Antonio Risério: Um bravo gladiador da cultura

Cachorros e gatos no quintal, a areia da praia ao lado, sandálias havaianas e a serenidade de Itaparica, a principal cidade da ilha do mesmo nome, virada de costas pra Salvador, a metrópole da Bahia. E um notebook por perto, pra escrever. Só sai dali pra cumprir copiosa agenda de palestras, debates e outros eventos culturais Brasil afora.

Assim vive, hoje, aquele que é o mais polêmico, porque contestador, e um dos mais respeitados intelectuais da Bahia, por conta de uma produção teórica invejável e de trabalhos práticos de grande efeito. Figura de destaque – justamente, talvez, por estar sempre meio escondida – é a do poeta, antropólogo e crítico literário Antonio Risério.

Com o nome de Antonio Risério Leite Filho, ele nasceu de uma família bem estabelecida no bairro soteropolitano de Brotas, em 1953. Seu pai, advogado e jornalista, era um intelectual respeitado, que se casara com uma moça simples do sertão baiano. Ele partiu bem antes do combinado. Ela, beirando os 100 anos de idade, ainda acompanha o filho em atividades culturais e dá palpites em seus feitos, firme e forte.

Vem dessa mistura, por certo, a rebeldia do filho. Nasceu em casa, sozinho, e quando o pai chegou com a equipe médica ele já descansava ao lado da mãe, na cama. Recebeu o nome de Antonio, sem o acento circunflexo no “ó”, e largou a escola ao começar o segundo grau, por desdenhar o ambiente, digamos, acadêmico dos bancos da escola formal.

Essa mescla da sertaneja com as ideias modernas, urbanas, talvez explique também o jeitão de Risério, bastante simples, um tanto recatado, mas ao mesmo tempo alegre, esbanjando simpatia. Esmerado no trabalho, ele cuida de tudo o que faz com o mesmo refinamento com que o quilombola da Chapada Diamantina pila e torra sua deliciosa farinha de mandioca.

Ele não chegou a participar das ebulições culturais que tomaram a Bahia nos fins dos anos 1950 e na década de 60. Era criança quando Glauber Rocha liderou a invenção do Cinema Novo e, no surgimento da Tropicália, em 67, já militava no movimento secundarista. Ele, como a ex-presidente Dilma Rousseff, foi membro da Política Operária (Polop), uma organização que participou da luta armada. Em 1970, com 16 anos, ficou preso por três meses.

Autodidata, Risério optou pela poesia e por conhecer a Bahia através de outros caminhos que não o acadêmico. Formava-se, então, um movimento de jovens intelectuais, ligado à poesia concreta e à busca das raízes da vida e das gentes baianas.

Em 1972, quando Caetano Veloso e Gilberto Gil voltaram de seus dois anos de exílio na Inglaterra, esse movimento parecia ser o que havia de novo no campo cultural, na Bahia. E Caetano se aproximou de Risério. Depois, o apresentou a Gilberto Gil – e começou ali uma parceria que durou muitos anos.

Desde aquela época, Gil queria fazer um trabalho político, o que agradava ao novo parceiro. Risério e o amigo Roberto Pinho elaboraram o projeto de criação da Fundação Gregório de Mattos, encampado pela Prefeitura de Salvador. E Gil assumiu a presidência da entidade. Foram anos de um trabalho cultural que marcou época, pela defesa do patrimônio histórico e pela implantação de uma visão antropológica da cultura. Era um trabalho que, na avaliação do grupo, credenciava Gil a prefeito de Salvador.

Aquele movimento perturbou o esquema da oposição baiana de então, que era o PMDB, comandado pelo então prefeito de Salvador, Mário Kertész, e pelo governador Waldir Pires. E os dois abortaram o projeto de Gil na Prefeitura. Mas o compositor se elegeu vereador e, com a reforma partidária, passou a integrar o recém-criado Partido Verde.

Com a ducha fria, o grupo meio que se estilhaçou e cada um foi cuidar de outros projetos. Pinho e Risério foram trabalhar na implantação da rede de hospitais Sarah Kubitschek, cuja sede fica em Brasília. Isso fez com que Risério se mudasse pra Brasília, onde passou a coordenar o Centro de Pesquisa do Sarah, voltado ao desenvolvimento de tecnologias no atendimento a pessoas com deficiência física.

Já naquela época, como algumas universidades, em São Paulo e na Bahia, haviam adotado livros seus em cursos de pós-graduação, Risério pleiteou o direito de defender, ele próprio, uma tese de mestrado. Apoiado por grande número de intelectuais, ele preparou uma tese, que foi submetida a uma banca da Universidade Federal da Bahia e virou mais um livro: Avant-garde na Bahia. E, assim, ele ganhou um canudo de mestrado.

Isso, porém, não fez com que sufocasse sua aversão ao mundo acadêmico. A ausência do debate, a ritualística, o corporativismo, o carreirismo e outros ismos da universidade o fazem ficar longe dela. Sua obra, entretanto, é de um rigor de fazer inveja na academia.

Na primeira campanha vitoriosa de Lula à Presidência, em 2002, ele se empenhou com ideias e textos, a pedido do publicitário Duda Mendonça. E, quando Gilberto Gil assumiu o posto de ministro da Cultura, o chamou pra integrar a equipe do Ministério. Ele não perguntou o que iria fazer, nem quanto iria ganhar. Fez as malas e seguiu pra Brasília.

No MinC, ele ocupou por um ano o cargo de assessor especial, função que o permitiu ficar afastado da burocracia, com liberdade pra fazer com que as ideias, muito mais do que os papéis, circulassem com desenvoltura. No entanto, achou injusta a demissão de seu parceiro Roberto Pinho e também deixou o ministério. Desde então, suas relações com o amigo Gil azedaram.

A partir dali, foi cuidar da vida, embrenhando-se num sem-número de atividades. Duas delas se destacam pela transcendência que têm na preservação da cultura brasileira. Uma, é a dos projetos gerais do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que nos explica porque falamos Português. Outra, a do Cais do Sertão Luiz Gonzaga, em Recife, moderno espaço cultural do Pernambuco.

Embora sendo a Antropologia seu ancoradouro mais permanente, no campo da produção intelectual, Risério navega com desenvoltura por muitas outras águas. Em quase duas dezenas de livros publicados, mais uma infinidade de capítulos em obras coletivas e artigos em jornais e revistas, Risério esbanja erudição. No campo da poesia, a habilidade no manejo da língua, o talento e a sensibilidade dão a ele o direito de ser chamado de poeta, com P maiúsculo.

Nos últimos anos, ganhou notabilidade também como crítico literário, o que ele põe em dúvida. “Não sei se o que faço é exatamente ‘crítica literária’; sou um intelectual, um escritor culto, que eventualmente escreve sobre livros”, disse ele quando lhe indaguei sobre isso.

Mas contesta com maior firmeza aqueles que dizem haver séria crise na literatura ficcional brasileira. Resume assim sua posição:

– “Penso que não. O problema é a obsessão quantitativista. Mas, veja bem, o modernismo de 22 não produziu mais do que meia dúzia de escritores. Hoje, entre poetas e prosadores, temos um mesmo número de bons autores. E é assim mesmo.”

Em suas andanças pelo Brasil, ele centra fogo nos partidos políticos, indiscriminadamente, acusando-os de embotarem a verdadeira participação popular nas questões nacionais. Mas diz acreditar que “o Brasil que mais interessa sempre aconteceu à revelia do Estado”.

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Jaime Sautchuk

Jornalista. Escritor

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