Aos 78 anos de idade, o humorista José Eugênio Soares, ou apenas Jô Soares, desde o mês passado não alegra mais as madrugadas na Rede Globo, mas promete não abandonar a telinha. A decisão de encerrar o contrato foi da emissora, que nunca explicou direito as razões do rompimento a nós, mortais.

Contudo, alguns jornalistas que acompanham os bastidores das TVs dizem que a atual direção global acha que Jô tem uma audiência meio intelectualizada, mais restrita em número de espectadores, portanto. Mas há indícios de outros motivos pra que a empresa apressasse a decisão, que já vinha sendo maturada.

A opinião do apresentador sobre a conjuntura política nacional, por exemplo, difere bastante daquela defendida pela Globo. O caso mais notório ocorreu no período pré-impeachment de Dilma Rousseff, quando a emissora se empenhava abertamente em favor da derrubada do governo constituído.

Em meio ao tiroteio propagado pela mídia, ele pediu uma audiência com a ex-presidente, em que manifestou publicamente seu apoio a ela. O encontro foi realizado no Palácio do Planalto, em Brasília, e bastante divulgado pela mídia, especialmente pelo Canal Brasil, a rede pública de TV, e pelas redes sociais na Internet.

O evento desagradou profundamente a cúpula da Globo, incomodada com tamanha autonomia de seu contratado. Logo ela, que impõe rígido controle sobre o conteúdo de sua programação jornalística. Jô, por seu lado, disse em entrevistas que tirava um peso da consciência, em prol da estabilidade institucional do país.

No entanto, em um dia da semana, o Programa do Jô contava com a participação das “meninas do Jô”, um grupo de mulheres jornalistas, de outros veículos, que faziam o contraponto. Defendiam ideias em favor do movimento golpista que estava em curso.

Esse grupo foi criado, em verdade, em 2005, com a finalidade de quebrar a presença soberana do Jô como personagem central do programa. Quebrava, na prática, a estrutura central e o próprio cenário do horário, colocando um debate em lugar das entrevistas.

No último programa, dia 16 de dezembro passado, Jô promoveu uma única entrevista, que foi um bate-papo com o veterano cartunista Ziraldo Alves Pinto, o Ziraldo, criador de clássicos como “A Turma do Pererê” e o “Menino Maluquinho”, dentre tantos. Um programa histórico, de muita cultura, muitas gargalhadas e lágrimas de Jô ao final.

Hoje com 85 anos, Ziraldo fez lembrar dos tempos da ditadura, em que ele foi um dos editores do semanário “O Pasquim”, de humor e crítica, e das incontáveis vezes em que foi preso pelos detentores do poder. Vieram à tona, também, as peripécias de Jô em sua rica trajetória profissional e de vida pessoal.

Nessa caminhada, desde muito jovem, com muita perspicácia e alegria, Jô Soares tirou proveito da sua própria obesidade, característica física que pra muitos vira drama. “Viva o Gordo”, de 1981, por exemplo, foi seu primeiro programa solo na TV.

Na mesma época, ele usou esse mote no espetáculo teatral “Viva o Gordo, Abaixo o Regime”, que era também uma crítica explícita ao regime militar ainda em vigor, então. O viés político, aliás, sempre foi uma das marcas de seu trabalho, ainda que de forma bem dissimulada.

Outra de suas características é de interferir nos textos dos programas em que atua, mesmo que não estejam sob sua responsabilidade. Assim foi desde sua primeira aparição na TV, no programa “Família Trapo”, protagonizado pelo hilariante Ronald Golias e escrito pelo finado Carlos Alberto da Nóbrega, que foi ar entre 1967 e 1970, pela TV Record-SP. Jô era o mordomo.

Nóbrega havia criado o “Baú da Felicidade”, um misto de vendas e divertimento, mas vendeu sua parte ao seu sócio, Sílvio Santos, que tornou o programa o carro-chefe da emissora que criou, o SBT. A amizade, porém, permitiu a Nóbrega sugerir a Sílvio a contratação de Jô pra um programa de entrevistas, que era seu sonho, mas a Globo não aceitava fazer.

Assim, nasceu o “Jô Soares Onze e Meia”, grande sucesso que durou onze anos, de 1988 a 1999, quando ele voltou à emissora do plim-plim pra apresentar o “Programa do Jô”, fase agora encerrada. Esse percurso, entretanto, é entremeado de peças teatrais, filmes, programas especiais e os sete livros que já escreveu.

No final das contas, classificá-lo de “humorista” é muito pouco. Ele é multifacetado. É também jornalista, apresentador, comentarista, escritor, roteirista, dramaturgo, ator, diretor teatral, artista plástico, músico e muito mais do que precisaria uma pessoa que passou a infância e adolescência estudando pra ser diplomata, como ele.

José Eugênio Soares nasceu no Rio de Janeiro, filho único de berço requintado, mas instável financeiramente. Seu pai, o paraibano Orlando Soares era um grande corretor de seguros, que morou muitos anos no exterior. No Brasil, oscilava entre morar no luxuoso Copacabana Palace Hotel e em apartamentos alugados. Sua mãe, Mercedes Leal, era uma dona de casa de muita cultura.

Mimado, comilão, Jô é obeso desde criança, o que o fez vítima de bullying nas escolas e o fazia chorar com frequência. Inteligência fora do comum e muita leitura, porém, o tornavam admirado. Estudou nos colégios São Bento, no Rio, São José, em Petrópolis, e, dos 12 aos 17 anos, em escola na Suíça. Fala cinco línguas.

Desde muito jovem, chamava a atenção por sua verve humorística, o que o aproximou do meio artístico e abriu as primeiras portas no teatro, cinema e TV. Sua primeira atuação no cinema foi no clássico “Pé na Tábua”, longa-metragem de Victor Lima, de 1958, com roteiro de Chico Anysio. Desde então, atuou em outros 21 longas.

Dentre os livros que já escreveu, o destaque é o romance “Xangô de Baker Street”, comédia ambientada no século 19. D. Pedro II chama o famoso Sherlock Holmes pra investigar o roubo de um violino na corte, mas o detetive inglês se envolve numa série de presepadas com a boemia carioca, comidas exóticas e pais de santo. A obra foi publicada em vários países e virou filme, de que o autor participa.

Jô Soares se casou muito jovem, em 1959, com a atriz Teresa Austregésilo, com quem viveu por 20 anos. Tiveram um filho, Rafael, que era autista e faleceu em 2014. Depois, manteve vários outros casos amorosos com atrizes, com durações bem mais curtas.

Ele diz não temer a morte, por ser inexorável. Mas teme parar de trabalhar. Por isso, agora promete seguir em frente e parece ter aceitado convite feito por Sílvio Santos, pra que volte ao SBT. O conteúdo e formato do novo programa ainda é mantido em sigilo pelas partes envolvidas.

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Jaime Sautchuk

Jornalista. Escritor

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