Brevidade – Bolo de avó

Tempos idos. Tempos findos. Costumes que ficam. Cultura que permanece.

A gastronomia é campo seguro, solo fértil pra essa permanência. Na cozinha, do forno e fogão até a mesa, pratos diversos, de raízes fincadas séculos atrás, seguem saciando a fome e entremeando animadas prosas.

É verdade que já se foi o tempo em que era a cozinha o espaço central do diálogo nas residências. Findou-se o hábito de sentar no rabo do fogão a lenha pra “quentar frio”, de assar ovo, batata-doce ou mandioca no borralho, de prosear em volta de uma mesa, enquanto uma diligente cozinheira cuidava das massas, dos quitutes, dos chás, do café. Tempo distantes em que a matriarca da casa cuidava de abastecer a mesa, enquanto ela mesma participava dos muitos causos que ali se contavam.

Logo cedo, ainda escuro, na mesa de madeira rústica estavam os quitutes. O leite vinha do curral, e o café ficava no bule esmaltado, na chapa quente do fogão, porque garrafa térmica não existia. Mais tarde, na volta do dia, era hora da merenda, e o ritual se repetia. Bolos, biscoitos, pães de doce e de sal, presença obrigatória.

Com o tempo, algumas receitas ficaram bem mais fáceis de produzir, e uma delas é um bolo de poucos ingredientes, mas de sabor delicioso: a brevidade. O nome só pode ter sido colocado por ironia, porque quando não havia eletricidade e tampouco a batedeira elétrica, o apreciado quitute exigia paciência e muita determinação. Bater, bater, bater à mão. Bater muito e por muito tempo. Uma demora enorme e necessária, pois que senão era só gosto de ovo.

A receita que trazemos vem do Triangulo Mineiro, da fazenda Aldeia dos Índios, em São Francisco de Sales. Literalmente um bolo de avó. Era feita por Enézia Cândida de Oliveira, nos primórdios do século XX, reproduzida por suas filhas e noras. Hoje, permanece nas mesas pelas mãos de netas e bisnetas (e de algum neto ou bisneto, talvez!). Mas da dificuldade fica só a memória, pois é rápido e fácil. E delicioso, pode apostar!

INGREDIENTES

5 gemas

5 ovos inteiros

1 prato fundo pelo vinco de açúcar

1 prato fundo cheio (não de “topete”) de polvilho doce

1 pitadinha de sal

Raspas de limão (para variar e conforme a preferência, pode-se substituir por baunilha, cravo, canela)

MODO DE FAZER

Bata os ovos e o açúcar na batedeira até misturar bem. Desligue, junte o polvilho aos poucos, com cuidado, misturando com uma colher. Acrescente a pitadinha de sal e as raspas de limão. Ligue novamente a batedeira e bata até que, ao desligar, comece a formar bolhas (uns 10-15 minutos). Coloque nas formas untadas (só até a metade, porque cresce muito) e asse em forno médio por cerca de 40 minutos. É preciso ter cuidado para não ressecar (o bolo não pode dourar). Na dúvida, é só espetar um palito e retirar. Se sair limpo, está assado.

Sirva acompanhado de um bom café. Bom apetite!

Obs.: As claras que sobram podem ser aproveitadas para fazer suspiro, glacê real, pudim de claras… mas isso é papo para outra edição.

About The Author

Lúcia Resende

Mestra em Educação
Relações Públicas da ADFFOR (Associação das Pessoas com Deficiência de Formosa – Goiás)

Related Posts

Deixe uma resposta