Sobre os sagrados mistérios de buscas, iluminação e cura…

“O Sol que brilha na colina espalha seus raios de amor

È o maestro da sinfonia que transforma Luz em Cor

São as cores da realeza, onipresença do criador

Seu pincel fez a natureza, sagrado quadro de esplendor

Conhecendo esta pintura e sua beleza que nos desperta

Eu encontro a minha cura na formosura da floresta

 Chandra Lacombe – “Pintura Sagrada”, excerto, Hinário o Rosário 

Esse trecho me veio à mente enquanto revisava o Capítulo VIII de um dos meus diários, no qual venho trabalhando preguiçosamente, com fins de disponibilizá-lo para uma publicação futura.

Neste capítulo, eu, com meus vinte e sete anos, peregrinava pelos Andes na Bolívia e Peru, menos a trabalho (pois era o motivo oficial daquela viagem) e mais por estar em busca de “algo”, que eu não sabia direito o que era de início mas que, ao longo da jornada, acabou por se mostrar perfeitamente claro: eu estava em busca de uma “cura”, e essa cura nada mais era que a busca por mim mesmo. Eterna questão que assombra o Homem desde os primórdios de sua iluminação mental, quando nos demos conta do “eu”.

Essa foi uma das poucas viagens do tipo que fiz acompanhado, pois, geralmente, ia para as aldeias ou outros itinerários mais exóticos sozinho. “Cada um tem a cura que seu corpo e espírito precisam. Muitas vezes, esta cura é entender que não se está enfermo, que não está sozinho em sua busca. Muitas vezes essa cura é curar-se de si mesmo; Outras vezes é curar o espírito quando a matéria já se encontra em provação”. Anotei essas palavras ao final do referido capítulo.

Acordei com a melodia da canção acima, embalando meus pensamentos ainda entorpecidos ao amanhecer. Fiquei deitado, despertando aos poucos e pensando não só na canção como, também, reavivando as lembranças daquela aventura andina.

Nisso, meus pensamentos levaram-me a refletir sobre outra peregrinação, dessa vez a de uma querida amiga, em seu processo de purgação dos males da matéria, que por vezes tentam nos emboscar, e diminuir nosso tempo de missão neste palco de lutas humanas, onde alguns se recusam em bailar ao som descompassado de uma orquestra que insiste em nos cadenciar em outro ritmo.

Sei muito bem o que é isso, ir ao encontro da natureza, das forças da floresta, indo longe, muito longe, como diz a canção do grande Moisés Ashaninka: “eu vou em busca de um pajé, para fazer uma cura pra me curar”. Por vezes não se trata de curar a matéria, mas, sim, de curar e refazer o espírito das difíceis provas passadas durante um processo de cura do corpo. Aí é onde está a ciência da cura e da pureza, que limpa a matéria e fortalece o espírito.

Por isso é importante muito cuidado nessas buscas. Não necessariamente precisa-se saber diretamente o quê quer curar, nem o porquê, mas sim, sentir que precisa de uma cura e, acima de tudo, é preciso ter certeza de que está entregando seu corpo e espírito ao curador certo.

Em terra de muitos profetas, aquele que passa despercebido é por vezes quem mais ilumina a si mesmo e a quem se entrega aos seus cuidados.

Sempre tive a convicção de que a pessoa deve buscar a si mesma, encontrar-se e conhecer-se. Essa busca é constante e segue por toda a trajetória de vida da pessoa. Claro que muitos não atentam para isso, deixam passar a si mesmos e perdem-se em si. “Conhece a ti mesmo” (gnōthi seauton), já nos alertava o Oráculo de Delfos. Nessa busca, cada um encontra o caminho que mais lhe cabe, o meu, no caso foi a tranquilidade, a profundidade e o mistério da floresta, com seus povos originários e suas tradições.

Por isso, raramente acredito nesses parangolés de verdades prontas que por vezes nos tentam enfiar goela abaixo, através de dogmas e doutrinas que não nos conectam com nossa força geradora, ou seja, a natureza. Não nos deixam ver o sol de esplendor, nem as belezas do sagrado quadro de esplendor.

Assim como também, não me deixo enfeitiçar por xamãs e gurus auto-intitulados, que tendem a vender-se tal qual uma mercadoria barata ou um placebo, cantarolando rimas pobres e emendadas ou agitando-se tal qual uma centopeia desvairada. É preciso ter olhos abertos para os aproveitadores da carência e vulnerabilidade alheia.

Nessa busca de cura, também, é preciso cuidado com o uso das medicinas sagradas, principalmente aquelas sobre as quais não se tem familiaridade, ou uma base mínima de conhecimento sobre a mesma. A regra para mim sempre foi: se o aplicador da medicina não sabe explicar com precisão para que ela serve, seus efeitos colaterais e reações com conteúdo e conhecimento, limitando-se somente a dizer que serve “para tudo, como abrir caminhos e curar”, pode ter certeza que não me submeto a experimentá-la.

É bom esclarecer que, no que concerne às medicinas largamente conhecidas pelos povos indígenas, o cabedal de possibilidades são vários. Não existe só o tripé ayahuasca-rapé-sananga. Não! Tem os chás, oblações, defumações, dietas, etc. Aí vemos anúncios de trabalhos e aplicações de medicinas, sempre com este tripé, como base para todas as doenças previstas na tabela de código da  CID (Classificação Internacional de Doenças) ou no panteão de pecados e enfermidades espirituais existentes. É algo como ir se consultar com um médico que só receita dipirona, água boricada e purgante.

Já vi uma amiga se dirigir para um tratamento entre os Puyanawa, com o Shayná Joel Puyanawa e este tratá-la somente à base de chás.

Quando se vai a um desses rituais anunciados já citando o que vai “rolar”, é claro que os interessados vão atrás mais das medicinas que, propriamente, dos curadores. Afinal, estarão pagando pela coisa e, logicamente, querem ter acesso a esta medicinas. Fica a questão: se anunciasse só a presença do “pajé”, sem citar qualquer uma das medicinas disponíveis, será que haveria busca pelo atendimento? – Quem souber me responda, por favor.

Valorizar a cultura xamânica indígena, seja do povo que for, é submeter-se à sua finalidade e meios de alcançá-la.

Também desconfio extremamente do chamado “sagrado de boutique” ou, como bem definiu uma amiga “o sagrado chic”. Geralmente pasteurizado e cheio de penduricalhos desnecessários, onde os rituais mais se assemelha a uma peça teatral do que propriamente a algo que sirva para alguma coisa (iluminação, estudo do sagrado, cura, instrução, etc). Tá, vai lá que estou parecendo muito purista ou “reaça”, mas convenhamos que ostentação e sincretismo demais é muita “forçação”. Já cheguei a me retirar de um ritual quando quem estava “à frente” apareceu de cocar e usando sombras nos olhos e batom (não, a figura não era indígena, claro).

Buscar a “iluminação espiritual” é sim buscar uma cura, afinal, só se busca iluminar aquilo que não está claro ou que, por vezes, nossos “olhos” estejam embaraçados demais para ver. Não tem nada de errado participar de rituais, desde que estes sejam feitos de maneira séria e com finalidade séria. Não se brinca com o espírito, as crenças e as vulnerabilidades de ninguém.

Na contramão dessa pasteurização do sagrado vejo, por outro lado, alguns centros e pessoas sérias buscando valorizar e dar espaço para os rituais e atendimentos de curadores e demais divulgadores da cultura indígena, onde são apresentadas as medicinas através de conversa e orientação sobre as mesmas, assim como atendimentos onde não se especifica, de antemão quais medicinas serão empregadas a cada atendido. Acho isso bom, justo e sério não só para com os que buscam, como, também para a cultura de onde se originou o conhecimento e as técnicas empregadas.

O conhecimento e a força indígena vêm da natureza primeva de onde se originou: da água dos rios; das profundezas do verde interminável da floresta; do yuxin (espírito) dos animais; Da terra que tudo dá, tudo provê e que ao final cobra o retorno dos seres ao seu seio, sem regalias, sem ostentações, sem lápides de mármore. Natureza que cria e recria-se em cada momento e que mantém seus ensinamentos, mistérios e forças em constante movimento de renovação.

O que posso dizer, é que sempre senti uma indizível alegria, toda vez que entro em um barco em direção aos locais mais remotos e puros da natureza. Uma sensação de liberdade e renovação ao sentir a brisa no rosto quando se avança em direção a um destino que, antes de mais nada,  foi e sempre será, para mim o caminho sagrado que escolhi e que o guardo em meu coração, no silêncio, dignidade e respeito.

Volto o pensamento à minha amiga querida. Sua jornada se aproxima e a mãe natureza a receberá justamente nesse processo de renovação. Ela deitará em seu colo e receberá sua cura, certamente, provinda de mãos sábias de quem sempre buscou tratar com infinito respeito todos os ensinamentos aprendidos junto aos curadores de seu povo.

Como notaram, ao longo de todo o texto não indiquei quem seria esta amiga, menos ainda onde e quem a receberá. Não precisa. Ela, assim como quem a receberá, e outros tantos que venho acompanhando nestes vinte anos de caminhada sempre trilhou o caminho do que está “oculto”, devidamente protegido pelo silêncio. Não é à toa que o símbolo mais comumente usado para o conhecimento oculto é o “olho que tudo vê”, em vez da “boca que tudo fala”. Levando em consideração os novos tempos virtuais onde se conversa usando dedos e olhos, podemos considerar esta “boca” como sendo as plataformas de interação social.

Sei que minha querida amiga não lerá este texto antes de seu retorno, não importa. Meu pensamento com ela estará, assim como minhas preces, energias e sentimentos. Sei que ela voltará bem, renovada e curada, com a cura que lhe caberá nesse processo.

E assim como termina a canção que o inicia, este texto termina com minha crença que, assim como eu, ela também sempre encontrará sua cura na formosura da floresta.

ANOTE AÍ:

 

 

Jairo Lima, indigenista, escritor, filósofo acreano e parceiros da Xapuri, publica seus textos em seu blog www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br  . As fotos utilizadas nesta matéria foram escolhidas por Jairo e são da autoria de:

Fotos 1 (capa), 2, 3 e 4: Arison Jardim, SECOM-Acre. Foto 5: Beth Lins Specht

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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