin.
Talvez eu pudesse escrever sobre isso…

Ainda procurando motivar-me com algum tema, entro em contato com a amiga Andreia Raial, pelo “feicibuqui”, e comento que estou sem motivação para escrever e em busca de temas  mais aprazíveis. Troco uma ideia com ela sobre talvez escrever a respeito do tal projeto de “Pagamento por Serviços Ambientais” (PSA) tão alardeado por estas bandas da “terra de Galvez”, mas que é motivo de cabo de guerra entre o governo do estado e um ramo da chamada “sociedade civil organizada”,  arrefecendo amizades antigas e incandescendo ânimos de algumas pessoas mais suscetíveis.

Não. Como ela mesma citou, esse é outro assunto desanimador. Concordo e ainda cito que abordar o assunto não traria nada de positivo ou esclarecedor, assim como só aprofundaria a rusga entre os “interessados” (e não me refiro aos indígenas).

Mas, pensando sobre o assunto “ambiente”, acho  que poderia escrever sobre os avanços que vem acontecendo quanto à proteção e gestão ambiental das Terras Indígenas, através da ação dos agentes agroflorestais indígenas e o monitoramento ambiental que estes vêm fazendo.

Poderia até falar sobre a discussão interinstitucional que trata da situação da fronteira do Brasil com o Peru, que incide diretamente sobre algumas terras indígenas no território acreano. Ou ainda, comentar a feliz decisão do IBAMA de reabrir seu escritório no Juruá.

Seria legal descrever o projeto de monitoramento ambiental em execução na terra indígena dos Ashaninka do Amônia, bem como um app revolucionário que vem sendo testado por eles. Creio que seria interessante refletir sobre as mudanças climáticas e a percepção das comunidades indígenas sobre isso. É, eu poderia falar sobre isso sim.

Enquanto me decido,  recebo uma mensagem de “zap zap” da amiga Eva Puyanawa, coordenadora da FUNAI em Rio Branco, que me alerta para uma matéria sobre meu querido e velho amigo Benky Ashaninka, num dos jornais virtuais do Acre.

Vou lá na tal matéria e, apesar do título em letras garrafais, o texto não traz nada de interessante sobre ele e destaca somente que será “apadrinhado”  por um astro global num certo programa que usa um caldeirão. Ou seja, quem deveria ser o foco principal da matéria figura como coadjuvante.

Isso me deu a ideia que, de repente, esse seria o meu assunto: sobre como a imprensa, de modo geral, é inepta e não enxerga muito além dos interesses comerciais, e como a cada dia alguns nichos editoriais parecem estar se transformando em tabloides de segunda categoria ou, o que é mais triste, em folhetins partidários eivados por visões utópicas ou fantasiosas.

E no Acre, poderia refletir sobre como perderam a chance de dar mais destaque ao Benky, grande ambientalista, ganhador de prêmios na ONU, além de ser um relações públicas internacional de dar inveja a muitos diplomatas do Itamaraty e que fomentou o desenvolvimento de projetos de referência mundial sobre o assunto ambiental.
Não. Esse assunto sobre imprensa não levaria a nada de interessante mesmo.

Mas, o assunto “Benky” me fez lembrar de várias histórias bem legais que tive com ele, como algumas dezenas de trabalhos com Camarãpy**, onde tocamos violão a noite toda.

Poderia até escrever sobre uma das noites mais mágicas de minha vida, no começo da primeira década do século que estamos, enquanto passava por uma situação muito difícil tanto material quanto espiritualmente e, estando na aldeia Apiwtxa, lar do amigo Benky, numa tarde quente de setembro, comentei com ele toda a situação que vinha passando, meus pensamentos, angústias e desalentos que me assolavam no momento.

Esse o papo se deu enquanto bebíamos um piarentsy (caiçuma) à sombra de uma grande árvore, de onde víamos o rio Amônia serpenteando calmamente e, em suas águas, algumas mulheres e crianças banhavam-se, conversando alto e dando risadas bem altas.

 

Poderia neste texto, detalhar a atenção que me foi dada por ele que, junto com o Sherepiary (pajé) Aricêmio, me proporcionaram participar de um dos rituais de Camarãpy mais fortes e mais profundos que eu já houvera participado até então.

Onde, numa noite fresca e altamente estrelada com os “pinguinhos” de luz piscando no firmamento, a força do “povo japó” se manifestou em toda sua esplendorosa forma e a barreira do entendimento do que se pensa ser “real” deixou de existir.

Poderia sim descrever as sensações, visões e conselhos que ouvi e que contribuíram grandemente para o desaparecimento dos infortúnios que levaram a esta busca.
Realmente, eu poderia escrever sobre isso…

Enquanto me animo com o assunto, não pude deixar de lembrar nos assaltos funestos contra os povos indígenas, perpetrado pelos chamados “ruralistas” nesta semana que passou. Lembrei-me das distorções políticas e da conspiração lesiva e canalha que políticos vem fazendo, indiferentes ao mal que causam. Deu vontade de escrever sobre isso. Não! Sobre esses calhordas muitos já vem escrevendo, até com mais propriedade que eu.

Mas esse assunto lembrou-me de um movimento que vem a cada ano ganhando mais força: a nova juventude indígena que, imponderadas de ferramentas de comunicação e ação, vem ganhando espaços estratégicos na luta pelos direitos e pelo fortalecimento cultural dos Povos Indígenas.

Temos exemplos bem legais como a rádio Yandê; A escrita e publicação de textos em diversas plataformas de comunicação; Os cineastas indígenas, ganhadores de vários prêmios nacionais e internacionais, como por exemplo o Wewito Ashaninka, o Yube Huni Kuin, a Mara Vanessa Huni Kuin; Os “artistas” pintores como Jaider Esbell Macuxi, Ibã Huni Kuin, Edilene Sales; Hushahu Yawanawá, Moisés Ashaninka e outros.
Realmente, seria um bom tema para uma crônica.

Quando penso que posso começar a escrever, recebo um email alertando sobre uma agenda que terei na segunda-feira, com uma comitiva do Povo Yawanawá. Isso me fez refletir se acaso não seria interessante uma crônica a respeito das mudanças de paradigmas, novas concepções de mundo e de participação da mulher indígena nos espaços culturais e tradicionais nas comunidades indígenas, como, por exemplo, o caso das curandeiras e orientadoras espirituais Yawanawá (desculpem, mas não creio que o termo pajé faça jus ao que quero dizer). A história sobre como elas alcançaram este aprimoramento é algo muito bonito, e nos trazem um quadro de muita superação e aprendizado.

Poderia falar em como estas mulheres vêm contribuindo com a expansão e reconhecimento da cultura de seu povo, abrindo portas para novos projetos, reconhecimento nacional e internacional. Sobre como seu próprio povo vem atingindo um nível de sofisticação impressionante a partir do movimento cultural que tomou conta deste o início dos anos 2000. Eu já escrevi algo e poderia bem retomar a esse assunto. Realmente, bom assunto, eu poderia falar disso sim…

Abro o editor de texto, mas, como sempre faço antes de começar a escrever, passo a vista rapidamente pelas notícias do dia, no que chamo de minha “alienação diária” e vejo a desagradável notícia que um grupo de Noke Koi (Katukina) foi impedido de fazer o “vestibular”, que está ocorrendo neste mesmo dia, para o Curso Superior Indígena, da UFAC-Campus Floresta. Não puderam entrar nas dependências da universidade, pois chegaram cinco minutos após o horário estabelecido para fechamento dos portões.

Isso me fez pensar que eu poderia falar sobre essa nossa cultura urbanoide, engessada e ridícula que escraviza nossa sociedade aos ponteiros insensíveis do relógio e como isso vem sendo transformado em mais uma ferramenta de colonização e doutrinação dos povos indígenas, através de instituições e projetos que, teoricamente, deveriam apoiar e fomentar o fortalecimento desses povos. Não! Apesar do tema interessante não sinto muito ânimo com o assunto. O cansaço da semana me cobra as energias necessárias para mergulhar em assunto tão melancólico.

Mas, ao ler sobre os Noke Koi (Katukina) me  lembrei de minhas primeiras viagens para a terra indígena Campinas/Katukina, onde tive contato com as brincadeiras tradicionais como o “jogo do mamão” ou o “jogo da cana”, onde as mulheres nos mostram e provam que “sexo frágil” não passa de uma invenção ridícula de canções e obras literárias de autores que nada conheciam sobre as mulheres, pelo menos, não as indígenas.

Poderia até escrever sobre o retorno de muitas famílias Noke Koi para a região do rio Gregório, abandonando a terra, singrada de uma ponta a outra, pela BR 364. Movimento importante tanto socialmente quanto historicamente, que mostram as percepções deste povo quando ao ciclo e equilíbrio necessário para a manutenção de uma comunidade às margens dos centros urbanos ou de projetos como as rodovias federais.

Eu poderia noticiar e detalhar sobre uma sentença inédita da justiça federal em prol desse povo, que  foi a decisão judicial que obriga o estado do Acre a pagar uma indenização de quase um milhão de Reais aos Noke Koi pelo desastrado projeto “Minha Casa Minha Vida”, implementado na Terra Indígena Campinas/Katukina,  uma das terras indígenas habitadas por estes.

Terra essa que é cortada pela referida rodovia federal e que, num arroubo de experimentação do governo, resolveu-se implantar este programa na área, o que trouxe muito mais problemas que benefícios para os indígenas e para o ambiente da comunidade.

Quem sabe, até,  eu poderia descrever o interessante centro de memória que estão construindo em uma das aldeias, para homenagear os patriarcas que tanto lutaram para conseguir a demarcação de sua terra. Patriarcas estes que, no início da luta fundiária, foram caminhando de Cruzeiro do Sul até Rio Branco, em busca de ajuda da FUNAI, numa aventura de 640 quilômetros!

Pois é, eu bem que poderia escrever sobre isso… Mas me pego pensando novamente na difícil semana que passou. Chego a sentir certa melancolia quando, ao ler algo, me deparo com uma frase que já resume o que, afinal de contas, além de me animar, resumiria a mensagem que gostaria de passar aos leitores nesta semana: Acredito que nas marés de incerteza sempre se têm uma onda de boas notícias. (Alessandra Piassarollo).

Olho para a quantidade de páginas do editor de textos que aparecem na tela do meu computador e me pergunto: Será que escrevi sobre alguma coisa hoje?

 

ANOTE AÍ:

Jairo Lima, escritor e indigenista acreano, publica seus escritos semanalmente em seu blog www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br . Por gentileza de Jairo, suas crônicas são reproduzidas aqui, no site da revista Xapuri.

* Shawã Huni é um dos tipos de ayahuasca preparados pelos Huni Kuin e geralmente usado quando se tem que fazer uma viagem longa. Ajuda a “passar o tempo”, e a apreciar melhor o ambiente ao redor.

** Camarãpy – É como o Povo Ashaninka denomina a ayahuasca.
As fotos utilizadas nesta matéria foram selecionadas por Jairo Lima e são da autoria de:

Foto 1 –  Capa – Autor desconhecido; Foto 2 – Fernando Paçó;
Foto 3: Assis Kaxinawá; Foto 4: Benky Ashanika – Foto: Missionários.org;
Foto 5: Sérgio Vale; Foto 6: Acervo Biraci Jr; Foto 7: Helio Carlos Melo.
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