Comida é Patrimônio: Em nome da higiene e dos cuidados com a saúde – e quase sempre em favor da agroindústria – utensílios domésticos populares e tradicionais vêm perdendo espaço nas cozinhas brasileiras. Hábitos seculares estão se perdendo. Pouco a pouco, a diversidade gastronômica vai-se reduzindo, num cenário repleto de fast foods e de receitas universais.

Atentos a isso, movimentos sociais, organizações e redes como o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN) acentuaram o debate sobre normas sanitárias mais inclusivas e adequadas à lógica e às dinâmicas da produção familiar e artesanal.

Há avanços, e a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 49, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), publicada em 2013, é um deles. A RDC 49 regulamenta a produção de alimentos pelos microempreendedores individuais (MEI), empreendimentos familiares rurais e empreendimentos da Economia Solidária.

Mas é preciso fazer o contraponto cultural. Daí surgiu a campanha Comida é Patrimônio, lançada recentemente, cujo símbolo é a colher de pau.

shutterstock_69329689Segundo o texto-base, “a colher de pau está impregnada de cultura, afetos, memória e sabor. É utensílio indispensável na cozinha brasileira, utilizada no dia a dia dos lares, seja no campo ou na cidade. Faz parte do ritual culinário, com seu acervo de gestuais e saberes. Segundo o sociólogo Gilberto Freyre, o artefato de madeira estava presente na culinária dos povos indígenas. Por ser um objeto emblemático e milenar, que mexe com múltiplas questões alimentares, a colher de pau foi escolhida como elemento simbólico da campanha Comida é Patrimônio, lançada pelo Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN). O ícone da colher na identidade visual da campanha representa nossa diversidade em produzir, preparar, servir e comer”.

Como parte das ações de mobilização que integram a campanha, o Fórum lançou o Manifesto Colher de Pau, de autoria do antropólogo e museólogo Raul Lody, pesquisador na área de alimentação, com diversos livros publicados e idealizador do Museu de Gastronomia Baiana.

Lody alerta que “empregar regras sanitárias sem entender os motivos acumulados na história, na sabedoria tradicional de povos, de segmentos étnicos, é apenas uma ação ‘burocrática’, que distancia o verdadeiro sentimento de comida, de comensalidade e de outros valores agregados à mesa”.

Saiba mais: Manifesto Colher de Pau

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Manifesto Colher de Pau

Pela salvaguarda das cozinhas regionais e tradicionais do Brasil, e com respeito aos acervos culinários que são também identificados nos conjuntos de objetos de madeira, metal, fibra natural trançada, cerâmica entre outros; conjuntos de objetos variados e fundamentais ao ofício de se fazer a comida e possibilitar a preservação das receitas, e ainda preservam a estética de cada prato e o seu serviço em diferentes espaços e ambientes sociais.

A comida servida à mesa, em banca, sobre esteira, sobre folha de bananeira, traz vivências das muitas experiências culturais de comensalidade nos cenários das casas, dos mercados, das feiras, dos restaurantes, dos templos, entre tantos outros.

Pela segurança alimentar e principalmente pela soberania alimentar o “Manifesto Colher de Pau” quer valorizar cada objeto, implemento de cozinha, e rituais sociais de oferecimento de comida e bebida como forma de preservação do exercício dos saberes tradicionais e identitários de famílias, regiões, segmentos étnicos, religiões; e, em destaque, a compreensão plena da importância técnica e simbólica de cada objeto.

Assim, morfologia, material, função, trazem memórias ancestrais que são definidoras das peculiaridades das culturas e dos povos que são identificados em cada objeto. Objeto vinculado ao que se entende por “patrimônio integrado” no entendimento contemporâneo de patrimônio cultural imaterial.

Respeitar e manter estes acervos materiais nas cozinhas, e nos serviços, garante os espaços de singularidade e de peculiaridade dos nossos sistemas alimentares de brasileiros, e os acervos significativos dos sabores, da construção dos paladares, ações que se dão no exercício das culturas.

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Lúcia Resende

Mestra em Educação Relações Públicas da ADFFOR (Associação das Pessoas com Deficiência de Formosa – Goiás)

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