Carne cheia: Um jeito antigo e delicioso de preparar a carne suína

Houve um tempo em que a luz elétrica não existia na zona rural. Tempo de lamparina, de candeia, de luz fraca, fumacenta. No máximo, um lampião a querosene. Pois é deste tempo o costume de guardar carne na lata, na banha, porque geladeira só existia mesmo na cidade. De freezer nem se falava.

De regra, a carne vinha do galinheiro, do chiqueiro e do mangueiro. Uma de cada vez. Peixe também, se a terra fosse perto de rio, como era o nosso caso.

Ali, nas margens do Rio Grande, comíamos dourado, jaú, pintado, piau, piapara, lambari… Mamãe era exigente e, naqueles tempos de fartura, os outros ela dispensava. Traíra, papa-terra, caranha, pacu, cascudo, piranha, estes nem pensar!

Em nossa casa mineira, o frango caipira era frequente, mas obrigatório mesmo era quando chegava visita. Aí era “estumar” o cachorro, pegar o frango, depenar, sapecar na palha de milho, cortar e preparar o molho no fogão a lenha.

Fora isso, alternadamente, abatia-se uma novilha e depois um “capado”, que é o porco castrado e submetido a regime de engorda.

No caso da novilha, preparava-se parte da carne, fazia-se muita linguiça “cuiabana”, que ficava defumando dependurada em cima do fogão, mas a maior parte era salgada e colocada ao sol para secar. Assim era possível conservar a carne por longo período, até que terminasse o último pedaço. A carne seca era sempre feita junto com arroz (carreteiro), mandioca (quibebe) ou macarrão. Finda a carne de vaca, era hora de abater o porco.

Com a carne suína o procedimento era semelhante, com algumas variações, mas um preparo era obrigatório: a carne cheia! Pronta, a carne cheia ficava na própria gordura, junto com a carne de osso, e os pedaços eram retirados, requentados na hora do consumo. Uma delícia!

É esta receita que trazemos hoje, adaptada em quantidade menor, lembrando que não é pra ser consumida com frequência, mas vez ou outra. Afinal, é muita gordura…

CARNE CHEIA

Cerca de
2,5 kg de pernil de porco. Pedir ao açougueiro para separar as peças, para rechear.

500 gramas de carne suína moída (ou bovina moída com um pouquinho de toucinho)

1 kg de toucinho picado

Sal, alho, pimenta do reino e bode (de cheiro)

MODO DE FAZER

Em uma panela grande, frite o toucinho. Separe os torresmos, deixando a gordura, e reserve. Tempere bem a carne moída com alho, sal, pimenta do reino e de cheiro. Com uma faca afiada, faça uma cavidade em cada pedaço da carne, de modo que se possa colocar o recheio. É preciso cuidar para que no início a abertura seja a menor possível e só se alargue no interior da peça de carne, isso evita que o recheio saia quando começar o cozimento. Com jeito, vá colocando a carne moída temperada pela cavidade aberta, até encher bem. Cheios os pedaços de carne, tempere com 2 ½ colheres de sal (aproximadamente) e 2 dentes de alho amassados. Em seguida, coloque tudo na panela com a gordura já morna, acrescente água até cobrir a carne e deixe cozinhar, virando de vez em quando, até que, ao espetar um garfo e puxar, a carne desfie. Durante o processo, provar e regular o sal. Se preciso, colocar mais água, aos poucos. Depois de cozida, deixar fritar a carne, virando, até dourar por completo. Retirar da panela, escorrer, fatiar e servir. Como acompanhamento, é indispensável arroz e feijão. Além disso, vão bem angu de milho verde, mandioca, abóbora, fatias de abacaxi ou o que mais a imaginação permitir.

Obs.: A sobra deve ser guardada inteira, sem fatiar, na gordura. Para servir em outra refeição, levar ao fogo, acrescentando um copo de água.

Bom apetite!

About The Author

Lúcia Resende

Mestra em Educação
Relações Públicas da ADFFOR (Associação das Pessoas com Deficiência de Formosa – Goiás)

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