Conheci a damurida, símbolo da culinária Macuxi, em uma comunidade indígena em Roraima, durante um Festival Wapichana-Macuxi de Damurida, no ano de 2010. Foi lá que uma damurida de tambaqui me fez suar frio e pedir arrego, já que nem o pirão de tapioca que a acompanhava foi capaz de aliviar a quentura que tomou conta da minha boca, dos meus olhos, do meu rosto inteiro.

Entre um panelão de barro e outro (são enormes e lindos!), a amiga Ivanilde Macuxi me apresentou aquele ensopado de peixe (também pode ser de caça moqueada) pra lá de condimentado. Foi também a Ivanilde quem me disse que o segredo da damurida está no molho, um caldo de tucupi que, ao contrário do tucupi normal, geralmente ralo e amarelado, depois de apurado no fogo por horas torna-se escuro e encorpado.

Mas as mulheres indígenas com quem conversei me disseram que só o tucupi não garante uma boa damurida, que o principal mesmo é temperar o caldo da damurida com o tucupi engrossado, com o cariru, uma folha amazônica, e com a pimenta, aliás, as muitas pimentas, como a murupi e a olho-de-peixe, todas muito ardidas, porque sem pimentas, pra elas, não é damurida.

Caminhando pelas barracas, onde mulheres e homens indígenas – e até crianças – degustavam suas damuridas como se fosse água de coco, soube que o prato nasceu por necessidade, que vem do tempo em que os grupos indígenas faziam longas caminhadas. Naquela época, que já ficou pra trás, as caravanas aprenderam a usar o moquém, que consiste em assar lentamente o peixe ou a caça na fumaça que sobe dos braseiros, pra que pudessem durar por mais tempo.

Juntando a carne moqueada com o caldo apimentado, assim surgiu a damurida, esse prato pra lá de quente, mas mesmo assim pra lá de delicioso, que deixa saudades pra sempre!

 

 

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