Foi uma derrota política, não um desastre irremediável – 

Sempre que se sofre uma derrota, principalmente política, a sensação é de que nosso projeto desabou e não tem mais jeito. A partir dessa sensação começamos a procurar culpados pelo desastre, sem deixarmos a poeira que embota o nosso senso crítico baixar e fazer análise criteriosa do que nos levou à derrota sem derrotismos.

Historicamente as esquerdas sofrem da síndrome do catastrofismo. Em 1935, com a derrota do “Levante Comunista”, buscou-se culpados pelo desfecho do processo. A discussão estabeleceu uma luta interna dentro do Partido que durou muitos anos, em virtude das consequências que a derrota ocasionou ao movimento revolucionário brasileiro e às relações internacionais dos comunistas do Brasil.

Após o golpe de 1º de abril de 1964, caminhando pela Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro, com um grupo de camaradas gráficos, depois de vermos frustradas as promessas de resistência do comandante dos fuzileiros navais almirante Aragão, ergueu-se um verdadeiro ‘muro de lamentações’ entre nós. Cada um tinha motivos, análises, ou setores para despejar as culpas da derrota. Tudo dentro do achismo próprio desses momentos de angústia.

Nos meses que se seguiram, a bola da vez era a direção do PCB. Tecia-se crítica à política de frente-ampla com a burguesia; ilusão de classe que impediu organizar a militância para resistir; A culpa era do Prestes, de ter, como dirigente principal, confiado em demasia no esquema militar de Jango; Aos dirigentes sindicais do CGT, culpavam pelo erro tático da greve geral dos transportes que impediu a população de ir para as ruas. Nesse processo de crítica e autocrítica caía-se no terreno pantanoso da busca de um “bode expiatório” para justificar a derrota.

A praxis e prática se encarregaram de mostrar o caminho. A primeira como objeto de observação desempenha um papel relevante neste processo de autocrítica. A segunda, como se sabe, depende da prática social e para que ela se consolide é importante a passagem dos anos. Isto não significa que ela seja eterna. Com a correta aplicação dos conceitos de “práxis prática”, o movimento popular e os setores progressistas da sociedade conseguiram derrotar a ditadura militar de 64 e chegar até aqui.

Depois de 13 anos do governo democrático e popular, nova derrota surpreende a sociedade e os movimentos populares com um golpe.

Diferente de 64, que foi um movimento militar com apoio de amplas parcelas da população classe média, o golpe de agora foi desfechado pelo Congresso Nacional, pelo judiciário, pelo Ministério Público e pela Polícia Federal e apeou do poder uma presidente eleita democraticamente, com sofismas de legalidade.

Da mesma forma de antes, estamos embaralhados na busca de culpados pelo desfecho. Muito se tem escrito e especulado sobre a derrota e como superá-la.

Dentro do próprio partido majoritário, surgem opiniões, explicações e propostas das mais diversas, dependendo da corrente política interna do partido. Algumas absurdas, propondo a dissolução ou mudança do nome do Partido dos Trabalhadores.

O mesmo caminho tomado pelos comunistas do PCB, que se transformaram em PPS e hoje atuam como “correia de transmissão” de partidos de direita. O açodamento levado por derrotas pontuais no institucional, não abre espaço para aplicação correta da análise com base na “práxis e na prática”.

A onda neoliberal em curso que atinge o Brasil e o mundo chegou como um tsunami e com o governo ilegítimo instaurado busca cumprir a agenda de reestruturação da cadeia produtiva, a precarização do trabalho, com a retirada de direitos sociais consagrados na CLT e na Constituição Federal. Para azer oposição a essa onda, temos que refletir a expectativa da ditadura de agora, instaurada sem tanques nas ruas, somente com o apoio das togas e da mídia conservadora. Refletir sobre como retomar a confiança dos trabalhadores, que não se movimentaram para defender as suas conquistas e o estado democrático de direito.

Não é hora de procurarmos os “culpados” pelo retrocesso. Devemos retomar, sem hegemonismos de grupos ou partidos, a unidade das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, MST, os movimentos sociais independentes, para uma reação de classe à agenda de desmonte dos direitos sociais e trabalhistas, em defesa da soberania nacional, preceitos colocados na agenda neoliberal em curso, das forças que estão temporiamente no poder.

Se soubermos reencontrar o caminho que nos levou as grandes jornadas de pós-ditadura de 1964, veremos que sofremos uma derrota política e não um desastre irremediável.

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Trajano Jardim

Jornalista

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