Brumadinho, Mariana, e os versos proféticos de Drummond: “O Rio? É doce. A Vale? Amarga.”

“Sim, podemos também escolher uma morte de súbito pela derrama dos minérios, sem anúncio, com ameaças públicas, feito bravata. Não haverá tempo para escapar. Nada de poder seguir para outro abrigo, outro lugar de exílio, pois de súbito cai a lama tóxica, podre de rica, com um valor admirável agreado da mineração. Nosso ouro virou veneno. “A Terra virou uma ferida,” disse, há tempo, o poeta.”  –   Ailton Krenak.

Por Zezé Weiss

Em 5 de novembro de 2015, um crime ambiental ainda sem punição permitiu o rompimento da barragem de rejeitos do Fundão, da Samarco Mineradora, controlada pela Vale e BHP/Biliton, no distrito de Bento Rodrigues, no município de Mariana, estado de Minas Gerais.

Com 19 vidas humanas perdidas e um dano ambiental incalculável para toda a bacia do Rio Doce, a tragédia de Mariana foi anunciada e documentada por pesquisadores e cientistas como o maior desastre associado à exploração de minérios até então registrado em todo o mundo.

Em 25 de janeiro de 2019, pouco mais de três anos depois, deu-se outra tragédia em terras mineiras, em uma barragem rejeitos da Vale. Na tarde desta última sexta-feira, uma outra barragem desabou, no município de Brumadinho, a pouco mais de 120 quilômetros da barragem do Fundão.

Em Brumadinho, a  lama de rejeitos cobrou mais vidas humanas: até a noite deste sábado, 26, o Corpo de Bombeiro de Minas Gerais confirma a morte de 34 pessoas, e mantém uma lista de 250 outras pessoas desaparecidas. A própria Vale reconhece que as mortes serão muitas.

Dessa vez, o rio atingido é o Paraopeba. Pro meio dele, os rejeitos já passaram pela aldeia indígena dos Pataxó e avançam, rumo ao São Francisco. Há barragens hidrelétricas no caminho, mas não nenhuma certeza de que o lixo fétido da Vale não alcançará o Velho Chico. É provável que, assim como em Marina, os rejeitos de Brumadinho também rompam barreiras levando seu rastro de poluição até o mar.

Em 1984, Carlos Drummond de Andrade publicou seu poema “Lira Itabira”, versos proféticos sobre o conflito entre a mineradora Vale e a vida ribeirinha nos sertões mineiros. Era pra ser sobre o Rio Doce. Hoje a dimensão do poema alcança também o Rio Paraopeba. Em sua profecia, Drummond nunca foi tão doído, tão cortante, tão pungente e tão atual.

LIRA ITABIRANA

I

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“O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II

Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III

A dívida interna
A dívida externa
A dívida eterna

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IV

Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

 


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