Ninguém sabe ao certo a mágica que ele faz. Mas, no emaranhado, na verdadeira feira de negócios que virou o futebol brasileiro, ele consegue pegar equipes esfaceladas e, juntando palitos, moldando personagens como santos de barro do Mestre Vitalino, surgem times que fazem o encanto de galeras.

Os próprios adversários temem seu jeitão simples e sereno. O problema é que esses adversários, hoje em dia, são as seleções nacionais que disputam com o Brasil a classificação à Copa do Mundo de Futebol de 2018, que será realizada na Rússia.

Filho da extensa colônia italiana do estado, o gaúcho Adenor Leonardo Bacchi, mais conhecido como Tite, nasceu na cidade de Caxias do Sul, em 25 de maio de 1961. Como jogador de futebol teve uma carreira de pouco brilho e breve existência.

Parou de jogar aos 28 anos, após uma série de problemas nas pernas que culminaram com a ruptura de ligamento do joelho esquerdo, praticamente imobilizado desde então. Começou em 1978 e jogou muitos anos no Caxias, até ser vendido ao Esportivo, de Bento Gonçalves, em 1984.

Com rápida passagem pela Portuguesa Paulista, dois anos depois foi bater no Guarani de Campinas, onde ficou até encerrar a carreira. Ali mesmo, cursou Educação Física na Universidade Católica (PUC), mas, ao se formar, voltou pra sua terra natal. Principiava, então, a carreira de treinador.

Começou humildemente em 1990, dirigindo o Guarany, de Garibaldi, e por dez anos percorreu vários times do interior rio-grandense, até ser campeão estadual com o Caxias, em 2000. O sucesso não estava no título, mas nos dois craques que ele revelava ao mundo: Cláudio Pitbull e, com mais destaque, Ronaldinho Gaúcho.

O Grêmio, time que ele havia abatido na final, tratou de contratar todos, o técnico e os craques. Assim, já no ano seguinte foi campeão estadual e da Copa do Brasil, vencendo justamente o Corinthians Paulista, equipe que anos depois, entre idas e vindas, viria a se tornar a grande casa de Tite.

Sua primeira passagem pela esquadra corintiana, em 2004, revelou alguns aspectos de sua personalidade. O time estava à beira do rebaixamento, mas terminou o ano em 5º lugar no campeonato e já estava armado pra ser campeão brasileiro no ano seguinte, como de fato veio a ocorrer.

Mas, naquele ano, o Corinthians foi tomado de assalto pelo empresário anglo-iraniano Kia Joorabchian, dono da polêmica empresa esportiva MSI. Ele comprou uma série de jogadores estrangeiros, inclusive o argentino Carlito Tévez, e formou uma equipe de “galácticos”, como ficou conhecida.

Desde logo, Tite não cruzou os bigodes com Kia, que ele achava um grande trambiqueiro e que, de quebra, começou a interferir na escalação do time. “Ele pode ser o dono do time, mas o técnico sou eu”, disse ele ao pedir demissão.

A direção do clube, tendo à frente Roberto Dualib, acabou sendo alvo de processo do Ministério Público, com prisões, confisco de bens e acusação de “formação de quadrilha”. Os chefes eram Kia, Dualib e um israelense de nome Pini Zahavi.

Mas Tite já estava longe dessa gente. Após rápida passagem pelo Atlético Mineiro, pôs ordem na casa em outras grandes equipes do país. As principais foram as do Palmeiras, de São Paulo, e do Internacional, de Porto Alegre. Entretanto, seu olhar e certamente seu coração, sempre voltados ao Corinthians.

Mas a hora não tardou a chegar. Ele pegou o time em meados de 2010, com o Campeonato Brasileiro em andamento e a ameaça de rebaixamento de novo rondando. Com dez vitórias seguidas, porém, ele deu a volta por cima e chegou ao 3º lugar, garantindo uma vaga na Libertadores da América do ano seguinte.

No recesso de fim de ano, pra variar, o Corinthians vendeu seus principais jogadores a times europeus e ele teve que recomeçar o trabalho. Mas deu tudo certo. Venceu o Brasileirão daquele ano e a Libertadores do período seguinte, pela primeira vez na história do time. Faltava então o Campeonato Mundial de Clubes, que o Coringão também ganhou, outro feito inédito.

O ano de 2013, contudo, não foi lá essas coisas. Começou com um jogo contra o San José, na Bolívia, onde houve confusão em que morreu um menino boliviano atingido por fogos. Severo crítico da violência em estádios, ele lamentou publicamente:

– Esporte é outra coisa. Estamos muito sentidos. Trocaria meu título mundial pela vida do menino. Eu trocaria!

Ao final do ano, o Corinthians não renovou seu contrato. Ele ficou quieto e foi pra casa “cuidar da família”, como dizia. Seu pai e grande incentivador havia morrido e a mãe, dona Ivone, passada dos 80, era orgulhosa pelo sucesso do filho, mas o queria por perto.

Lá atrás, aos 22 anos, quando foi pra Campinas, Tite já havia se casado com Rosmari, que tinha 18 e é sua companheira até hoje, pra o que der e vier. E tinha um casal de filhos, hoje adultos. Em Caxias, andava solto e descontraído, mas aproveitou o ano pra viajar pelo mundo, observando e estudando futebol.

Após o estonteante fiasco da Copa do Mundo do Brasil, com direito ao 7 a 1 pra Alemanha, muito se falava de sua provável ida pro comando da seleção canarinha, mas nada. A CBF, sem explicações, escalou Dunga, e o Tite foi chamado a reassumir o Corinthians, que estava desfalcado de jogadores com alguma experiência.

O ano começou difícil, mas o alvinegro das multidões foi campeão do Brasileirão com três rodadas de antecedência. Era ele de volta.

E a seleção, sob o comando de Dunga, ia se encaminhando à desclassificação, com jeito de que o País iria ficar pela primeira vez fora de uma Copa do Mundo, desde a primeira, em 1930.

Mas, a CBF atendeu ao clamor popular, ecoado na mídia, e finalmente chamou Tite pro cargo. Logo nos primeiros jogos, ele reverteu a situação e colocou a equipe no topo da lista.

É bem verdade que tem muita gente preocupada com o excesso de loas que dedicamos a ele. O craque Tostão, por exemplo, escreveu em suas colunas de jornal e Internet:

– “Gosto muito do Tite, mas esse endeusamento é perigoso”.

Tomara que o nosso querido Tostão esteja errado.

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Jaime Sautchuk

Jornalista. Escritor

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