Cheia em Marabá é um alerta das mudanças climáticas 

Subida das águas do rio Tocantins veio em volume recorde e antes da hora; eventos extremos já são efeito do aquecimento global…
Por Amazonia Real

Manaus (AM) – É a maior cheia das últimas três décadas para o mês de janeiro no rio Tocantins e ela chegou antes da hora. Os registros históricos indicam que as maiores cheias ocorreram em fevereiro, março, abril ou maio. Na quarta-feira (19), segundo a Defesa Civil, o nível do Tocantins atingiu o pico de 13,9 metros –  em 1990, chegou a 14,4 metros. Mas às 18 horas de segunda-feira (24) o boletim já indicava que o rio começava a baixar, alcançando 11,72 centímetros.
O produtor musical Itair Rodrigues, 35 anos, que divide a casa com seus pais já idosos, diz estar assustado com a altura onde a água chegou neste ano. Morador do bairro da Marabá Pioneira desde 1990, ele afirma que as águas não chegavam tão próximas de sua casa desde 1997. Naquele ano, o bairro todo ficou ilhado e ele precisou se mudar com sua família para outro lugar mais alto.
“A diferença é que o rio chegou nesse nível por volta dos meses de março e abril, período quando as chuvas começam a diminuir por aqui. Este ano ainda estamos em janeiro. O acesso pela avenida principal (Avenida Antônio Maia) ainda está acontecendo normalmente. A minha preocupação é que ainda tem muita chuva pra cair até abril”, disse Rodrigues.
Cerca de 4 mil famílias foram atingidas por essa cheia inesperada. A Defesa Civil de Marabá informa que, atualmente, há 1.368 desabrigados e 13.158 desalojados. Os moradores de mais de dez bairros se deslocaram para pontos mais altos do município. Além de Marabá, a enchente afetou cerca de 30 municípios do norte do estado do Tocantins, onde mais de 3 mil pessoas também precisaram sair de casa. Propriedades rurais foram atingidas, animais tiveram de ser resgatados.
Como a cheia chegou antes, e apesar de o rio Tocantins já começar a baixar, a orientação é para as famílias permaneçam nos abrigos da prefeitura. Ao todo, são mais de 100 abrigos no município. Conforme o Serviço Geológico do Brasil (sigla CRPM), a cheia do rio Tocantins também atinge os estados de Maranhão, no Nordeste, e Goiás, no Centro-Oeste.
Segundo o CRPM, se as chuvas persistirem intensas, outros estados da região Norte poderão sofrer com inundações previstas para o primeiro semestre deste ano. A maior cheia já registrada em Marabá nos últimos dez anos deveria servir de alerta para os efeitos da crise climática.

Eventos extremos

Cheia do rio Tocantins no bairro São Félix em Marabá (Foto: Alex Ribeiro/Agência Pará)

O volume das chuvas está relacionado com o fenômeno climático “La Niña”, que faz com que a região Norte fique mais chuvosa durante essa época do ano. Com o resfriamento da temperatura dos oceanos, aumenta a incidência de chuvas. Mas a bióloga e doutora em ecologia Ludmila Rattis, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Woodwell Climate Research Center, adverte que com o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera e “uma consequente mudança da temperatura dos oceanos, temos uma série de eventos que se desencadeiam o que chamamos de eventos climáticos extremos”. Na prática, é possível constatar o aumento da temperatura e mudanças na distribuição da chuva.
Dentro de um intervalo curto de tempo tem chovido mais do esperado o mês inteiro. Palmas, capital do estado do Tocantins e que faz divisa com o Pará, registrou mais de 800 milímetros de chuvas entre novembro e meados de janeiro deste ano. Só em Marabá, no sudeste paraense, foram 363 milímetros nesse período, segundo a Climatempo
Os municípios não estão preparados para esse aguaceiro. “O nosso sistema de escoamento, o asfalto das cidades ou os próprios rios não têm como assimilar todo esse volume de água que cai de uma vez só. Temos que ver também onde que está caindo, em área que antes era floresta e agora é um terreno pavimentado”, diz Ludmila. “Isso vai se transformar em enchente, vai entupir bueiro, a casa das pessoas e tudo mais.”
Embora as mudanças climáticas estejam se tornando cada vez mais visíveis, as políticas públicas estão longe de enfrentar esse problema, criticam pesquisadores como Ludmila. “O governo, em qualquer instância municipal, estadual, federal não começa a inserir as mudanças climáticas como parte do processo de planejamento de obras, de orçamento, de execução do projeto. Temos que levar em conta que o clima já mudou, e vai mudar ainda mais.” 
O Corpo de Bombeiros Militar do Pará informou à reportagem que o Governo do estado do Pará tem reforçado os programas de cidadania para os atendimentos médicos das pessoas afetadas pela enchente, emissão de documentos, auxílio-financeiro de um salário mínimo e doação de cestas básicas e colchões.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) disse que as chuvas que têm atingido a bacia do Tocantins “são decorrentes da forte convergência de umidade no centro do Brasil, estabelecido pela zona de convergência da América do Sul”. Esse sistema meteorológico, segundo o Inmet, é o responsável pelo volume de chuvas no centro do Brasil no período do verão. “Como as chuvas começaram a voltar em Goiás de maneira isolada, a previsão do aumento da intensidade das chuvas nos estados do Goiás e Tocantins causou o aumento das chuvas na bacia do Tocantins como um todo”, informou.

Cheia do rio Tocantins inunda Marabá no Pará (Foto: Prefeitura de Marabá)

 



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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
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Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
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