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Elizabeth Teixeira: Eu continuo na luta!

Em 13 de julho de 2021, Elizabeth Teixeira, a militante das lutas do campo brasileiro, liderança das históricas Ligas Camponesas, completou seus 96 invernos. Em 19 de fevereiro, a trabalhadora rural, cidadã nascida no ano de 1925, na fazenda Anta do Sono, no município paraibano de Sapé, distante cerca de 50 quilômetros de João Pessoa, capital da Paraíba, foi vacinada contra a Covid-19…

Por Zezé Weiss

De Elizabeth Altina Teixeira, a moça da roça, filha de fazendeiro, que teve que enfrentar a família para se casar João Pedro Teixeira, um homem preto, pobre, sem-terra e, ainda por cima, da luta, a longa vida sempre exigiu teima e coragem. Em 1962, com a morte do companheiro, Elizabeth assumiu a liderança do movimento camponês no município de Sapé.

O amor a João Pedro a fez fugir de casa para morar com ele, aos 16 anos. Grávida do segundo filho, mudou-se com João Pedro para Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, e ali o ajudou a fundar o Sindicato dos Trabalhadores da Construção. Por causa da luta, a João Pedro faltou emprego e a família voltou para a Paraíba onde, ajudada por familiares, produziu seus 11 filhos e passou a liderar a luta das Ligas Camponesas no estado.

“Eu continuo na luta!”. A reação de Elizabeth após o assassinato do companheiro, morto pelas costas, com três tiros de fuzil, fez dela exemplo de resistência para o movimento dos trabalhadores rurais de Sapé, da Paraíba e do Nordeste. Nessa luta renhida, enfrentou o machismo da época e abriu picada que outras mulheres, como a amiga Margarida Maria Alves, pudessem liderar espaço de defesa dos camponeses e camponesas do Nordeste, que viviam, praticamente, em estado de escravidão.

Por conta de sua luta por direitos, terra, trabalho e dignidade, por combater o latifúndio no interior da Paraíba na década de 1960, foi presa diversas vezes, passou a viver na clandestinidade, com o nome de Marta Maria da Costa, em São Rafael, no Rio Grande do Norte, depois do golpe militar de 1964. E, provação maior, viu dois de seus filhos, José Eudes e João Pedro, serem assassinados pelo latifúndio e perdeu a filha mais velha, que se matou, por medo de que a mãe tivesse a mesma sorte do pai.

Os anos de clandestinidade duraram até 1981, quando o cineasta Eduardo Coutinho a reencontrou e a fez protagonista do documentário “Cabra Marcado para Morrer”, iniciado em 1964 e interrompido durante a ditadura militar. Lançado em 1984, “Cabra Marcado para Morrer” é considerado por críticos de cinema como um dos melhores documentários brasileiros de todos os tempos.

No Rio Grande do Norte, Elizabeth sobreviveu como lavadeira de roupa e dando aulas. Ela conta que, mesmo na clandestinidade, nunca deixou de defender a Reforma Agrária, causa que continua defendendo até os dias de hoje.

Em 2017, em um encontro como presidente Lula, ela disse: “Enquanto houver a fome e a miséria atingindo a classe trabalhadora, tem que haver luta dos camponeses, dos operários, das mulheres, dos estudantes e de todos aqueles que são oprimidos e explorados. A luta não pode parar!”.

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Depois de descobrir que havia sido beneficiada pela Lei da Anistia, de 1979, Elizabeth, que vivia “exilada” apenas com um de seus filhos, voltou para a Paraíba, onde, depois de 20 anos, reencontrou a filharada e foi morar em João Pessoa, em casa doada pelo cineasta Eduardo Coutinho.

Aos 81 anos, quando foi homenageada pelo Senado brasileiro, Elizabeth marcou posição em seu discurso de agradecimento:

“O que eu considero importante é que o nosso povo brasileiro se una, fiquem todos unidos, lutando por uma reforma agrária. A maior alegria da minha vida se eu tomasse conhecimento de que fosse implantada uma reforma agrária em nosso país, e que todos os homens do campo tivessem condições de sobreviver ali na terra, melhorar essas condições do trabalhador da terra, isso aí era o que eu tinha mais prazer na minha vida, e hoje, na idade em que estou, tomasse conhecimento de um movimento desses.”

O relatório final da Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba, reconhece que o Movimento das Ligas Camponesas, aliado aos sindicatos dos trabalhadores rurais, foi o que melhor retratou a resistência dos povos da terra no cenário de confronto do campo brasileiro durante o regime militar. À frente do espaço de luta aberto pelas Ligas Camponesas, a presença aguerrida de Elizabeth Teixeira não somente fez história, mas também, e principalmente, abriu caminho para que outras mulheres, como Margarida Maria Alves e as que a sucederam pudessem seguir teimando em nome da Resistência.

A anciã serena que, do alto de suas nove décadas de vida, ofereceu o braço para receber a vacina da Covid-19 meses atrás, já recebeu e recebe grandes homenagens, dentre elas o Diploma Bertha Luz, do Senado Federal, e a Medalha Epitácio Pessoa, a mais alta honraria do Estado da Paraíba.  E para alegria sua, a casa onde viveu com João Pedro em Sapé foi tombada e hoje abriga o Memorial das Ligas Camponesas.

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Zezé Weiss – Jornalista. Editora da Revista Xapuri.
@zezeweiss


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