Na década de 1970, Gessiron Alves Franco disse em uma entrevista: “quase toda criança desenha em certa época, só que eu nunca parei de desenhar”. Quarenta anos depois, ele continua “desenhando” magistralmente. E tampouco deixou de ser criança.

Siron Franco, como o conhecemos, faz da arte o instrumento das suas peraltices e do seu engajamento político-social. É um reflexo dos seus medos e visões da infância, da religiosidade da mãe, de sua ingenuidade genial, de seus sonhos e de suas loucuras. Suas obras são belíssimos panfletos. Como as de Picasso ou Portinari, aos quais Siron pode (e deve) ser comparado.

Na vida deste enorme nome da arte contemporânea tudo é muito sério. E muito alegre. Siron gosta de ser, acima de tudo, um cidadão comum. Brincalhão, sorridente, parece estar sempre feliz. Contudo, padece como os que padecem, em silêncio, solitário. Mas sempre antenado, ligado nas coisas do cotidiano.

Ele adora capitais, desde que sejam de Goiás. Nasceu em 25 de julho 1947 e passou a primeira infância em Cidade de Goiás, a antiga Vila Boa, capital do Estado até 1935. Cresceu e vive até hoje em Goiânia, que não troca por Nova Iorque nenhuma no mundo. Teve passagens por São Paulo, Brasília e Salvador. Mas é em Goiás que encontra conforto e inspiração.

Siron nasceu de família pobre, entre dez irmãos. Pai lavrador, depois barbeiro, depois cego. Mãe costureira e cozinheira de mão cheia, como é costume na Cidade de Goiás. Mudaram de mala e cuia pra capital que nascia, em 1950, em busca de novos alentos.

Em Goiânia, Siron vendeu pelas ruas os doces e pastéis que a mãe fazia. Ela o queria cursando Medicina, pra ter dinheiro e prestígio, mas ele gostava de desenhar, mesmo que com pedrinhas e tocos de lápis. E sempre foi avesso aos bancos escolares.

Morou na rua 57, aquela do ferro-velho onde a cápsula de Césio 137 fez estragos em 1987. Por coincidência ou desígnio, foi naquela ocasião que Siron se projetou definitivamente no mundo inteiro, tal a força das obras que produziu. Eram torpedos de indignação, desespero e protesto.

Morar em Goiás seria uma desvantagem a um artista, por estar fora dos centros culturais mais badalados. Mas, pra Siron, foi o que o protegeu de se alinhar a movimentos artísticos dos grandes centros. Foi o que evitou que virasse seguidor dessa ou daquela escola. Siron é Siron.

É certo que, ainda na década de 1960, participou de amostras coletivas de pintores modernistas em São Paulo, Brasília e Salvador, com seus quadros surreais, com motivos religiosos, em óleo sobre tela. Chegou a viver por dois anos em São Paulo, mas não gostou. Autodidata e bisbilhoteiro, desde cedo ele se aproximou de artistas goianos, como D. J. Oliveira, que reconheciam seu valor e o ajudavam até mesmo na compra de materiais.

Mas ele tampouco se apegou a uma única técnica. O desenho da infância virou pinturas, colagens, grafismos, esculturas ou instalações de todos os tamanhos. A pintura pra ele é um rio, que tem afluentes e defluentes. “A questão é que o tridimensional alimenta minha pintura”, ele explica.

O fato é que de qualquer coisa Siron faz arte. Mesmo espalhando 1.020 caixõezinhos fúnebres em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, em protesto contra a mortalidade infantil.

Do óleo sobre tela, sobre madeira ou sobre qualquer coisa, das obras com um caráter perene a essas instalações provisórias, tudo encanta. Ou na mistura dos dois, como o grandioso Monumento aos Povos Indígenas, na periferia de Goiânia. São 500 blocos de concreto que, no chão, formam um labirinto e, de cima, um mapa do Brasil.

Ferreira Gullar já disse que há um “lado da obra de Siron que é memória do Brasil, eco das vozes mais arcaicas de nossa história, vinda de tão longe e feita todo dia”. Da cena no armazém da esquina ao homem-bicho de suas pinturas. No pau recortado ou no ferro torcido. Na galeria ou na rua. A obra de Siron é puro Brasil.

SironÉ uma obra realmente feita todo dia, porque Siron não para. É impossível precisar quantos quadros, quantas esculturas, quantas peças Siron já produziu. As madonas que pintou no início da carreira, para sobreviver, estão espalhadas por incontáveis fazendas e residências. Eram retratos de mulheres da grã-finagem goiana, que lhe rendiam grana e relacionamentos.

Em entrevistas a jornalistas, Siron costuma ornar suas ideias com rabiscos em papéis que estiverem à mão. E essas peças são normalmente entregues aos entrevistadores. A amigos, que são muitos, ele doa esculturas e quadros para enfeitar jardins ou paredes. E não há quem consiga saber o paradeiro de tudo isso que ele produz.

Seu jeito de trabalhar, em seus ateliês ou nas ruas, é um espetáculo por si só. Além dos pincéis, espátulas e outros instrumentos, ele usa as mãos, os pés, o corpo inteiro, num gingado atabalhoado, mas preciso.

Espalha pigmentos como quem distribui quirera aos pássaros. Mesmo que esse pigmento seja ouro em pó, como nas sete máscaras fincadas às margens do rio Vermelho, em junho de 2000, na Cidade de Goiás. É uma referência aos índios goyazes, que emprestaram seu nome ao Estado, mas ninguém nunca viu seus rostos, pois foram exterminados, ainda no ciclo do ouro.

Siron tem, também, a mão firme para minúsculos detalhes em finos pincéis. Ou a disposição pra pegar vassoura, água e sabão e se juntar a um grupo de agitadores culturais na lavagem do coreto da Cidade de Goiás e dar passagem ao cinema no festival que lá se realiza.

Essa disciplina indisciplinada de Siron é que o faz tão grande artista. E que engasga seus críticos. É impossível   enquadrá-lo nas categorias acadêmicas. É um autodidata, que nasceu nas ruas, mas conhece os clássicos. E não se parece com nenhum deles, nem tampouco é primitivo. Ele próprio já é um clássico — esta é a verdade.

Como catalogar, por exemplo, o monumento, em aço recortado, na praça onde foi queimado o índio Galdino Pataxó, em Brasília? O talento exuberante, a sensibilidade aguçada e a presença no dia a dia das gentes oprimidas, e só. Mais, pra quê?

Siron acompanha o que a crítica escreve a seu respeito, mesmo quando as palavras são ácidas. Em resposta, ele lembra com satisfação a frase de sua conterrânea Cora Coralina: “Com as pedras que me atiram, construirei minha obra”.

A arte é uma viagem cujo ponto de partida é a realidade. Aonde vai chegar, ninguém sabe. Essa é a visão de Siron. Sobre ele mesmo, a resposta que deu a uma jornalista que lhe pediu para definir Siron: “Uma pessoa que não tem a menor ideia do que é, que nasceu com desejo de aprender”.

Em verdade, ele tem é muito o que ensinar. Mas também nisso está seu apego ao mundo real, ao ambiente de cada um. Ao fazer voluntariamente oficinas de arte com crianças pobres, ele normalmente trabalha com pedras. Coisas que estão no chão, diz ele, toda criança tem acesso. E isso garante a continuidade do trabalho.

Uma característica marcante em Siron é sua capacidade de criar livremente, mesmo quando são obras patrocinadas por órgãos de governos ou empresas privadas. Dois exemplos: um quadro pra Secretaria de Segurança de Goiás e um painel pro Banco de Boston.

O quadro (2,50 m x 1,80 m) foi feito de terra sobre lona e, por cima, milhares de cartuchos detonados pela polícia em ações de rua. Os cartuchos foram cedidos pela própria polícia.

A sede do Banco de Boston, em São Paulo, abriga o enorme painel vertical (5 m x 2,60 m), cuja base é em pasta de carvão e terra vermelha. Sobre ela, figuras humanas e de animais inspiradas em pinturas rupestres pré-cabralinas. Uma delas, em ouro.

Ano passado, Siron montou uma exposição (ou instalação) baseada principalmente em fotos do também goiano Rui Faquini. A mostra, ou libelo, ocupou generoso espaço do Centro Cultural Banco do Brasil, que fez parte da estrutura da Rio+20, pra denunciar a destruição do Cerrado brasileiro.

As peças continham os mais variados aspectos do Cerrado. Vegetação, insetos, solo, fauna, flores, frutos, arquitetura, água e tudo o que de mais belo se pode encontrar nesse bioma. Isso, somado ao que há de mais doloroso, como o fogo predatório, a motosserra, as máquinas com seus correntões, que derrubam tudo o que houver pela frente.

E assim segue Siron com sua arte, derrubando preconceitos, denunciando injustiças, apontando caminhos. Com beleza invulgar.

Fotos: comunidademoda.com.br; lulacerda.ig.com.br

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Jaime Sautchuk

Jornalista. Escritor

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