Por Maria Aparecida Hamu Opa

A juventude de hoje questiona como era nossa vida naquela era sem TV, sem CD e sem vídeo. No entanto, pouca gente sabe, mas lazer e entretenimento não nos faltavam: piqueniques na Lagoa Feia, na Usina, nas fazendas, na Chácara dos Padres; festas religiosas com leilões e barraquinhas; bailes familiares tão constantes que, mesmo sem motivo, tudo terminava em bolero. Tínhamos também cinema e teatro, às vezes.

Certa feita, em ano que não me recordo, às novenas de Nossa Senhora da Abadia, principal festa daqueles tempos, quando moradores de todas as bandas demandavam à cidade e acampavam no mato da Bica, os leilões iam animados.

A banda de música tocava, o leiloeiro apregoava e a moçada namorava. O correio-elegante se encarregava de entregar as flechadas que Cupido disparava.

Tantos casais começaram o namoro assim. Com o coração aos pulos as moçoilas tentavam adivinhar de quem teria vindo a declaração. Entre outros dizeres lembro-me destes:

“Escrevi seu nome na areia, veio a onda e apagou

Escrevi seu nome na pedra, ela rachou

Escrevi seu nome no meu coração e até hoje ele ficou.”

Certa feita, no melhor da festança, um gaiato anunciou a notícia bomba: “Saul está entrando na cidade”. Foi aquele corre-corre e a festa acabou, pois todos corriam em demanda às suas casas.

Saul foi o cangaceiro desta região e embora não tenhamos notícias sobre sua ação nesta cidade, a sua fama de Lampião amedrontou Formosa várias vezes.

Conta-se que, naquela noite em que a notícia desbaratou o leilão, um determinado indivíduo apavorado corria para casa quando sentiu os fundos de sua calça umedecidos.

Apalpou e, sentindo a mão molhada, levou-a a altura do nariz e reconhecendo um odor característico exclamou: Socorro! Se sangue feder, estou ferido!

Maria Aparecida Hamu Opa – Professora (in memoriam) – Excerto do texto publicado, originalmente, na Revista DF Letras, Ano III, nº 25,26 – Câmara Legislativa do Distrito Federal, com edições por Iêda Vilas-Bôas.

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