Brasília é bastante pródiga em atividades que passam longe dos palácios e gabinetes. Na música, por exemplo. A capital federal foi palco da explosão do rock nos anos 1980 e sempre se fez bem presente no caipira, na MPB, no clássico, na música brega, no samba, nos ritmos das Américas e até na bossa-nova revisitada. Nenhum gênero, porém, se destacou tanto ali como o choro, décadas a fio, com repercussão nacional.

Esse fenômeno se deve principalmente ao esforço e abnegação do talentoso músico Henrique Lima Santos Filho, o Reco do Bandolim, um baiano de nascimento que virou candango e dedica sua vida ao choro. Além da destreza no instrumento que usa até em seu nome artístico, ele é um cara afável, bem-articulado, que consegue fazer muito mais do que rodas de palcos e botecos.

Reco nasceu em 1954, em Salvador (BA), mas em 1963 se mudou pra Brasília com seu pai, deputado federal cassado no ano seguinte, no Golpe de Estado. Já vinha com alguma bagagem musical. Um tio, irmão de sua mãe, era crítico de música em jornal e ia à sua casa diariamente, onde ouvia os discos que iria analisar. Ele pegava carona, e assim teve contato com a obra de muitos artistas, os grandes nomes brasileiros e estrangeiros que eram lançados.

“Mais tarde, fiquei impressionado ouvindo os discos de Jimmi Hendrix e assistindo a espetáculos de Armandinho Macedo e dos Novos Baianos”, relembra Reco. Já em Brasília, chegou a integrar bandas de rock, como guitarrista, mas conheceu Jacob do Bandolim e pegou gosto pelo instrumental brasileiro, em especial o choro – e a partir daí virou paixão. “Significa nossa alma profunda, é a primeira manifestação musical genuína, anterior ao samba, que faz nosso perfil”, completa ele.

A juventude não sabia, mas desde a inauguração, moravam ou passavam longas temporadas em Brasília, por razões diversas, alguns chorões da velha guarda. Waldir Azevedo e Bide da Flauta, por exemplo, fixaram residência. Dilermando Reis, amigo de JK, e Jacob do Bandolim, que ali tratava de problemas do coração, ficavam bons períodos. Nessas estadas, Jacob compunha músicas, dentre as quais o seu clássico “Alvorada”.

Reco se enfronhou com essa gente, como aprendiz, e logo fundou o grupo “Choro Livre”, um regional até hoje em atividade, com cinco discos gravados, contendo composições dele próprio e de outros componentes.

Em seguida, por inspiração do violonista Dilermando e de Jacob, surgiu o Clube do Choro de Brasília, criado em 1977. No começo, eram pessoas que se reuniam informalmente na casa da pianista e professora da Universidade de Brasília (UnB) Odete Ernest Dias, francesa de nascença e apaixonada pelo choro. Sua morada transpirava musicalidade, dia e noite.

Depois, o grupo se estabeleceu nos vestiários do Centro de Convenções de Brasília, um espaço público meio abandonado pelo Governo do Distrito Federal, e o revigorou, fazendo dele um atrativo no meio (ou embaixo) do Eixo Monumental, a via mais solene da capital federal. E o clube se transformou rapidamente em um centro de pesquisas dedicado à difusão deste gênero musical.

Em verdade, quase todos os críticos e pesquisadores de música em universidades e na mídia davam o choro como um gênero musical em extinção. Mesmo no Rio de Janeiro, onde ele nasceu, nas últimas décadas dos anos 1800. Foi o primeiro gênero puramente instrumental surgido no Brasil.

Era uma maneira de tocar gêneros que vinham da Europa, como polcas, valsas e mazurcas. Mas com forte influência das batidas africanas, em especial do lundu, que originou também o samba-de-roda baiano, que por sua vez é apontado como a matriz do samba.

O fato é que, hoje, todos asseguram que o movimento brasiliense deteve e reverteu esse processo. O Clube do Choro promovia várias apresentações semanais, com convidados de renome nacional, oficinas e debates. É certo que, durante dez anos, de 1983 a 1993, a entidade viveu séria crise, mas, quando voltou à plena atividade, veio com toda a carga, elegendo uma diretoria formal, que tinha Reco como seu presidente.

A partir de então, o projeto do Clube se impôs e atraiu as atenções de patrocinadores pesos-pesados, como os estatais Banco do Brasil, Petrobrás, Correios e Terracap. Esses recursos, somados à taxa de ingresso cobrada nas apresentações, é que sempre garantiram o sustento da entidade, de modo constante.

Com os programas de apoio do Ministério da Cultura (MinC) foi mais trabalhoso e demorado, mas as ajudas saíram também, de forma criativa e pródiga, que dura mais de vinte anos. Todo ano, o Clube apresenta um projeto de homenagem a algum compositor, ou em comemoração a algum evento do choro, e se dedica àquele tema por 12 meses.

A sede foi, porém, um problema que durou muitos anos até que Reco atendeu a um convite de Oscar Niemeyer e foi à sua casa, no Rio de Janeiro. Lá, o arquiteto lhe ofereceu o projeto de um novo espaço, na mesma área, que foi aceito mais que depressa, e sua construção foi bancada pelo GDF. Virou coisa fina, top de linha, no dizer de frequentadores. Mas muito popular, como sempre. Espaçosas, as novas acomodações hoje abrigam o Clube e uma série de outras atividades que giram ao seu redor.

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Desde os primeiros tempos, apesar do descaso das grandes redes, muitas apresentações do Clube são gravadas por emissoras de TV e distribuídas Brasil e mundo afora. A TV Câmara, TV Senado e o Canal Brasil, por exemplo, são emissoras que sempre perceberam a dimensão daquele som chorado que fluía por entre a suntuosidade postada no meio do Cerrado do Brasil Central. E produzem muitos programas, sempre bem aceitos em qualquer parte do Planeta.

Por essas e outras, nos últimos 20 anos, o grupo Choro Livre já se apresentou em perto de 60 países, em eventos do governo brasileiro, em festivais, ou atendendo a convites oficiais de outros governos.

Mas, falando de Reco, a gente ainda não rezou a metade do terço. Exemplo maior é a Escola Brasileira de Choro Rafael Rabello, criada na década de 1990 como uma maneira de formar novas gerações de amantes da boa música. Desde então, a escola já formou gratuitamente centenas de músicos dedicados a este gênero musical, muitos dos quais ganharam projeção no cenário artístico brasileiro.

Também neste trecho, a história é muito rica. Por injunções familiares, Rafael tinha ido morar em Brasília e se enturmou de forma muito estreita com os chorões da capital. Rafa, como era chamado, se tornou amigo de Reco, e juntos promoveram muita coisa. A preocupação de ambos era a de propagar cada vez mais o choro.

Surgiu, então, a ideia da escola, cujo projeto foi escrito com a ajuda dos jornalistas Ruy Fabiano, irmão de Rafael, e Carlos Henrique Santos, irmão mais velho de Reco. Quis o destino, porém, que Rafa partisse precocemente, e a maneira de compensar a perda foi colocar seu nome no empreendimento.

Hoje, a escola tem 28 professores e perto de mil alunos, em turmas distribuídas por horários e dias diferentes, sob a direção de um filho de Reco, o violonista 7 cordas Henrique Neto. São duas aulas semanais (uma de teoria, outra prática), com uma taxa mensal, mas 20% dos alunos são bolsistas carentes.

Aliás, a Escola teve também papel importante em aproximar o choro da Natureza. Começou por problemas práticos, pois, pra não rejeitar alunos, passou a ministrar aulas a céu aberto. A Reco e seu grupo, porém, essa não chegava a ser uma novidade, pois eles já estavam acostumados a se apresentar sob as luzes do Sol ou da Lua, por força de circunstâncias diversas ou pelo simples querer.

Além de músico, Reco é também jornalista, radialista e agitador cultural, atuando em várias frentes. Nesta última atividade, em 1980, ele criou o trio-elétrico Massa Real, versão candanga do legendário caminhão de Dodô e Osmar nas quebradas de Salvador. Nos carnavais, ele sempre ajuntou músicos de muitas procedências para eletrizar o carnaval brasiliense.

Como radialista, Reco criou e apresentou por décadas a fio o programa “Choro Livre”, na Rádio Nacional de Brasília, com uma hora semanal, retransmitido por emissoras do Brasil inteiro e de outros países. Ele se aposentou recentemente como funcionário da rádio estatal, mas pretendia seguir apresentando o programa, só que a emissora, inexplicavelmente, o tirou do ar. Foi uma grita geral da enorme plateia, e o assunto está sendo reavaliado.

Reco é Casado há 37 anos com Maria Aparecida Castro Lima Santos, e tem 3 filhos e 3 netos.

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Jaime Sautchuk

Jornalista. Escritor

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