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Nós, os primitivos, voltamos e somos milhões

Por: Pedro Tierra

 

Fomos conduzidos ao pelourinho das palavras.

Ao açoite público sob a luz impiedosa da tarde.

Arrastados pelas ruas.

Atados às patas dos cavalos.

 

O sangue, o sal, a carne em postas,

Exposta ao sol para o horror dos olhos:

a aterradora pedagogia do medo

gritando no alto dos postes da imensa Vila Rica.

continua depois da propaganda

 

De onde brota a sinistra raiz desse ódio?

Do édito

_ que não concebe a recusa.

Dos punhos de renda

_ que rejeitam a mão que a moenda mastigou.

continua depois da propaganda

Do senhor

_ que não tolera o gesto insubmisso.

Da voz

_ que arma a mão do feitor.

 

Essa que maneja a lava da palavra

continua depois da propaganda

e dissolve com seu fogo os passos que cumprimos.

Sonham,  senhores e áulicos, nos converter em

cinzas

e nos lançar aos ventos definitivos.

 

Mas, dobramos a esquina e  nos recompomos

continua depois da propaganda

na voz de um peão

que ecoa a força dos séculos,

na pedra da praça e nos redime.

 

Sitiados pelo silêncio

– o silêncio aqui são os rios da palavra morta

continua depois da propaganda

ditada à diário sob os nossos olhos _

rompemos o submisso idioma do conformismo.

Invadimos a terra cercada e os espaços do mando.

 

Recriamos o espaço das ruas

(e das redes virtuais que a ordem não captura…)

carregamos pelas ruas a bandeira da liberdade.

Desafiamos o pelourinho.

Já não dobramos o dorso,

já não baixamos os olhos.

Com o corpo coberto de cicatrizes,

portando estrelas no peito,

nos olhos a invencível vocação de mar,

nós, os primitivos,

voltamos e somos milhões.

 

 Pedro Tierra – Poeta da Liberdade, em “A Estrela Imperfeita”, Fundação Perseu Abramo, 2014.

 
continua depois da propaganda