Eu não aguento mais morrer!

“Eu queria viver! Eu tinha tantos sonhos, sabia?”

Por: Maria Meirelles

Eu não aguento mais ser assassinada e ouvir da sociedade que a causa mortis foi “paixão”. “Mais uma vítima de crime passional”, dizem, enquanto observam meu corpo sem vida, ensanguentado, dilacerado e marcado pelo ódio do homem que um dia chamei de “amor”.

Todos me ouviram gritar por socorro, mas preferiram não se envolver. Afinal, em “briga de marido e mulher não se mete a colher”. Aumentaram o volume da TV, ligaram o som e deram um jeito de abafar meus pedidos desesperados de ajuda.

Eu queria viver! Eu tinha tantos sonhos, sabia?

Entrei para a estatística a contragosto, e não venha me dizer que a culpa é minha! Você já viveu um relacionamento abusivo? Ele ameaçava a mim, meus filhos, amigos, parentes. E quando juntava forças para ir, e, quem sabe, romper o ciclo, você (sociedade) me culpava pela “família destroçada”, e assim eu fui ficando, ficando, ficando… até ser vítima de feminicídio.

Não me chame de covarde!

Tomei coragem e disse o que sentia. Não aguentava conviver com tanta infelicidade e opressão. Já tinha ouvido histórias de casais separados e, apesar de tudo, poderíamos nos tornar amigos. “Quero a separação! ”, vomitei a frase tantas vezes ensaiada no espelho.

De repente, tudo ficou escuro. Abri os olhos devagar e pude observar os pés dele inquietos. No paladar, um gosto estranho. Era sangue! E, mesmo com a audição comprometida pelo zumbido dos socos, que ainda ecoavam, ouvi em tom ameaçador: “Se você não for minha, não será de mais ninguém! ”.

Afinal de contas, você e ele me tratavam assim: como propriedade. Ditavam minhas roupas, lugares a frequentar, pessoas (quase nenhuma) com quem me relacionar, horários e compromissos a cumprir. Os afazeres domésticos eram de minha responsabilidade, assim como a educação dos filhos e “os deveres matrimoniais”, mesmo quando não estava disposta.

Por que vocês nunca me disseram que sexo sem consentimento é estupro? Por que me deixaram acreditar que ciúmes e amor são a mesma coisa, quando o termo correto é violência? Por que ignoraram meus pedidos de socorro? Por que preferiram fingir que as marcas no meu corpo eram acidentais, já que todos ouviam quando ele me batia? Por que me deixaram ser assassinada?

História ou ficção? O relato podia ser de uma vítima de feminicídio, caso lhe tivesse sido dada a oportunidade de falar e de ser ouvida. Mas é meu, pois quando uma mulher é assassinada, parte de mim também morre. E eu, sociedade, já não aguento mais conviver com cadáveres!

Apesar de possuir uma das legislações mais completas do mundo (Lei Maria da Penha), o Brasil encontra-se entre os dez países com maior taxa de violência contra a mulher, ocupando a quinta posição no ranking do Mapa da Violência (2017). De acordo com o estudo, em média, doze mulheres são assassinadas diariamente.

E a verdadeira causa mortis não é amor. Morremos por termos nascido mulheres numa sociedade machista e misógina, em que clamores de ajuda são ignorados. Somos assassinadas porque você, sociedade, alimenta a ideia de que sou dele, sua ou de alguém, mas nunca minha!

Morremos todos os dias porque, mesmo eu não tendo “direito a nada”, a permanência numa relação abusiva é “escolha” minha – logo, você não pode fazer nada, a não ser lamentar as 30 facadas, o tiro, a “queda” do quarto andar, a asfixia, o estupro, a violência que transformou minha vida em estatística.

Eu não aguento mais morrer!

 

 

ANOTE:

Maria Meirelles é jornalista e feminista

Imagem interna: Cândido Portinari – As Lavadeiras (1944) – Reprodução: Obvious.

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