Contra a opressão do esporro, a liberdade do gozo –

Por Leticia Bartholo –

Você devia escrever sobre o ejaculador público  – disse-me ontem Camile.

Eu disse a ela que tentaria, mas no mesmo momento tomou-me a sensação de silêncio. A mesma que senti, quando não pude sequer comentar sobre Bertolucci e seu estupro embalado por tango em Paris. É que a violência sexual às vezes choca a tal ponto que silencia. A garganta quer gritar, mas emudece perplexa.

O meu primeiro contato com ejaculadores públicos se deu ainda menina. Morávamos na 703 Sul, em Brasília, e os chamávamos de “tarados”. Cuidado, dizíamos umas às outras, parece que tem um tarado ali atrás da árvore. Os tarados eram aqueles homens que observavam-nos brincar e então tiravam o pau pra fora e começavam a se masturbar correndo atrás da gente. A gente corria mais rápido e sempre achava um lugar seguro para se esconder.

Mas nem sempre há lugares seguros que nos livrem do esporro. Esporro não é palava boa, todo mundo sabe disso. E o esporro persegue a condição feminina. Nos esporram quando nos submetem, quando nos cerceiam, quando nos abusam. O rapaz, profissional no tema, esporrou na moça. E então veio um juizeco branco e rico e esporrou seu veredito torpe.

O que não sabem os tristes esporradores de plantão pro azar nosso e deles, é a delícia da natureza do gozo. Do gozo solitário ou conjunto. Do gozo afetivo. Do gozo que não se acovarda. Do gozo de um abraço verdadeiro no parceiro, ou num irmão. Ou na parceira e na irmã, como for mais doce.

E que saibam: nenhum esporro vai calar nosso gozo. Porque, batalhando juntas, nós ainda vamos gozar a liberdade. Anexe-se este aviso nos autos: nosso gozo de luta um dia há de calar a opressão do esporro. E não é preciso dizer assim seja, porque certamente assim será.

ANOTE AÍ:

Texto de Leticia Bartholo – Socióloga. Gestora Federal. Mãe de uma menina e de um adolescente.

Arte: PXEIRA – Sociólogo. Rabiscador. Pai de dois meninos.

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